Incêndios: Xavier Viegas admite “negligência” e denuncia rede eléctrica “abandonada”
A falta de manutenção das faixas da rede eléctrica de baixa tensão por parte da ERedes/EDP “foi causa de muitos incêndios, de muitas mortes”, avisa o especialista.
O especialista em incêndios florestais Domingos Xavier Viegas manifestou aos deputados da Assembleia da República dúvidas sobre a existência de “acções concertadas” nos negócios ligados aos fogos, mas admitiu “alguma negligência” e que o sistema carece de maior supervisão.
“Eu não nego que tal suceda [negócios fraudulentos], mas tenho dúvida de que o volume destes negócios seja relevante e significativo”, disse o director do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais, referindo-se à possibilidade de existirem suspeitas de fraude em alguns negócios associados à gestão dos fogos rurais.
Ao longo da audição — a terceira desta CPI
(https://www.publico.pt/2026/04/07/azul/noticia/sande-silva-afasta-mito-fogo-postopreciso-mexer-instituicoes-2170420) —, sustentou não ter “conhecimento directo” de actividades ilícitas ligadas aos negócios dos incêndios, quer de madeireiros, quer de empresas de materiais de apoio à actividade de combate, e considerou que “não haja propriamente uma concertação de grande dimensão”.
“A expressão maior da suspeita levaria a considerar que pessoas interessadas empregariam meios para causar mais incêndios, para reduzir a eficácia do combate, para haver maior duração dos incêndios, mais reacendimentos e, por consequência, maior área ardida. Tenho dúvidas de que haja acções concertadas nesse sentido”, disse Domingos Xavier Viegas, admitindo a existência de “acções que manifestam alguma
negligência neste âmbito”.
Negligência na rede eléctrica
Como exemplo, o investigador referiu o facto de não se usarem produtos retardantes no combate, o que considerou ser uma “negligência muito grande”, pois tal facilita os fogos e reduz “a eficácia do combate, sobretudo os meios aéreos, que são aqueles mais dispendiosos”.
Outra das negligências apontadas pelo especialista é a inexistência de dados sobre o movimento das aeronaves, nomeadamente a ausência de informação sobre onde estão a voar e onde descarregam os helicópteros e os aviões, além de ter manifestado uma “grande preocupação” com a gestão das faixas da rede eléctrica de baixa tensão.
A falta de manutenção por parte da E-Redes (subsidiária da EDP), recorda, “foi causa de muitos incêndios (https://www.publico.pt/2020/02/17/economia/noticia/incendios-edpdistribuicao-constituida-arguida-processo-fogo-monchique-1904476), de muitas mortes”.
O especialista em incêndios florestais alertou mesmo para um aumento do número de fogos que começam durante a noite com origem na rede eléctrica.
“Há uma causa a que parece muito importante prestar atenção que é a causa da rede eléctrica. Conheço vários incêndios que começam com rede eléctrica de noite. A rede eléctrica está abandonada no meio do território e à noite há episódios de vento que potenciam [os incêndios]”, afirmou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aos negócios dos incêndios florestais.
Na opinião de Xavier Viegas, “a sociedade e o país têm estado a prestar pouco atenção a este assunto e por vezes a investigação das causas não é feita com o devido cuidado”.
Perigos do eucalipto
O especialista sublinhou que, embora a gestão do combustível seja um factor determinante na propagação dos fogos, existem características intrínsecas a certas espécies que não podem ser ignoradas. Para Domingos Xavier Viegas, “há fundamento físico para considerar esta espécie (/azul/abc-da-terra/especie) [eucalipto] perigosa”,
acrescentando que, dadas as suas propriedades de combustão, “o eucalipto é mais perigoso do que o pinheiro”.
Como medida de mitigação (/azul/abc-da-terra/mitigacao), Xavier Viegas reforçou que a solução passa por romper com a continuidade das grandes áreas arborizadas. Segundo o director, é imperativo criar “mosaicos de descontinuidade” que impeçam a progressão rápida das chamas.
A título de exemplo, sugeriu a adopção de práticas internacionais de gestão de combustíveis, como a fragmentação das operações de limpeza ou fazendo a poda das árvores de forma repartida, permitindo assim um controlo mais eficaz da biomassa (/azul/abc-da-terra/biomassa) acumulada.
Cidadãos mais envolvidos
Domingos Xavier Viegas disse ainda que “o sistema carece de uma maior supervisão pelos próprios cidadãos e depois pelas entidades responsáveis”.
“O cidadão está no início, no meio e no fim de cada incêndio”, insistiu o investigador, sublinhando a importância de mais investimentos em programas como o “Aldeias Seguras, Pessoas Seguras”, que devem garantir um salto qualitativo no trabalho com as populações. Em alguns casos, acusa, “o que se tentou implementar era esquelético”, tendo ficado “muito pelo show off”.
“Todo este sistema dos incêndios, como, aliás, outras coisas no país, anda em roda livre. Ninguém as vigia. E temos de olhar para isso”, apelou, acrescentando que a CPI, “mais do que a mera busca de fraudes em negócios”, deveria “identificar e corrigir diversas outras falhas que existem”
Fonte: Lusa

