A tempestade Kristin, que afetou um vasto conjunto de concelhos da região Centro, não se limitou a derrubar árvores ou a cortar faixas de rodagem. O seu impacto mais grave foi outro: deixou milhares de pessoas sem eletricidade e, sobretudo, sem comunicações.
As redes móveis deixaram de funcionar, os telefones fixos ficaram inoperacionais e a internet desapareceu. Em várias localidades, as populações ficaram sem qualquer meio de contacto. Um país moderno não pode aceitar que, perante uma tempestade, comunidades inteiras fiquem em silêncio absoluto.
Este colapso resulta de um modelo errado, baseado na concentração das infraestruturas de telecomunicações e energia ao longo das grandes vias, como a A1, muitas vezes sob corredores arbóreos mal geridos. Assisti, numa breve passagem por esta autoestrada, a árvores caídas sobre linhas elétricas, cabos de telecomunicações e nós críticos de rede.
Mais preocupante é o facto de a rede SIRESP, uma vez mais, ter falhado. Um sistema concebido para garantir comunicações de emergência em cenários de crise voltou a revelar limitações graves precisamente quando era mais necessário. Esta recorrência de falhas não pode continuar a ser tratada como um detalhe técnico; é um problema estrutural de confiança e de resiliência operacional.
A tempestade Kristin expôs também a dependência quase total das populações em relação às redes móveis comerciais. Abandonaram-se, ao longo dos anos, soluções simples e redundantes, como a Banda do Cidadão, que durante décadas permitiu comunicação direta, autónoma e independente da rede elétrica.
A Banda do Cidadão é uma banda livre, legal e funcional. Com um investimento na ordem dos 150 euros, ou menos, qualquer cidadão pode dispor de um sistema de comunicação autónomo num veículo ou em casa. Não substitui redes profissionais, mas pode evitar o isolamento total em situações críticas. Ignorar esta realidade é continuar a aceitar um país vulnerável.
Enquanto persistir a lógica da concentração, da dependência de um único sistema e da ausência de redundância, cada tempestade continuará a expor o mesmo falhanço. Não é falta de tecnologia. É falta de visão.

