Carta aberta à genialidade logística da E-Redes
Caros senhores,
Foi com genuína admiração que assistimos à vossa mais recente inovação, transformar uma falha estrutural milionária numa culpa alheia. É preciso talento para gerir uma infraestrutura crítica nacional e, no fim, apontar o dedo a quem aparece encharcado a resolver o caos.
Segundo a vossa narrativa, a eletricidade não volta porque os Bombeiros não “limparam o caminho”. Extraordinário. Durante anos pensámos que manutenção, prevenção, meios próprios e equipas operacionais eram responsabilidade de quem cobra tarifas. Afinal, bastava terceirizar tudo… incluindo a vergonha.
As vossas equipas sub-sub-subcontratadas chegam ao terreno, olham para um poste, suspiram, e concluem que “não dá”. Falta material. Falta acesso. Falta vontade. Mas nunca falta o descaramento de pedir aos Bombeiros que façam o vosso trabalho, de borla, claro. Responsabilidade empresarial em modo low cost.
Convém esclarecer uma coisa básica, já que parece haver confusão, os Bombeiros não são funcionários da vossa manutenção.
Não são o vosso plano B.
Não são o vosso álibi mediático.
Cada minuto que passam a abrir acessos para vocês “ligarem o fio” é um minuto roubado a uma emergência real. Mas isso não entra nas vossas contas. Entra apenas nos lucros.
E aqui chegamos à pergunta inconveniente:
onde está o dinheiro que os portugueses pagam todos os meses?
Na manutenção não está.
Nas equipas não está.
Na capacidade de resposta também não.
Culpar Bombeiros é fácil. Eles não fazem comunicados, fazem serviço. Trabalham à chuva, no risco, no silêncio. Vocês trabalham nos gabinetes, nas desculpas e na transferência de culpas.
A luz não falhou por causa dos Bombeiros.
Falhou porque uma empresa rica prefere comportar-se como um pedinte à porta dos quartéis.
Respeitem a farda.
Assumam a vossa incompetência.
E, se não sabem gerir uma rede elétrica, talvez esteja na hora de entregar a concessão a quem saiba o que é serviço público.
Portanto, sim: respeito total por quem anda no terreno, nomeadamente funcionários que só seguem ordens superiores , zero tolerância para uma gestão que prefere desculpas a soluções.
Sem cumprimentos,
mas com memória.
Ariana Ribeiro – @destacar


