Rescaldo 2015: ano de verão muito quente para os bombeiros

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3º. Lugar - prémio Bombeiros.pt Nome: Pedro Carvalho Prémio: 100€

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Nome: Pedro Carvalho
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Rescaldo 2015: ano de verão muito quente para os bombeiros

“Somos acarinhados, mas também somos criticados, e ao contrário do que muitas pessoas pensam e divulgam, cada vez mais as pessoas são exigentes para com os bombeiros, (…) e porquê? Nós não somos super-homens”. O desabafo é de Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais.

Ser bombeiro: elemento homem ou mulher, ”destemido e determinado” em ajudar o próximo, sem hesitar e muitas vezes arriscando a própria vida.

Um bombeiro é visto pela generalidade das pessoas como um “salva-vidas” que só faz falta quando a desgraça bate à porta.

Por vezes amados, outras vezes criticados. Mas quem anda no terreno, no socorro humanitário ou nos confrontos diretos com o inferno das chamas, alega muitas vezes não ter condições físicas ou psicológicas para continuar a ser um verdadeiro “soldado da paz”.

Todos os anos o serviço comunitário leva milhares de homens e mulheres a suportarem condições adversas. Às quais se junta, em alguns casos, a falta de preparação e de material de combate e proteção. Problemas que custam a vida a muitos bombeiros.

Em média, na última década, morreram seis bombeiros (5,8) por ano em Portugal, ao serviço da comunidade.

De 2005 a 2015, 58 bombeiros perderam a vida. Os anos de 2006 e 2011 foram os piores: morreram 19 bombeiros; 12 e sete, respetivamente.

A falta de condições de segurança para o exercício de funções, a insuficiência de equipamentos de proteção individual e a falta de meios de combate aos incêndios (viaturas apropriadas que ofereçam condições de segurança e cumpram as normas de segurança estipuladas por lei) constituem, do ponto de vista das associações de bombeiros em Portugal, os principais fatores de risco, que deveriam merecer uma atenção redobrada por parte da tutela.

O que é um bombeiro voluntário?
“Bombeiro é um indivíduo que, integrado de forma profissional ou voluntária num Corpo de Bombeiros, tem por actividade cumprir as missões destes, nomeadamente a proteção de vidas humanas e bens em perigo, mediante a prevenção e extinção de incêndios, o socorro de feridos, doentes ou náufragos, e a prestação de outros serviços previstos nos regulamentos internos e demais legislação aplicável”, define a Autoridade Nacional de Proteção Civil.

Mas será que, perante a exigência de funções, os bombeiros estão salvaguardados quanto ao bem mais precioso, a sua vida? A lei diz que sim. As associações de bombeiros têm dúvidas.

O “bom desempenho”
Fernando Curto, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), não se revê nas declarações do Comandante Operacional Nacional da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC), José Manuel Moura, quando este refere que o ano de 2015 foi bem conseguido no combate ao incêndios.

Fala em contrassenso e afirma ao site da RTP que os números apresentados pela ANPC têm por base uma estatística que pretende ocultar a descoordenação no terreno entre forças operacionais e o poder político.

Falhas no sistema
Fernando Curto não compreende como é que uma triplicação da área ardida, face ao ano de 2014, pode ser vista como um resultado positivo.

O presidente da ANBP refere que este último ano é reflexo de outros problemas que envolve várias entidades, uma complexa falta de material, formação e coordenação.

A prevenção e a organização dos vários dispositivos no teatro de operações são, para Fernando Curto, os principais problemas conjunturais no caminho quer dos profissionais, quer dos voluntários, no momento de travar as chamas nas florestas.

Mais formação e profissionalização dos bombeiros nacionais é um fator chave para a boa eficácia no terreno, defende: “Continuamos a defender que o dispositivo de recursos humanos deve investir numa maior profissionalização no sector, maior organização de intervenção bem como no socorro que é preciso implementar“.

“Continuamos a ter dificuldades de mobilização de recursos humanos, na extinção e durabilidade dos incêndios e depois existe também a disfuncionalidade dos equipamentos de protecção individual que uns foram entregues e outros não.”

Críticas que o Presidente da ANBP desfere às sucessivas tutelas.

“Os governos têm de ter a coragem [de solucionar estes problemas] e que o ministro da Administração Interna que vier a tomar posse e que ficar a tutelar este sector possa e construa uma organização que resolva estes problemas todos”, explicou Fernando Curto em conversa com a RTP.

Para o presidente do ANBP o desequilíbrio do investimento que se faz no combate face à prevenção é enorme e não faz qualquer sentido, porque é cíclico.

Equipamentos de combate individual por entregar
A compra e entrega de equipamento de proteção individual utilizado pelos bombeiros nos incêndios foi uma das bandeiras governativas na altura em que Miguel Macedo encabeçava o Ministério da Administração Interna.

Em 2013 foi lançado um primeiro concurso através das comunidades intermunicipais (CIM), para 50 por cento dos equipamentos, por cada associação de bombeiros, e passado dois anos muitas ainda não estão na posse desses meios de proteção individual.

Em maio deste ano, o então presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), Jaime Marta Soares, fazia referência a um acordo estabelecido com o MAI: “Ficou tratado em 2013 com o senhor ministro da Administração Interna Miguel Macedo que haveria uma verba de seis milhões de euros para equipar 50 por cento dos bombeiros portugueses”.

“Escusado será dizer que esses concursos, mais de dois anos depois, ainda não estão totalmente concluídos”, admitindo o presidente da Liga que foram entregues “vários equipamentos”, mas a grande maioria estava incompleta. Jaime Marta Soares afirmou mesmo, na altura, não entender como é que “uma coisa que era para estar entregue em maio de 2013 não foi ainda tudo entregue em maio de 2015”.

Também o presidente da ANBP, Fernando Curto, ouvido pelo site da RTP, confirma esta falta de entrega atempada de equipamento de proteção.

“Muitos dos equipamentos não foram distribuídos, alguns dos distribuídos não estavam regulamentados (…) espero que o Sr. Comandante Nacional de Bombeiros e a Autoridade Nacional de Proteção Civil tome medidas neste sentido. Houve mesmo corpos de bombeiros que devolveram equipamento porque não estava regulamentado”.

Voluntariado escasseia
Por outro lado, o número de bombeiros tem vindo a diminuir.

Segundo a Autoridade Nacional de Proteção Civil, a população de elementos humanos que estão dados como voluntários nas cerca de 450 corporações ascende a pouco mais de 42 mil homens, aos quais se juntam cerca de seis mil elementos profissionais.

Um número completamente diferente apresenta a ANBP, que fala entre 25 a 30 mil bombeiros no ativo em Portugal.

Fernando Curto refere que a permanente falta de incentivos profissionais e monetários, a normal aposentação (reforma), saída de força humana para o estrangeiro, ou mesmo uma falta de reconhecimento face ao estatuto bombeiro, estão a exercer uma pressão no sentido descendente.

Um problema que se agrava de ano para ano e que o presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais diz não poder ser invertido, a continuar o desinvestimento nesta área.

Um pau de dois bicos
Nos últimos anos a comunicação social, durante as principais épocas de incêndios em Portugal, mostra a adversidade e realidade vivida pelos bombeiros nos teatros de operações, bem como na proteção de pessoas e bens.

No terreno as forças muitas vezes não conseguem dar resposta às ocorrências registadas ou mesmo ao volume e intensidade dos fogos no terreno.

As áreas de combate ficam muitas vezes desguarnecidas, levando a população afetada pelos incêndios a criticarem a atuação do bombeiros.

“Somos acarinhados, mas também somos criticados, e ao contrário do que muitas pessoas pensam e divulgam cada vez mais as pessoas são mais exigentes para com os bombeiros (…) e porquê? Veja, perdi os pinheiros, amanhã perco a casa, enfim. Nós não somos super-homens”, sublinha Fernando Curto.

(Fonte: RTP)



Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).