Nos últimos meses têm-se sucedido sinais de rutura, problemas e descontentamento em várias corporações. Mas, em vez de se discutir o que levou a isso, há cada vez mais gente preocupada com a exposição, com a imagem e com o escândalo. E isso diz muito, porque os problemas começam a repetir-se em corporações a mais para continuarem a ser tratados como casos isolados. O incómodo, para muitos, nunca é a porcaria. É já não dar para a tapar.
E lá vem a conversa das portas fechadas. Essa relíquia da cobardia institucional. Isto resolve-se internamente resolve-se tão bem que, quando se chega ao ponto de expor publicamente o desagrado, é porque atrás dessas portas já se falou, já se pediu, já se implorou, já se engoliram sapos e, muitas vezes, o charco inteiro, já se engoliu humilhação e, se fosse preciso, ainda se engolia a p* da agulheta. Mas aparecem sempre uns iluminados com pose de estadistas a dizer que faltou diálogo, claro…. Faltou diálogo, tal como ao Titanic faltou um balde.
Já cansa esta conversa de bosta que tenta vender a ideia de que demonstrar desagrado, denunciar saturação ou pôr a podridão à vista é moda, circo ou mania, moda. Ninguém se veste de desconforto, meus senhores, a menos que seja obrigado. Quando se tenta resolver tudo em silêncio, ninguém quer saber. Mas quando, depois de mil tentativas falhadas, se expõe publicamente o que ninguém quis ouvir em privado, aí já é barulho, ruído e má imagem. O problema, pelos vistos, nunca é a merda. É deixarem de a conseguir esconder.
Toda a gente se pode manifestar e fazer greve. Toda a gente pode vir para a praça pública denunciar abusos, incompetência, podridão e desgaste. Professores podem. Enfermeiros podem. Médicos podem. Auxiliares podem. Fazem greve, impõem serviços mínimos e aparecem logo alecrins dourados a chamar àquilo, luta legítima. Mas os bombeiros não.
Aos bombeiros quer-se silêncio, contenção e aquela postura fofinha de santo de altar, mesmo quando lhes andam a lixar a cabeça, a dignidade e o respeito há demasiado tempo. Talvez tenham mudado os requisitos de admissão. Agora só nos querem úteis, obedientes e mudos. E se conseguirmos sorrir e acenar ao mesmo tempo, então somos o pacote completo. Uma espécie de Barbie operacional, só que de vermelho e com mais fumo em cima!!
Depois há o grande drama da exposição. Ai que horror, ai que vergonha, ai que roupa suja em praça pública. Mas vender operacionalidade nas redes sociais e na televisão em horário nobre como se fosse campanha do Continente já não incomoda ninguém. “Chame para um contentor a arder e ganhe uma abertura de porta” grátis.” Na compra de um serviço de desencarceramento oferecemos-lhe uma selfie com a direção e um aperto de mão do comando. “Aí já não há exposição, já se chama proximidade, já se chama mostrar trabalho.
E depois há a fauna rara do costume, sempre enfiada nos ecrãs a falar de operacionalidade, a comentar desgraças e a transformar o socorro em conteúdo, muitas vezes sem sequer lá ter posto os pés. Aí já não há reserva, nem pudor, nem defesa da dignidade da farda. Muitos são especialistas na televisão, mas no CB nunca o serão. Deve ser um novo módulo de aprendizagem” especialista de opinião ” (alguém sabe se dá direito a emblema? É para um amigo ..)
Mas basta haver desagrado exposto e aparecem logo as virgens ofendidas da imagem institucional, muito chocadas, muito horrorizadas , engraçado. …Quem vai para a televisão comentar ocorrências e to’s sem lá ter estado, e quem inundam as redes sociais com fotos algumas até com as vítimas do socorro efectuado , também não está a expor ? não está também a expor colegas, meios e realidades operacionais? Ou essa exposição já vem benzida porque traz microfone, estúdio e ar compenetrado , e meia dúzia de likes ?
Aquilo a que insistem em chamar exposição e a condenar vivamente é, para muitos, a linha que separa da saída definitiva. Isto não é circo. Não é mania. É o último fôlego de quem andou demasiado tempo a falar para paredes e a bater em portas trancadas. Por isso, um bocadinho mais de respeito por quem hoje anda em luta interna não vos fazia mal nenhum. Até porque ninguém está livre…
Só lamento os que já não conseguem levar isto até ao fim, não por fraqueza, mas por cansaço. Porque chega a um ponto em que isto deixa de ser luta institucional e passa a ser uma lenta filha da putice psicológica que te vai mastigando por dentro até sobrarem só os ossos. E lamento ainda mais os que sofrem calados e ainda têm de levar com comentários de merda sobre a bem dita exposição, como se expor fosse um luxo ou um conforto para quem já está todo fodido por dentro…
Os sócios têm direito a saber, venha o problema de que parte for direção comando ou ate ovelhas manhosos da corporação .
Os corpos de bombeiros não vivem de apoios de São Marçal. Têm sócios, têm pessoas que pagam cotas e têm direito a saber se a casa está de pé ou segura por cuspo, remendos e meia dúzia de operacionais exaustos. Porque muitas vezes, sem este ruído que tanto incomoda os sensíveis da imagem, os sócios não sabem um terço do que se passa. E quando sabem, a procissão de saída de operacionais já vai com meses ou anos de avanço.
No fundo é isto. …..Enquanto for para mostrar medalhas, fitinhas, jantares, salamaleques, partos, ocorrências e posts cheios de coraçãozinhos, está tudo bem. Enquanto for para vender a farda, o heroísmo e a montra, ninguém se ofende, oproblema começa quando a vitrine racha.
No fim, o escândalo nunca foi o que veio a público, o escândalo é a quantidade de merda que tanta gente aceita desde que fique escondida.
Posso escrever menos. Fechar os olhos, não. Continuo atenta. Até breve, ou até à próxima exposição.
@destacar
Ariana Ribeiro


