Há dores que não fazem fumo, não acionam sirenes e não aparecem nos relatórios. Mas queimam por dentro. Todos os dias. As transferências nos bombeiros são uma dessas dores. Um assunto tratado em voz baixa, quase como se fosse vergonha, quando na verdade devia ser um alarme nacional. Fala-se pouco, olha-se menos ainda, e segue-se caminho como se cada pedido não trouxesse uma história pesada às costas.
Há temas que continuam a ser tratados como incómodos no mundo dos bombeiros. As transferências são um deles. Fala-se pouco, regista-se menos ainda. Contam-se entradas, contam-se saídas, mas as transferências ficam num limbo conveniente, como se fossem apenas movimentos administrativos. Alguém olha para estes números com olhos de ver? Alguém se pergunta o que é que eles realmente dizem?
Porque uma transferência não é um nome que desaparece da escala. É uma pessoa cansada. É alguém que tentou ficar. Que insistiu. Que acreditou que ainda dava para aguentar mais um pouco. Nem sempre se sai por questões logísticas ou geográficas. Essa é a versão limpa, confortável, a que não levanta ondas. A verdade é menos elegante.
Muitas transferências são pedidos de socorro educados. Daqueles que não fazem barulho, mas que deviam acionar sirenes. Uma transferência é, muitas vezes, a marcha de urgência que separa um bombeiro ativo de uma farda dignamente arrumada.
É preciso dizê-lo sem rodeios. Nem todos podem sair. Nem todos podem mudar. E isso não faz de ninguém menos bombeiro, menos digno ou menos inteiro. Há quem fique porque não tem opção. Por família, por trabalho, por contexto, por falta de alternativa. Ficar, nessas condições, também é coragem.Também é resistência,também dói.
E mesmo quando se pode sair, sair dói sempre. Dói ainda mais quando é a primeira casa. Aquela onde se entrou cheio de idealismo, onde se aprendeu a ser bombeiro, onde se construiu identidade, laços e memória. Ninguém abandona a primeira casa sem levar cicatrizes. Quem diz o contrário nunca saiu a sério.
Hoje um amigo disse-me quem muda, Deus ajuda. Frase curta. Crua. Pesada. Daquelas que caem como um capacete encharcado depois de horas no terreno, quando o corpo já não responde e a cabeça está no limite. Senti o peso de cada palavra. Senti a dor dele como se fosse minha. Mas não era. O luto dele ainda agora começou. O meu, por dentro, já está resolvido.
Mudar não é apenas sair. Mudar é, muitas vezes, dignificar-se. É recusar a estagnação. É perceber que ficar pode ser mais destrutivo do que partir. É não permitir que o desgaste nos transforme naquilo que mais criticamos. Não há romantismo nisto. Há sobrevivência. Há escolha. Há limite.
O problema nunca foi quem fica. O problema é fingir que ficar à força é lealdade. Não é. É sobrevivência. E sobreviver num lugar que já não é casa corrói devagar. A resignação não faz barulho, não gera comunicados, não aparece em relatórios. Mas cobra. Cobra no cansaço crónico, na motivação perdida, na alma que vai ficando para trás turno após turno.
Mudar quando se pode é um ato de consciência. Ficar quando não se pode sair é um ato de resistência. Ambos doem. Ambos têm custo. Ambos merecem respeito.
E fica o alerta que ninguém gosta de ouvir. Um bombeiro que pede transferência para outro corpo não é um bombeiro fraco. É um bombeiro que ainda quer continuar. E são esses que deviam preocupar a sério.
A todos os que me têm procurado com dúvidas e receios, no meio de processos longos e penosos, daqueles que consomem por dentro como um fogo a lavrar desgovernado, lembrem-se disto.
Ninguém combate um incêndio de frente quando já não há condições. Atacam-se os flancos. Reduz-se a cabeça. Ganha-se espaço para respirar.
Isto não é desistir.
Isto é saber ler o fogo antes que ele nos leve a casa toda.
Ariana Ribeiro – @destacar


