Na sequência das recentes intempéries associadas à tempestade Kristen, que afetaram de forma significativa o concelho de Sobral de Monte Agraço, o portal Bombeiros.pt procurou recolher um testemunho direto da liderança autárquica sobre a resposta operacional, os impactos no território e os desafios que se colocam no futuro.
Esta entrevista pretende contribuir para uma análise mais ampla sobre a capacidade de resposta local face a fenómenos extremos, cada vez mais frequentes no nosso país.
O portal Bombeiros.pt agradece à Senhora Presidente da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, Dra. Raquel Soares Lourenço, a disponibilidade e colaboração demonstradas ao aceitar este convite, contribuindo para o esclarecimento público e para a valorização do trabalho desenvolvido no terreno por todos os agentes envolvidos.
- Face à intensidade das intempéries associadas à tempestade Kristen, como avalia a capacidade de resposta imediata do concelho quer ao nível dos meios municipais, quer da articulação com bombeiros e proteção civil?
O concelho foi severamente afetado por condições meteorológicas extremas, com impactos sociais, ambientais e económicos relevantes, que exigiram uma resposta intensiva dos meios à escala municipal.
A atuação dos agentes locais de Proteção Civil foi rápida, coordenada e eficaz, assegurando apoio contínuo às populações ao longo de vários dias. Destaco a articulação permanente entre o Serviço Municipal de Proteção Civil e os Bombeiros, que permitiu garantir uma resposta operacional globalmente positiva.
Apesar dos danos significativos em infraestruturas públicas e privadas, foi possível cumprir a missão essencial de proteção e socorro, salvaguardando vidas humanas.
- Quais foram as principais vulnerabilidades expostas no território durante este episódio (infraestruturas, linhas de água, acessibilidades, etc.), e que lições concretas retira desta ocorrência?
Neste período verificou-se uma sucessão de ocorrências em curtos intervalos de tempo, designadamente abatimentos de vias, quedas de árvores, muros e postes, danos em equipamentos associativos, habitações, empresas e explorações agrícolas, bem como galgamentos de linhas de água e inundações.
Nesta sequência, as principais vulnerabilidades registaram-se ao nível da rede viária, motivando cortes de via e condicionamentos à circulação, assim como ao nível da rede elétrica e de telecomunicações, com interrupções do serviço, e, numa fase subsequente, ao nível da rede de abastecimento de água, motivando falhas prolongadas no abastecimento às populações, agravando significativamente as dificuldades sentidas.
Como principais lições, destaco a importância da coordenação entre equipas no terreno e a necessidade de reforçar o investimento na resiliência das infraestruturas e do território.
- Como funcionou, na prática, a coordenação entre município, corpos de bombeiros, GNR e outros agentes de proteção civil? Houve constrangimentos que importa corrigir?
A coordenação foi assegurada pela autarquia, através do Serviço Municipal de Proteção Civil Atendendo a que, em virtude da saturação dos solos, foram surgindo novos danos de forma sucessiva, foi ativado o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Sobral de Monte Agraço, ouvida a Comissão Municipal de Proteção Civil. A ativação deste instrumento permitiu reforçar a capacidade de resposta operacional, através da mobilização de meios humanos e equipamentos adicionais.
Os agentes locais de Proteção Civil revelaram-se determinantes na resposta às diversas ocorrências. A sua prontidão e capacidade operacional foram essenciais para mitigar os impactos verificados no território. Neste contexto, a Câmara Municipal aprovou, por unanimidade, um voto de louvor aos profissionais envolvidos, designadamente aos trabalhadores do Município e das Freguesias, aos elementos dos Bombeiros Voluntários de Sobral de Monte Agraço e aos militares da Guarda Nacional Republicana.
Considero, igualmente, que a articulação com as entidades regionais e nacionais decorreu de forma adequada, tendo sido possível assegurar o reforço de meios sempre que tal se revelou necessário, quer através do apoio de outras Associações Humanitárias da Sub-região do Oeste e da Sub-região de Lisboa, quer mediante a colaboração do Exército Português.
- Que impacto direto estas intempéries tiveram na população, nomeadamente em termos de habitação, acessos e segurança, que medidas estão a ser implementadas para apoiar os mais afetados?
Ao nível das infraestruturas públicas, os principais prejuízos registaram-se na rede viária municipal, face às situações de deslizamento de taludes, colapsos de pavimentos, obstruções de vias e instabilidade das plataformas rodoviárias, afetando significativamente a mobilidade. Neste momento, já foi possível repor a circulação em diversas vias, mas o Município está a desenvolver empreitadas para reparação das restantes.
Quanto ao património privado, verificaram-se danos em habitações, empresas e explorações agrícolas, tendo sido dado o devido encaminhamento para solicitação dos apoios disponibilizados pelo Governo no âmbito das Calamidades 2026. Durante as intempéries, foi ainda assegurado o devido acolhimento aos cidadãos que ficaram desalojados ou que, por razões de segurança, foram temporariamente deslocados das suas habitações.
- Perante a crescente frequência destes fenómenos extremos, que medidas estruturais pretende o município implementar para reforçar a resiliência do concelho a curto e médio prazo?
É prioritário concluir a revisão do Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil e reforçar a prevenção.
Destaco a necessidade de investimento na manutenção regular da rede viária e na modernização da rede de abastecimento de água, reduzindo o risco de falhas em situações críticas.
Estas medidas são essenciais para aumentar a capacidade de resposta e resiliência do território e mitigar os impactos de fenómenos meteorológicos extremos.
