Aparentemente, aos 26 anos uma mulher já pode vestir uma farda, fazer socorro, cumprir serviço, assumir responsabilidades e carregar o peso de uma corporação às costas. Só não pode chegar a comandante sem que meia dúzia de fiscais do apelido lhe peçam a árvore genealógica nos comentários do Facebook.
Carolina Rosário assumiu o comando dos Bombeiros do Juncal aos 26 anos. Uma notícia que devia ser recebida com orgulho, incentivo e respeito, sobretudo numa área onde durante anos as mulheres tiveram de provar o dobro para lhes reconhecerem metade.
Mas claro, bastou aparecer uma mulher jovem num lugar de comando para nascer imediatamente nos comentários uma comissão popular de fiscalização genealógica.
Li de tudo. Que fica tudo em família. Que o pai é presidente. Que está tudo explicado. Que ainda tem muito que aprender. Que assim qualquer mulher pode ser comandante. Um verdadeiro congresso de especialistas em mérito, regulamentos e árvores familiares, reunido no sítio mais nobre da nação, os comentários do Facebook.
Tenham lá paciência…..
Diariamente existem ligações entre direções e comandos que fazem estremecer as estruturas de muitos corpos de bombeiros, que prejudicam homens e mulheres operacionais com anos e anos de casa, que afastam bons elementos, que alimentam perseguições, guerras internas, compadrios, vaidades e pequenos reinados montados em cima do desgaste dos outros.
E aí eu não vejo tanta gente preocupada…..
Aí a moralidade fica de folga. A ética vai beber café. A transparência mete baixa…
Mas aparece uma mulher jovem a assumir um comando e, de repente, acorda tudo para a fiscalização. Já querem estatutos, incompatibilidades, certidões, prova de ADN e, se calhar, um teste de esforço à árvore genealógica.
E é aqui que a coisa fica clara. Se fosse um homem, chamavam-lhe aposta interna. Como é uma mulher de 26 anos, chamam-lhe suspeita. E pronto, está feita a radiografia ao problema. Não dela. Nosso!!!
Porque se fosse um homem jovem, com ligações à direção, conhecido da casa, criado naquele meio, provavelmente não era tema. Era continuidade. Confiança. Sangue novo. Um rapaz com futuro. Uma escolha natural.
Como é mulher, é logo caso para perícia, debate público e autópsia ao apelido.
É nova? Tem 26 anos? E então?
Há gente com décadas de farda que nunca aprendeu a comandar nem o próprio ego. Há quem confunda liderança com vaidade, autoridade com autoritarismo e comando com capricho. Mas esses já têm idade, e pelos vistos a idade, em certos sítios, serve de ambientador para disfarçar incompetência.
E sim, ela ainda tem muito que aprender. Como todos tiveram. Como todos têm. A diferença é que a alguns homens dão tempo para crescer. Às mulheres cobram perfeição antes da primeira ordem dada.
O que me parece é que há muita gente já sentada à espera da primeira falha. Já pediram café? Já puxaram a cadeira? Já têm o comentário pronto para escrever eu bem avisei?
Que contributo magnífico para os bombeiros. Não se ajuda. Não se constrói. Não se espera para ver. Senta-se e torce se pela queda. Muito nobre. Muito bombeiro. Muito tudo.
Esta notícia devia ser motivo de orgulho. Durante anos, ser mulher numa corporação já era difícil. Entrar era difícil. Ficar era difícil. Ser respeitada era difícil. Subir era difícil. Comandar então, para alguns, continua a parecer uma afronta ao património masculino da farda.
Mas as coisas mudam. Felizmente!
Hoje há mulheres em lugares de comando a fazer um excelente trabalho. Pedrouços tem uma comandante. Santo Tirso tem adjunta. E há muitas outras por esse país fora a liderar com competência, firmeza e dignidade, mesmo que isso cause alergia a quem ainda acha que certos lugares vinham com género incluído.
Porque, lamento informar os saudosistas do avental, o lugar destas mulheres não é na cozinha. É no TO. É na decisão. É no comando. É exatamente onde alguns ainda achavam que elas nunca deviam chegar. É onde a competência as levar e onde a coragem as mantiver.
Depois dizem que a sociedade evoluiu, que já não há machismo, que o que interessa é a competência, pois , a conversa é linda, a prática continua a coxear das duas pernas…
Mas não vale a pena dar palco ao que nasceu para rodapé!
O que merece destaque é isto. Uma jovem de 26 anos assumiu o comando de uma corporação de bombeiros. Isso tem peso. Tem coragem. Tem responsabilidade. Tem simbolismo. E, pelos vistos, incomoda, ainda bem.
Às vezes a evolução começa precisamente quando deixa algumas pessoas mal sentadas.
Boa sorte, Comandante Carolina Rosário que tenhas força, discernimento, firmeza e coluna. Que lideres bem, que aprendas muito e que nunca deixes que te diminuam antes sequer de te verem trabalhar.
E que dês uma bela chapada de luva branca a todos os que hoje te medem pelo apelido, pela idade ou pela família.
Porque no fim, quem agora comenta de dedo em riste talvez ainda acabe a bater-te continência.
E aí, confesso, vai saber maravilhosamente bem.
Ariana Ribeiro

