É incontornável. A realidade da sociedade atual é completamente diferente da do passado. Entrei pela primeira vez na porta do quartel da minha associação de sempre, Cascais, aos catorze anos, há mais de meio século.
Depois, até agora, nos últimos 35 anos tenho sido dirigente da mesma. Digo isto apenas para testemunhar que ao longo destes anos de forma direta e interventiva tive a oportunidade participar nas mudanças que a dinâmica associativa e a própria sociedade foram introduzindo nas nossas associações.
Todos temos muito orgulho no passado das associações mas a forma como no passado funcionaram operacionalmente e administrativamente é hoje impensável de repetir por múltiplas razões. Muitas dessas razões são conhecidas. Novos hábitos e condições de trabalho, o aumento exponencial dos pedidos de socorro, o transporte doentes organizado que durante muitos anos não se fez, a título de exemplo, alteraram radicalmente a vida das associações. Desde logo, obrigaram a ter mais bombeiros disponíveis, limitando muito o recurso à disponibilidade ocasional de voluntários presentes no quartel e exigindo também novos métodos de gestão, não só pela evolução da própria lei, mas também devido aos compromissos financeiros crescentes e aos montantes em presença.
Por estas e outras razões tudo mudou. E estão condenadas ao fracasso as tentativas de recuperar as regras do passado para as implementar hoje, o que já foi, já foi. E hoje trata-se de honrar o passado, sem dúvida, mas à luz das mudanças que a própria sociedade foi sofrendo. O voluntariado é um tema hoje a abordar noutros moldes.
Antes, qualquer um, nas folgas ou nos momentos de lazer passava pelo quartel, o que hoje já não acontece habitualmente. Á partida isso não quer dizer que o voluntariado esteja em crise. Quer dizer que a disponibilidade e o ritmo de vida muitos mudou e que importa também uma nova abordagem do tema pelas associações.
Nesse domínio, a reaproximação à comunidade é fundamental. E as escolas de infantes e cadetes tem sido um bom expediente para isso. Primeiro, cativando as crianças e os jovens para uma atividade positiva para a sua formação de cidadania e uma eventual porta aberta mais direta nos bombeiros.
Em segundo lugar, cativando também os pais e familiares das crianças para a participação e os progressos destas nas atividades das associações. Há testemunhos de pessoas que, por via das escolinhas, entraram pela primeira vez no quartel da sua localidade e tiveram contato com essa realidade. Importa tirar partido disso. A reaproximação dos bombeiros à comunidade por essa via poderá traçar novos horizontes.
Rui Rama da Silva

