Serra da Estrela: trabalhos de consolidação continuam

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Nota Portal Bombeiros.pt : A seguinte reportagem do jornal “Público” mostra a realidade a que se chegou durante o dia de ontem, porém a dificuldade não desapareceu e há ainda muito trabalho a ser efectuado neste momento em todo o perímetro do incêndio. A meteorologia parece estar a ajudar, mas a chuva teima em não cair em quantidade suficiente para o “rescaldo final” a este incêndio que consumiu uma imensa mancha do Parque Natural da Serra da Estrela.  incêndio gouveia

Depois de quase 48 horas de combate, o incêndio no Parque Natural da Serra da Estrela ficou dominado, com a chuva a ser muito mais do que bem vinda. O balanço está por fazer, mas a área ardida deve ser superior aos 2300 hectares.

“Dominado. Pode dar o incêndio como dominado”. António Ribeiro podia finalmente respirar de alívio, e dizer, a partir do posto de comando instalado num ponto alto da Serra da Estrela, junto à estrada que liga Gouveia a Manteigas que a ocorrência que mais meios mobilizou – e mais preocupações suscitou – durante toda a madrugada e dia de quarta-feira estava finalmente sob controlo. Eram exactamente 15h20 desta quarta-feira, pelo que foram precisas quase 48 horas e mais de 400 operacionais envolvidos para levar a melhor sobre um incêndio que consumiu uma das mais relevantes áreas de interesse paisagístico e ambiental do Parque Natural da Serra da Estrela.

António Ribeiro, comandante operacional do agrupamento distrital do Centro Norte, assumiu os comandos das operações na terça-feira à tarde. Quando o PÚBLICO o encontrou, às 13h desta quarta- feira de olhar fixo no horizonte e ouvido colado aos radiotransmissores, ainda não havia razões para sorrir. Confessou-se mais bem disposto do que umas horas atrás, mas os anos de experiência mostraram-lhe que a contenção é a melhor das posturas. Numa serra, controlar um fogo não é fácil, os acessos dificultam o trabalho e um parque natural é um terreno fértil às labaredas. Tudo é passível de ser combustível, a vegetação é vasta e torna-se uma inimiga a par da “personalidade” do vento. Uma mudança repentina pode anular horas de trabalho, por isso toda a precaução é tida em conta.

O vale do Mondeguinho, uma das áreas do parque natural de maior “importância ambiental, paisagística, florística, faunística e também turística” (palavras do director da zona Centro do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas – ICNF, Rui Melo), continuava ameaçado, e a progressão da teimosa frente de fogo continuava iminente. À primeira vista, as chamas estavam a perder a intensidade, no rádio ouviam-se os operadores dos helicópteros e aviões Canadair (estiveram seis meios aéreos envolvidos no incêndio) ao comentarem com os bombeiros apeados e os sapadores junto à frente de fogo que as largadas de água estavam a produzir resultados. As coisas estavam a correr favoravelmente, mas António Ribeiro não desarmava a preocupação. “A esta altitude é muito difícil prever como se vai comportar o vento. Em florestas como esta, a esta altitude, nada é by the book, temos de estar vigilantes e preparados para qualquer mudança. É difícil fazer previsões”, alerta.

Mas ele até tinha arriscado fazê-las. Em jeito de brincadeira, e depois de pela manhã ter consultado as previsões meteorológicas, tinha “apostado todas as fichas” que iria chover às 18h30. O céu parecia ameaçar bem mais cedo – mas a verdade é que há muito que as nuvens espessas e escuras que poderiam indiciar chuva se confundiam com o fumo emanado pela combustão da floresta. Durante duas horas, e enquanto o comandante quis ir pessoalmente à frente de combate ter com os homens no terreno, os que ficaram cá em cima agarrados aos rádios e aos comandos pediram-na, muitas vezes. À chuva. “Ai, se agora começasse a chover é que dava mesmo jeito. Há pouco chuviscou e nós nem saímos daqui. Os bombeiros gostam tanto de levar com a chuva”, dizia um operacional, natural de Gouveia, habituado a ver fogos na Serra, mas nunca “nesta zona de floresta”.

A temperatura já tinha começado a arrefecer, e muito. E os ventos começaram, a soprar mais fortes. Mas se a primeira característica é bem vinda, a segunda é um perigo. Porque as mudanças de direcção são repentinas. E um reacendimento pode transformar-se, subitamente, num enorme foco de preocupação. Como aquele que se manifestou junto à Pousada de São Lourenço. “Temos de fazer descargas aéreas de imediato. Se não o conseguirmos conter, desce até Manteigas. É um perigo”, alertava uma das vozes de comando, a orientar os meios aéreos que prontamente foram desviados do vale do Mondeguinho (não sem o “protesto” dos operacionais que estavam naquela frente de combate, e que insistiam na importância de ali continuar a fazer descargas).

As ordens sucediam-se, precisas e variadas. O combate a um incêndio desta dimensão faz-se com recurso às velhas tácticas do tempo de Napoleão. Dividir para reinar, para que o teatro de operações não se torne ingovernável. A zona de combate foi fraccionada em cinco frentes, cada qual com o seu comandante. Também se pedia a intervenção da Guarda Nacional Republicana, para se posicionar nas zonas de menor visibilidade para alertar os automobilistas que continuavam a conseguir atravessar a serra. Noutras zonas asseguravam-se os trabalhos de rescaldo – e eram os que foram feitos com máquinas de arrasto mais segurança davam aos operacionais no terreno.

Até que às 15h as nuvens escuras deixaram de significar fumo e passaram a significar chuva. Daquela grossa, apesar de pouco intensa. Vinte minutos depois regressava o comandante António Ribeiro, já com um sorriso na cara e pronto para dar a boa-nova: o fogo na Serra da Estrela está controlado e a extinção é o passo seguinte. “A chuva fez um milagre. Mas não actuou sozinha”, recordou o comandante, agradecendo os esforços de todos os operacionais. Naquele momento, estavam ainda 482 operacionais, auxiliados por 159 meios terrestres e oito meios aéreos.

Agora é tempo de calcular prejuízos e de voltar a falar de prevenção. Luís Tadeu, presidente da Câmara Municipal de Gouveia, admite que a paisagem é agora mais triste – e que não é bonito apreciar uma serra pintada de preto. Só dentro da área do parque natural arderam, numa contabilização ainda muito por alto, cerca de 2300 hectares. Rui Melo, do ICNF, citado pela Lusa, afirmou que essa contabilização será feita agora, depois de recordar que “foi feito um forte investimento na rede viária e de defesa da floresta contra incêndios” naquela área, lamentando que nem isso tenha impedido a progressão das chamas.

(Fonte: Público)

 




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).