José Manuel Moura alerta que Portugal está melhor preparado para a época de incêndios rurais, mas sublinha que os meios de combate, por si só, não garantem resposta suficiente se o país enfrentar condições meteorológicas semelhantes às registadas no verão passado. O presidente da ANEPC defende mais prevenção, melhor gestão do território e o reforço da Força Especial de Proteção Civil para cerca de 1000 operacionais.
Portugal prepara-se para a época mais crítica de incêndios rurais com o maior dispositivo de sempre, mas o presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, José Manuel Moura, avisa que esse reforço pode não ser suficiente perante um verão extremo.
Numa entrevista em que analisou os desafios operacionais para os próximos meses, o responsável da ANEPC recordou o verão de 2025, que classificou como “extremamente difícil”, marcado por longos períodos de severidade máxima, temperaturas superiores a 40 graus, humidades relativas muito baixas e vento significativo.
“Temos o melhor dispositivo de sempre. Vamos ter mais equipas, mais veículos, mais meios. Mas se tivermos um ano como o passado, não é mais dois meios aéreos ou mais 20 equipas que vão fazer a diferença”, alertou José Manuel Moura.
Segundo o presidente da ANEPC, a diferença faz-se sobretudo através da prevenção operacional e estrutural. A limpeza do território, a gestão da paisagem, a abertura de acessos, o cadastro da propriedade e a redução da carga combustível continuam a ser fatores determinantes para limitar a progressão dos incêndios.
Tempestade Kristin agravou o risco no território
José Manuel Moura destacou ainda o impacto da tempestade Kristin, que deixou extensas áreas do território com árvores caídas, caminhos obstruídos e grande quantidade de material lenhoso no solo.
Para a Proteção Civil, este cenário representa um risco acrescido. Com as árvores tombadas e sem o seu consumo natural de humidade, o material acumulado pode funcionar como um rastilho para a propagação do fogo, especialmente em zonas de interface urbano-florestal.
A ANEPC, em articulação com o ICNF, a AGIF, a GNR e as Forças Armadas, está a identificar freguesias prioritárias e a intervir nas zonas mais afetadas. O objetivo passa por desobstruir caminhos florestais, garantir acessos aos meios de socorro e proteger populações mais afastadas dos centros urbanos.
O responsável lembrou, contudo, que não será possível resolver tudo em poucas semanas. “A dimensão e a experiência internacional mostram-nos isso. Em França, uma situação semelhante demorou três ou quatro anos a regularizar”, referiu.
Imagens de satélite e meios aéreos no apoio à prevenção
Para apoiar o planeamento operacional, a ANEPC acionou o programa Copernicus, através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, de forma a obter imagens de satélite em permanência.
A Força Aérea está também envolvida na identificação das zonas mais críticas, com voos de reconhecimento, enquanto as Forças Armadas colaboram nos trabalhos de prevenção e apoio logístico.
José Manuel Moura sublinha que maio e junho serão meses decisivos para intervir no terreno antes do período mais crítico, embora alerte que os incêndios de maior complexidade já não se concentram apenas em julho e agosto.
O presidente da ANEPC recordou que países sem tradição relevante de grandes incêndios, como a Holanda e a República Checa, já recorreram recentemente ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil para resposta a incêndios rurais, sinal de que os fenómenos extremos estão a alterar a realidade operacional na Europa.
Ataque inicial resolve a maioria dos incêndios, mas o problema está nos restantes
A estratégia nacional continua assente no ataque inicial. Após um alerta, os meios devem ser mobilizados rapidamente, com meios aéreos e viaturas dos corpos de bombeiros posicionadas em triangulação no raio da ignição.
Segundo José Manuel Moura, esta resposta tem funcionado na esmagadora maioria dos casos, permitindo resolver cerca de 96% das ocorrências numa fase inicial.
O problema surge nos incêndios que escapam ao ataque inicial e passam para ataque ampliado. São esses, explicou, que exigem maior capacidade técnica, coordenação reforçada e meios especializados.
“O ataque ampliado é um incêndio que já não se apaga apenas com água; apaga-se mais com a cabeça”, afirmou, defendendo que os incêndios mais complexos exigem análise técnica, conhecimento do comportamento do fogo e equipas altamente qualificadas.
ANEPC quer reforçar Força Especial de Proteção Civil
Para responder a incêndios de nova geração, José Manuel Moura defende o reforço da Força Especial de Proteção Civil, atualmente com cerca de 260 profissionais.
O objetivo, segundo o presidente da ANEPC, deve ser aproximar esta força dos 1000 elementos, criando uma estrutura mais musculada e especializada para intervenção em ataque ampliado.
Além da FEPC, o dispositivo conta também com a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da GNR, com cerca de 1100 a 1200 operacionais. Ainda assim, José Manuel Moura considera que Portugal precisa de reforçar as suas forças especializadas, adequando os meios aos novos riscos.
“Para situações diferentes, também meios diferentes”, defendeu.
Alterações climáticas obrigam a mudar a resposta
O presidente da ANEPC considera que as alterações climáticas já estão a alterar profundamente a forma como o país deve encarar os incêndios rurais.
Os períodos de risco são cada vez mais prolongados, os fenómenos extremos mais frequentes e o calendário tradicional das estações deixou de ser uma referência segura para o planeamento operacional.
José Manuel Moura defende, por isso, que o dispositivo tem de estar preparado para responder não apenas em julho e agosto, mas também em abril, maio e junho, meses em que já podem ocorrer incêndios com comportamento severo.
Apesar do reforço de meios, o responsável insiste que a resposta não pode continuar centrada apenas no combate. A prevenção, a gestão do território e a qualificação dos operacionais serão determinantes para enfrentar incêndios mais violentos e imprevisíveis.

