Temos olhado, e bem, para o que falha no topo. Está na hora de olhar com a mesma firmeza para o que apodrece a casa por dentro por relatos de queixas também existem e não são poucos os que me chegam diariamente .
Fala-se muito da podridão nos CB e com razão o dedo aponta logo às direções, aos comandos, às chefias, às cadeiras. E sim, muita merda mora aí, mas o problema não acaba no topo nem desce sozinho por magia, como se cá em baixo andasse tudo em procissão de santos, auréola ao pescoço e espírito de missão em saldos, não anda… Há CB”s onde o lodo já nem escorre só das cadeiras ,circula de farda vestida no meio da corporação, muito penteadinho e muito convencido de que o quartel é um concurso de popularidade com sirene e continência!
Temos cada vez mais gente nos bombeiros a passear a farda limpa por fora e a alma em estado de esgoto por dentro. Gente que não entrou para servir a missão, entrou para se servir dela. Gente que não quer proteger a casa, quer posicionar-se nela. Não está ali pela entrega, pelo espírito de corpo ou pela causa. Está ali pelo cargozinho e pelo nome no ouvido certo. Para essa malta, o quartel não é um corpo de bombeiros, é um LinkedIn com mangueiras!!!
E o problema destas maçãs podres nunca é só aquilo que são, é aquilo que estragam. Andam dentro dos CB’s para abrir fendas, desgastar relações e abrir caminho para subir por cima dos outros. Não querem uma corporação forte, querem uma corporação suficientemente partida para poderem fazer figura no meio da ruína. Porque no mérito morriam à fome. Na competência passavam fome de semana inteira! Ao lado de gente séria, trabalhadora e com coluna, desapareciam mais depressa do que muita coragem quando chega a hora de assumir merda feita.
Há gente assim nos CB’s que vendia a própria mãe por um lugar mais perto de quem manda. E se a mãe viesse com vaga para chefe de qualquer coisa, ainda a embrulhavam com laço. Aproximam-se devagar, com ar prestável, voz mansa, disponibilidade estratégica e aquela preocupação muito comovente que floresce sempre que há um gabinete ou um ouvido com poder de decisão por perto. Hoje ajudam, amanhã já minaram um colega, plantaram uma dúvida, espalharam uma boca, puxaram um tapete e deixaram meio quartel a olhar de lado para o outro meio.
Não fazem equipa, fazem novela. Não criam espírito de corpo,criam episódios. Aquilo não é missão, é uma telenovela rasca com farda e rádio SIRESP( quando funciona ).
E depois ainda aparecem muito indignados com a instabilidade.
Mas indignados com o quê exatamente?
Com o incêndio que eles próprios ajudam a atear, com o ambiente tóxico que alimentam ou com a divisão que lhes dá palco? Muitos dos que choram a podridão dos CB’s são os mesmos que a fabricam todos os dias com mexerico, alianças de conveniência, recados de corredor e uma fome nojenta de protagonismo. São incendiários com discurso de bombeiro. Pegam fogo à casa por dentro e depois aparecem com cara séria a perguntar porque está tudo a arder. Quase só falta levarem prancheta, colete e pose institucional para fazer o relatório da própria filha da putice…
O mais ridículo é que muitos destes artistas da intriga vivem de vender dedicação. São bombeiros de vitrine, muito bons para a pose, impecáveis para a fotografia, ótimos a circular com cara de quem resolve tudo, mas na hora de servir a missão a sério não metem um corno que justifique metade do aparato..
E é aqui que está o ponto. Já que se aponta tão depressa o dedo quando a podridão vem de cima, então que se aponte com a mesma firmeza quando ela nada no meio da corporação. Porque nem toda a ameaça a estabilidade de um CB vem das cadeiras ,muita dela anda fardada no meio da formatura, entra no mesmo turno, sorri no mesmo corredor e bate continência com uma mão enquanto com a outra enfia o punhal..E essas maçãs podres não são um detalhe. São um cancro. E um cancro não se gere com paninhos quentes, reuniões muito produtivas, discursos sobre união e cafés cheios de conversa de merda sobre ambiente institucional. Corta-se antes que mate o resto.
Já era hora de tratar estas figuras com a mesma dureza com que se fala dos maus comandos e das más direções. Porque um CB não apodrece só por quem manda mal. Apodrece também por quem, cá dentro, mina tudo o que toca, destrói tudo o que não consegue controlar e troca a missão por uma corrida nojenta ao poder. E convenhamos, há por aí muito artista da farda impecável e da alma em modo contentor do lixo, muito pavão de corredor armado em águia operacional, muito especialista em parecer importante quando na verdade só é barulho com botas.
E os bons também vão ter de escolher de que lado estão. Porque já não chega não ser podre. Já não chega fazer o seu e fingir que não veem. Está na hora de apontar o dedo aos maus colegas, aos que minam equipas, alimentam veneno e apodrecem a casa por dentro. Quem enterra um colega com uma mão e com a outra ajeita o material dentro da farda deve ser apontado com a mesma força com que se aponta quem ocupa um cargo sem saber ocupá-lo. Porque cada vez que os bons se calam, os podres respiram de alívio. E uma corporação onde os bons se encolhem para não incomodar os maus não está unida, está refém!
P.S: Nos bombeiros a missão é grande, mas o mundo é pequeno. E mais cedo ou mais tarde tudo acaba por revelar a intenção com que foi usado. Porque neste meio a intenção costuma chegar muito antes da desculpa.
Enquanto houver coragem para denunciar o lodo de cima mas cobardia para arrancar o lodo de dentro, a corporação continuará doente. E podridão destas não se gere, limpa-se.
Atenção aos jogos duplos. Um dia a encenação falha e a verdade aparece fardada de frente.


