“Se os bombeiros parassem era um desastre”

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Cerca de 85% do serviço de emergência médica em Portugal é feito por corpos de bombeiros voluntários, mesmo que a maioria não tenha compensação financeira pelo serviço que presta. Em Sacavém, traçam um retrato das dificuldades que as associações humanitárias de bombeiros enfrentam no dia a dia.

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Há um ano, quando fizeram o plano de contingência para a covid-19, os Bombeiros Voluntários de Sacavém tinham uma preocupação: não podiam parar. “Seria um desastre”, comenta Mário Pina, presidente da associação humanitária daquela corporação, já a caminho dos 124 anos de história. Uma preocupação que terá sido partilhada pelas mais de 400 associações de bombeiros, num total de 30 mil elementos, entre voluntários, sapadores e municipais. “Cerca de 85% do serviço de emergência médica em Portugal é feito por corpos de bombeiros voluntários”, alerta Jorge Jorge, segundo comandante daquela corporação na periferia de Lisboa para ajudar ao processo de imaginar o que aconteceria no país se estes homens e mulheres deixassem de estar ao serviço da população. “Isso é uma coisa que está fora de hipótese.” Mesmo que a maioria desta gente não tenha nenhuma compensação financeira pelo serviço que presta.

Chefe de vendas numa empresa que comercializa material de transmissão mecânica, Jorge Jorge é bombeiro voluntário há mais de 40 anos, desde que, aos 16 anos, um amigo que agora está no quadro de honra o levou a conhecer o quartel de Sacavém, ainda nas instalações antigas. “Fiz-me aqui bombeiro. Fiz-me aqui homem. O bom e o mau que sou como pessoa também foi muito do que aprendi aqui dentro”, diz. Conciliar a vida profissional, pessoal e a de bombeiro “é muito complicado” – basta perguntar à mulher, sublinha -, mas o que às vezes o faz pensar em ignorar o contrato moral que fez com a população quando decidiu ser bombeiro são “certas e determinadas situações que os nossos dirigentes e políticos tomam em relação aos bombeiros voluntários”.

Com 96 elementos, dos quais cerca de 50 são assalariados da associação humanitária, e um dispositivo automóvel “não muito grande, nem muito bom”, os bombeiros de Sacavém debatem-se com as mesmas dificuldades financeiras da maioria das corporações. “Esquecem-se muito dos bombeiros. Só se lembram quando há incêndios, quando há acidentes, quando está o ramo da árvore a cair para cima da varanda, e depois esquecem-se. Todos os outros esquecem-se que nós existimos. E estamos cá desde 1 de janeiro até 31 de dezembro. E muito sinceramente, ao fim destes anos todos, sinto-me mal comigo próprio porque não nos dão o justo valor que nós merecemos”, lamenta o segundo comandante, atualmente comandante em regime de substituição.

Subfinanciamento é problema

“Neste momento, o Estado não financia o socorro”, defende Mário Pina. O Orçamento de Estado para 2021 contemplou uma verba de 28,65 milhões de euros para os bombeiros, quando, compara, só a Câmara de Lisboa previu para os sapadores da cidade 42 milhões. “Nós temos, há décadas, desde sempre, problemas de subfinanciamento”, reafirma o presidente da associação humanitária, alertando para a necessidade de encontrar um mecanismo de financiamento das associações. Queixam-se que o INEM não cumpre o que está protocolado, que o dinheiro prometido para uma ambulância nunca chegou, que o valor atribuído por quilómetro não é atualizado desde 2011 e, em contrapartida, falam de todas as despesas implícitas à sua atividade. “Em vez de avançarmos, nomeadamente a nível financeiro, pioramos. Andamos, naquilo que se diz em bom português, de cavalo para burro”, sintetiza Jorge Jorge. “Os bombeiros voluntários, no meio disto tudo, são o parente pobre da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil“.

O facto de terem estado na linha da frente no combate à covid-19 e apenas 50% do corpo de bombeiros nacional ter sido vacinado é mais uma prova disso, considera. “Nós temos uma média de 30 serviços por dia, e com o covid houve menos serviços. Houve mais serviços foi de covid”, aponta Mário Pina. “Fomos o corpo de bombeiros que mais pessoas com covid ou suspeitas de covid transportou durante este período”, acrescenta o segundo comandante. Até dezembro foram 2020. E, no pico de janeiro, chegaram a ter uma ambulância parada 27 horas à porta do hospital de Santa Maria, em Lisboa.

A necessidade de fornecer a todos os efetivos equipamento de proteção individual fez aumentar as despesas da associação. Em consequência, além de terem falhado pagamentos a fornecedores para alocar essas verbas para a aquisição desse material, deram um “grito de alerta”. Do Estado, os bombeiros nacionais conseguiram uma verba adicional de três milhões de euros em 2021 para fazer face aos constrangimentos financeiros devido à pandemia. Da Câmara de Loures – “um parceiro importante” que no orçamento de 2021 contemplou as sete corporações do concelho com dois milhões de euros -, os bombeiros de Sacavém conseguiram mais uma ajuda. Ao longo de um ano tiveram seis casos de covid entre a equipa, nenhum contraído no quartel.

Com tantas dificuldades, os bombeiros deparam-se com outro constrangimento, que pode representar um problema no futuro: a crise de voluntários.

Diário de Noticias  – Sofia Fonseca

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Paulo Reis

Paulo Reis

É natural e residente em Esmoriz, a sua vida profissional está ligada à indústria automóvel nestes últimos 25 anos como CAD Designer. É um dos fundadores da Rádio Voz de Esmoriz, onde apresentou o programa de rádio “Bombeiros em Missão”. Está ligado desde tenra idade aos Bombeiros de Esmoriz onde fez parte da orquestra do Grupo Cénico e hoje, ocupa o posto de Subchefe. Foi responsável pelo Grupo de Comunicação & Imagem dos BV Esmoriz e integrou a equipa do portal bombeirosdeportugal.com. É o responsável do Departamento de Relações Públicas do portal Bombeiros.pt