Lídio Lopes apresentou a renúncia ao cargo de Presidente da Direção da Escola Nacional de Bombeiros (ENB), com efeitos a partir de 1 de outubro de 2026. Na carta em que comunica a decisão, o dirigente aponta um clima de pressão e conflito institucional, dirigindo críticas particularmente duras à Liga dos Bombeiros Portugueses e à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.
Na carta de renúncia, dirigida à Presidente da Mesa da Assembleia Geral da ENB, Lídio Lopes informa que abandona funções antes do final do mandato, inicialmente previsto para 1 de julho de 2027.
O ainda Presidente da Direção refere que considera já não existirem as condições de “tranquilidade, previsibilidade e estabilidade” necessárias ao exercício das funções.
No documento, Lídio Lopes atribui diretamente a sua decisão ao atual Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, afirmando estar confrontado com aquilo que classifica como uma “ameaça/chantagem de demissão da Direção da ENB”.
Considera terem sido ultrapassadas “linhas vermelhas” no relacionamento institucional e rejeita o que descreve como pressões e ameaças permanentes.
Academia Superior de Bombeiros no centro do conflito
Um dos principais pontos de divergência prende-se com a intenção de integrar no organograma da ENB um departamento denominado “Academia Superior de Bombeiros”.
Lídio Lopes considera que essa alteração seria, neste momento, prematura, sem enquadramento financeiro suficiente e sem condições organizacionais para avançar.
Segundo explica, a concretização futura da Academia dependerá ainda de financiamento, alterações no quadro de pessoal e do próprio processo académico e de acreditação.
O dirigente entende, por isso, que a criação imediata daquela estrutura não teria utilidade prática e poderia até prejudicar o processo que se pretende desenvolver.
O Presidente cessante refere ainda que a criação de dois cargos de direção associados à nova estrutura poderia representar cerca de 120 mil euros adicionais anuais em despesas com pessoal, num contexto que descreve como financeiramente exigente para a Escola.
Críticas à ANEPC no planeamento da formação
A carta contém também críticas significativas à ANEPC relativamente ao planeamento e execução da formação dos bombeiros.
Lídio Lopes afirma que, em 2025, ficaram por utilizar 315.599 euros destinados a formação de aperfeiçoamento técnico, de uma verba inicialmente cabimentada de 686.455 euros.
Refere igualmente que a sub-região do Alto Minho, com 12 corpos de bombeiros e cerca de 650 bombeiros, não teve qualquer ação desse tipo durante o ano.
Relativamente a 2026, afirma que, entre 1 de janeiro e 30 de agosto, toda a Região Norte, abrangendo oito sub-regiões, 144 corpos de bombeiros e 10.174 bombeiros, teve “zero ações” de formação de aperfeiçoamento técnico solicitadas pela ANEPC à ENB.
Outro dos temas abordados é o atraso nas convocatórias para formação.
Lídio Lopes rejeita que esses atrasos sejam da responsabilidade da ENB e sustenta que a Escola depende da constituição e envio das turmas pela ANEPC.
Na carta, chega a relatar situações em que os formandos já se encontravam nas salas quando receberam formalmente as respetivas convocatórias.
“Ingerência permanente” na gestão da ENB
Lídio Lopes acusa igualmente o Presidente da LBP de uma “ingerência permanente” em matérias que considera da competência da Direção da Escola.
Entre os exemplos apresentados está a gestão das Unidades Locais de Formação, referindo que a ENB terá sido impedida de avançar com novos protocolos enquanto não fosse resolvida a inexistência de uma ULF no distrito de Beja.
O dirigente critica ainda aquilo que entende ser uma falta de autonomia institucional da Escola e a passividade da ANEPC perante algumas das posições assumidas pela LBP.
Dois anos marcados por crescimento da formação
Apesar das críticas que sustentam a renúncia, uma parte importante da carta é dedicada ao balanço do trabalho realizado pela atual Direção.
Lídio Lopes destaca a melhoria da relação com os formadores externos da ENB, que cifra em 1.159, o aumento do valor pago por hora de formação, maior regularidade nos pagamentos, reposição de fardamento, abertura de novos cursos de formação de formadores e implementação de uma nova plataforma de formação.
Entre as áreas de formação recuperadas ou criadas durante o mandato, o documento refere, entre outras, condução de veículos, salvamento em águas rápidas, cheias e inundações, salvamento em grande ângulo, mergulho, intervenção em túneis e várias componentes de gestão operacional.
O Presidente cessante destaca particularmente a formação em escoramentos, referindo que existiam cerca de 400 bombeiros formados em todo o território nacional e que, desde julho de 2024, foram formados mais 591 bombeiros nesta área.
ENB projeta mais de 25 mil formandos em 2026
Os dados anexados à carta mostram que a ENB realizou 1.962 ações de formação em 2024 e 1.955 em 2025.
Até 31 de agosto de 2026 tinham sido realizadas 1.491 ações, estando projetadas 2.060 até ao final do ano.
Em número de formandos, o documento aponta para 22.311 em 2024, 25.471 em 2025 e uma projeção de 25.950 formandos no final de 2026.
O documento revela, contudo, dificuldades na concretização de algumas ações.
Até 31 de agosto de 2026, terão sido canceladas 42 ações por falta de formandos e 45 por falta de formadores.
Renúncia produz efeitos a 1 de outubro
Lídio Lopes assegura que manterá a normal atividade da ENB até 30 de setembro, tendo solicitado que sejam acionados os mecanismos estatutários e legais necessários à sua substituição.
A renúncia produz efeitos a partir de 1 de outubro.
Na parte final da carta, o Presidente cessante rejeita que a decisão resulte de “razões pessoais” e reafirma que a sua saída decorre das circunstâncias institucionais que descreve ao longo do documento.
Afirma abandonar funções com a convicção de que deixa uma Escola Nacional de Bombeiros recuperada e em condições de prosseguir o trabalho desenvolvido.
O bombeiros.pt publica esta notícia com base no conteúdo integral da carta de renúncia de Lídio Lopes. As críticas e acusações reproduzidas ao longo do texto são atribuídas ao seu autor e correspondem às posições expressas no documento. O bombeiros.pt encontra-se disponível para publicar a posição da Liga dos Bombeiros Portugueses e da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil relativamente às matérias referidas.

