Existem paredes que guardam muito mais do que uma boa estrutura de betão consegue suportar.
Há quartéis que deixam de ser edifícios e passam a ser gatilhos.
O portão, o cheiro da garagem, as viaturas alinhadas, os corredores.
A sala onde tantas vezes se riu, se esperou e se engoliu choro para ninguém ver.
E depois há a sirene….essa sirene que para uns é chamada, para outros é memória, para alguns é orgulho e para muitos é uma ferida a tocar por dentro.
Porque há sirenes que não acabam quando a ocorrência termina. Ficam presas ao peito. Agarradas à garganta. Guardadas entre a saudade, a mágoa e tudo aquilo que nunca foi dito.
Às vezes basta passar à porta. Ver alguém fardado. Reconhecer uma voz. Uma cara. Uma matrícula. Uma publicação. Uma ocorrência na zona.
E pronto!! A ferida abre…
Sem aviso. Sem licença. Como se uma sirene antiga voltasse a tocar só para lembrar que há coisas que ainda não sararam.
Sair de um CB nunca é só sair, é deixar turnos, noites, cafés bebidos à pressa, chamadas que ficaram na pele, camaradas que foram família e momentos em que se deu tudo sem perguntar se valia a pena.
Mas também é deixar paredes que viram injustiças, silêncios, afastamentos, desilusões e dores que ninguém teve coragem de explicar.
E há dores que não acabam no dia em que se entrega a farda.
Continuam quando se passa naquele portão e o peito aperta. Continuam quando se ouve uma sirene ao longe e já não se sabe se aquilo é saudade, mágoa, raiva ou luto. Continuam quando o som que antes fazia correr hoje faz parar por dentro.
Quem olha de fora acha que é só “seguir em frente”.
Há quartéis onde muita gente foi feliz. Há quartéis onde muita gente se partiu por dentro. E há quartéis que conseguem ser as duas coisas ao mesmo tempo, e uma coisa não anula a outra..
A dor de uns não apaga o orgulho de outros. O brio de quem ficou não anula a mágoa de quem saiu. As boas memórias não eliminam as feridas. E as feridas também não apagam tudo o que ali foi vivido com entrega.
Mas é preciso dizer, não se pode continuar a chamar exagero à dor de quem saiu ferido.
Não se pode fingir que certas paredes só guardam medalhas, fotografias bonitas e discursos de cerimónia, e boas garganta
Guardam mais, entre lágrimas engolidas ,conversas nunca tidas, missões menos bem sucedidas , respostas nunca dadas, e valor nunca reconhecido
Sirenes que continuam a tocar em pessoas que já nem estão na escala.. essa será sempre a sirene mais alermanente aquela que ninguém vê mas a com o ruido mais ensurdecedor.
Nem sempre quem sai quer guerra, às vezes só queria ter sido ouvido. Só queria ter sido respeitado. Só queria não ter chegado ao ponto de sentir que sair era a única forma de continuar a respirar.
Porque há lugares que magoam sem levantar a voz. Há estruturas que ferem com silêncio. Há casas que dizem defender os seus, mas só se lembram deles quando convém à fotografia.
No fim, há quartéis que continuam de pé, mas já não são casa para muita gente,
São memória.
São ferida.
São aviso.
Dizem que desistir não é opção, mas fingir que não doeu também não.
Porque a farda pode sair do corpo, mas há sirenes que nunca mais saem do peito.
P.S.: Diariamente recebo mensagens carregadas de mágoa. De quem saiu, de quem ficou e de quem está naquela linha fina entre aguentar ou ir embora antes de se perder de vez. Independentemente do local, somos muitos. Infelizmente, muitos. Ser firme também pode ser sair. O que não pode ser é baixar a cabeça, engolir merda em silêncio e fingir que qualquer parede aguenta aquilo que já nos rebenta por dentro.
@maioresfas

