Reportagem “Público” – Jovens com “fome de fogo”

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bombeiros1_incendio_d112594d1c8_400x225Quando em Londres começou a vê-la com más companhias, o pai de Cátia Dias teve medo que a filha entrasse no mundo dos gangues. Por isso, decidiu que era tempo de voltar a Portugal, onde na pacata vila de Carregal do Sal, no distrito de Viseu, ela estaria segura. Dos oito bombeiros que morreram este ano nos incêndios, cinco eram jovens. Cátia tinha 20 anos. Muitos anseiam pelo fogo. É que, se “um actor quer ter o papel principal num filme conhecido, um bombeiro quer estar na frente a combater um incêndio”

Um toque de sirene é o mais comum, é a costumeira chamada para uma urgência em saúde; com dois toques, ainda há esperança, se ficar por ali significa que estão a ser convocados para um acidente, mas, quando ouve os dois toques, o que Tomás Coimbra, de 18 anos, mais deseja é que eles se transformem rapidamente em três e que a sirene pare de tocar. É que quatro toques, no corpo de bombeiros de Alcabideche (cada quartel tem o seu código), significa que há um incêndio urbano, mas os três são uma espécie de jackpot de Verão – o incêndio florestal.

(85% Dos bombeiros portugueses são voluntários e não são remunerados)

No extremo oposto do incêndio florestal estão “as pataletas”. Ninguém sabe dizer de onde vem nem o que significa a palavra usada em alguns quartéis, mas percebe-se pelo tom que usam que o termo é depreciativo. Fazer “as pataletas” é falar do mais rotineiro trabalho dos bombeiros, o transporte não urgente de doentes (por exemplo, levando-os de casa para a hemodiálise), que é também a actividade que lhes ocupa a maioria do tempo durante todo o ano.

Não é seguramente por causa das “pataletas” que, em contraciclo contra o envelhecimento crescente da população portuguesa, os quartéis de bombeiros se têm conseguido rejuvenescer: quase metade (45%) dos bombeiros portugueses têm entre 18 e 35 anos. No total, cerca de 85% são voluntários. Qual é então a atracção para os jovens?

Desde logo, o risco. “Cada situação para que saímos tem uma adrenalina diferente”, explica Francisco Dias, ponderado nos seus 23 anos e bombeiro da corporação de Alcabideche (distrito de Cascais). Ele, o mais velho do grupo de amigos bombeiros da mesma corporação, prefere ser chamado para fazer urgências em saúde mas, entre os dois amigos de 18 anos (a idade mínima para se ser bombeiro), está isolado. No topo das preferências parecem estar os incêndios.

Tomás Coimbra diz que quando chega ao Verão está sempre ansioso por ouvir os três toques e que não é só ele. Quando se percebe que é mesmo uma chamada para incêndio florestal “desata tudo a correr e muitos, se pudessem, até iam com os seus próprios carros para o local”. Digamos que, se “um actor quer ter o papel principal num filme conhecido, um bombeiro quer estar na frente a combater um incêndio, quer ser o agulheta”. Numa equipa de cinco elementos, o agulheta é aquele que está a empunhar a mangueira, de caras para o fogo, explica.

“Eu não sabia nada de urgências, entrei para os bombeiros para combater o inimigo número um: o fogo”, afirma Diogo Borba, de 18 anos. E quando se referem ao fogo não estão a falar de incêndios urbanos em que, sim, até pode haver uma botija de gás que se desconheça, que possa causar uma explosão, mas, “em princípio, o fogo não vai sair dali”. No incêndio florestal, não se tem a certeza de que o fogo vai ficar circunscrito, “o vento pode, do nada, mudar” e deixá-los cercados. E essa imprevisibilidade que representa o maior perigo – na definição de cartilha que aprendem na formação obrigatória, um incêndio florestal é definido como “uma combustão livre, não limitada no tempo e no espaço” – é um dos ingredientes da “adrenalina” especial do incêndio florestal.

“Para os mais velhos, os incêndios já não são nada de mais. É uma rotina”, diz Diogo. Para os jovens como ele, não. No Verão, primeiro instala-se a “ânsia de ir para o primeiro fogo do ano”, depois “a sede de fogo”, continua Diogo. Um incêndio “é o desconhecido”, diz Francisco Silva, bombeiro de 17 anos que ainda não teve idade para sair.

Por causa dos incêndios, o Verão é também “a única altura do ano em que [os bombeiros] são reconhecidos. Durante três meses por ano somos falados dia sim, dia sim, no resto do ano só quando há inundações ou cai um placard“, critica Francisco Dias.

Partir para os incêndios

Os bombeiros do Estoril ficam próximos do Casino, não muito longe do mar, numa zona de casas de ar apalaçado. Na área de abrangência destes bombeiros, o que há para arder em termos de zona florestal é ínfimo, são dez hectares, incluindo um retalho de arvoredo junto ao campo de golfe. Os Bombeiros do Estoril socorrem mais incêndios urbanos e urgências hospitalares porque na sua área de abrangência, o que há para arder em termos de zona florestal é ínfimo

Quem é veterano, como o comandante da corporação de Bombeiros do Estoril, Carlos Coelho, chama à razão, lembra que os incêndios são uma actividade sazonal que lhes ocupa meros 4% do tempo, mesmo no Verão não chegam a 10% das ocorrências. Surgem no final da lista, a seguir ao transporte não urgente de doentes, às emergências pré-hospitalares, aos acidentes e aos incêndios urbanos.

Precisamente porque são uma pequeníssima parte do seu trabalho, o comandante admite que existe “uma vontade grande de sair”, “uma fome de fogo”, como lhe chama o chefe Bruno Felício, especialmente junto dos mais jovens. Qual é o apelo? “Tirando a destruição, um incêndio florestal é dos espectáculos mais bonitos que a natureza nos oferece. Hipnotiza, fica-se estupefacto com as dimensões e a beleza de estar frente a frente, num cenário daqueles.” “Também nos testamos a nós, é uma guerra que temos, que queremos vencer.”

Bernardo Figueiredo, o bombeiro de 23 anos que morreu depois de ficar ferido na serra do Caramulo em Agosto, já não era estreante nestas andanças. Noutros anos, tinha estado em fogos na Guarda, Viana do Castelo e Vila Real, “tinha feito pelo menos três épocas”, diz Bruno Felício. Estava de férias, era estudante de Engenharia de Telecomunicações e Informática no Instituto Superior Técnico de Lisboa, mas continuava a fazer o seu piquete semanal de 12 horas e os domingos que lhes cabiam como bombeiro voluntário. Já tinha feito a sua escala da semana, não estava de serviço mas nesse dia passou pelo quartel e ofereceu-se para ir render a equipa do Estoril que estava no incêndio do Caramulo. Ele também queria ir.

Os bombeiros de Alcabideche, uma corporação vizinha à do Estoril, têm já na sua área de acção parte do parque natural Sintra-Cascais, mas mesmo quando ali chega o fogo costumam ser pequenos focos, quando arde fica-se por um hectare – nos grandes incêndios no Norte, chegam a arder mil hectares, explica o seu comandante, José Palha. Quer dizer que neste tipo de corporações, em zonas urbanas e com pouca área florestal, costumam acorrer aos incêndios noutras zonas do país quando são pedidos reforços, como aconteceu na serra do Caramulo, para incorporar os chamados Grupos de Reforço a Combate de Incêndios (GRIF).

(O contágio familiar explica a entrada de muitos jovens – José Palha, comandante dos bombeiros de Alcabideche)

Sendo acontecimentos mais raros do que em zonas rurais, também é aqui que a ida para os incêndios se torna mais apelativa. Ana Rita Pereira, de 23 anos, que quando não estava nos bombeiros era auxiliar de acção médica num hospital a recibo verdes, “ia a todas”, diz o comandante José Palha. Ela estava escalada para aquele dia, 22 de Agosto, e seguiu para o Caramulo, estava sempre disponível para ir render colegas.

Para estes jovens, os incêndios acabam por funcionar como “uma fuga à rotina, são alturas de convívio, em que se conhecem jovens de todo o país”, diz José Palha. Depois, “está-se na frente do acontecimento, há camaradagem, pessoas de todo o lado. É uma forma de conhecerem o país, de sair da família, de conhecer outras realidades”, completa o comandante do Estoril, Carlos Coelho.

O que os impele a quererem partir para o combate aos incêndios florestais são todos esses factores, a juntar-se a uma ideia de perigo de vida que, apesar de tudo, é remoto, concordam os comandantes. A última vez que morreu um bombeiro no Estoril ainda Bernardo Figueiredo não tinha nascido, foi em 1975, num incêndio industrial; em Alcabideche, em 86 anos de história, nunca tinha havido “uma morte em combate” antes de Ana Rita. Na página da rede social Facebook de Ana Rita Pereira, a bombeira presta homenagem aos colegas que foram morrendo nos fogos com solenidade, como se o mesmo não lhe pudesse um dia vir a acontecer a ela. “Mais um herói a defender o seu país”, escreveu para assinalar a primeira vítima mortal dos incêndios deste ano, a 4 de Agosto. Tinha sido António Nuno Ferreira, de 45 anos, que não resistiu às queimaduras sofridas num incêndio em Miranda do Douro, que lhe cobriam mais de 90% do corpo.

O fogo tão perto

Para Cátia Dias, de 20 anos, o risco não era visto como distante e o seu pai, Carlos Dias, de 47 anos, sentiu que ela estava com medo de ir para o incêndio na serra do Caramulo. As chamas viam-se altas, do 4.º andar onde vivia, na vila de Carregal do Sal (distrito de Viseu). Ela já tinha avisado os pais que tinha de ir para lá no dia seguinte. Quando chegou à noite a casa, disse que precisava de ir espairecer um bocado, ir tomar um cafezinho com uns amigos. A filha voltou pela meia-noite, mas Carlos Dias não conseguiu arredar pé da varanda virada para a serra. “Eu fiquei aterrorizado, a olhar para as chamas.” Chamou-a: “Ó Cátia, tu já viste?”, “Ó pai, já vi, não me digas nada”. Cátia não voltou.

Marta Sillen, de 20 anos, uma das bombeiras de Carregal do Sal que Cátia Dias foi render, convive com o fogo desde menina. Cresceu numa casa plantada na encosta do Mondego, rodeada de floresta, a poucos quilómetros da vila beirã, e desde sempre se habituou a ver o vermelho e amarelo a mudar-lhe a paisagem em volta. Primeiro desapareceram os carvalhos, depois os pinhais, depois vieram os eucaliptos. A partir dos quatro anos, quando a família se mudou para aquela casa, sempre teve noites irrequietas. “Desde pequenina que sonho com fogo, tinha pesadelos de morrer queimada.”

Quando era adolescente, decidiu que era altura de enfrentar esse medo e entrou para os bombeiros voluntários de Carregal do Sal. “Os pesadelos de morrer queimada passaram.” No ano passado, a sua casa esteve cercada, com a família lá dentro. Pensaram que se salvariam mas iriam perder tudo. Depois disso, a mãe e o irmão decidiram seguir-lhe o exemplo e entraram para os bombeiros, o pai não, mas funciona como uma espécie de posto de vigia avançado, é ele que avisa o quartel quando detecta os fogos.

De entre as muitas tarefas atribuídas aos bombeiros, ela não é das que mais anseiam ir para os incêndios, mas tem de ser. “Durante a noite é um inferno.” Como se, com a escuridão, as chamas se tornassem mais intensas. Marta e a sua equipa de mais quatro tinham combatido as chamas durante 12 horas no Caramulo.

Na linha de combate ao fogo, Marta Sillen ocupava a mesma função de Bernardo Cardoso, o bombeiro de 18 anos de Carregal do Sal que morreu no mesmo incêndio no Caramulo. Ele era o “terceiro elemento”, também conhecido como “o escravo”, porque lhe cabe a tarefa “de puxar a mangueira e ligar lances para lhe acrescentar mais metros, para o agulheta ter mais manobra”, explica Marta. Normalmente, é uma função reservada aos mais novatos. Cátia Dias era o segundo elemento na linha de mangueira, o chamado “ajudante de agulheta”, que está nas costas deste a puxar a mangueira. Depois também há o chefe, que está sempre ao pé da equipa com o rádio em contacto com o veículo para fazer a gestão da água que resta, aumentar a pressão, “saber até onde se pode ir”, continua Marta, e depois ainda há o motorista.

O segundo elemento (Cátia) e o terceiro elemento (Bernardo Cardoso) da equipa que foi substituir a sua morreram; o agulheta, um jovem de 23 anos, está com prognóstico reservado, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa; o motorista, de 21 anos, está estável – “já falei com ele no Face[book]”, diz Marta -, mas continua hospitalizado. E o chefe da equipa, com mais de 50 anos, está a ser acompanhado por um psicólogo. Tal como Marta, mais os cerca de 15 bombeiros mais próximos das vítimas e 20 familiares e amigos.

(8 – Número de bombeiros mortos neste ano)

Cátia era cinco meses mais velha do que Marta, podia ter sido ela a morrer e não a amiga, mas nem lhe passa pela cabeça desistir dos bombeiros, deixar de ir para incêndios. “O que tem de se fazer é seguir para a frente.” E ela ali continua, no quartel, até ao seu último dia de férias, antes de voltar às aulas na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro, onde está a tirar o curso de Terapia da Fala. Continua a sair para serviços, a ouvir os briefings diários que dão conta à corporação do estado de saúde dos dois colegas internados. Tal como faz o pai de Cátia.

Carlos Dias quer saber como estão os dois amigos da filha que sobreviveram. Quase todos os dias vai ao quartel saber novidades e vai ficando, como se ali estivesse perto do sítio onde a filha se começou a sentir feliz em Portugal.

Dos seus 20 anos, Cátia levava apenas seis de Portugal. “Era mais inglesa do que portuguesa.” Os pais emigraram para Londres era ela bebé, ele para trabalhar como motorista num hotel, a mãe para fazer limpezas. Foram para ter vida melhor do que a levavam em Carregal do Sal. Mas voltaram, “para a proteger”, diz o pai.

Os problemas começaram na adolescência. É que na zona da capital inglesa onde viviam, Neasden, na escola onde a filha andava, havia muitos gangues, e Cátia começou a envolver-se com eles. O pai quis afastá-la daquele mundo trazendo-a para Portugal, para que a filha tivesse uma vida “num sítio calmo”, sem crime nem insegurança. “A minha preocupação foi pensar no que seria melhor para ela.”

Mas a vinda de Inglaterra para Portugal não foi pacífica. “A entrada para a escola cá foi um caos”, lembra Carlos Dias. A filha quase não falava português e o pai chegou a pagar a um tradutor para lhe traduzir as aulas: “Para os professores, tanto se lhes fazia que ela entendesse o que diziam como não.” Nada feito, não se adaptou, desistiu da escola e decidiu arranjar um trabalho. Nos centros de emprego nem a servir à mesa num café conseguiu, lamenta o pai.

Até que um dia Cátia apareceu em casa a dizer que tinha entrado para os bombeiros de Carregal do Sal, pelas mãos de uma amiga. Ao pai pareceu-lhe bem, “não era um trabalho, mas era uma ocupação”, diz. Já lá vão dois anos e meio. A filha começou a ter uma rotina, encontrou naquelas tarefas o espírito de ajuda que sempre fez parte da sua personalidade, conta.

Disciplina no quartel

Duarte Caldeira, ex-presidente da Liga Portuguesa dos Bombeiros Portugueses, diz que muitos jovens encontram nas regras e disciplina de um quartel projectos de vida que os estabilizam. Pessoalmente, participou em cinco casos de recuperação de jovens toxicodependentes integrados em quartéis de bombeiros, assim como situações de jovens problemáticos que saíram de centros de reeducação e conseguiram encontrar um caminho. Para muitos, o trabalho diário de bombeiros funciona como injecções de auto-estima, “aumenta-lhes o ego. Eleva as pessoas”, concorda o comandante José Palha.

(45% dos bombeiros portugueses têm entre 18 e 35 anos)

Ouvindo algumas histórias parece que os bombeiros são uma espécie de escola de virtudes para quem anda perdido, como para José Borges, de 19 anos, bombeiro de Alcabideche, que puxa para a cima a T-shirt para mostrar as três tatuagens que representam uma espécie de vida Antes dos Bombeiros e outra Depois dos Bombeiros. Numa lê-se CrazyPina, “alcunha dos velhos tempos”, junto ao “Vida Loca”; abaixo da barriga lê-se “Thug life“, que é como quem diz vida de bandido; e ao centro do peito estão duas letras, E.L. – as iniciais do nome da mãe, Elisabete Lourenço, que representam essa segunda fase da vida, o reencontro com o que interessa, a família e os amigos certos. Foi o padrasto, que é bombeiro, quem o pôs nos bombeiros de castigo. Agora, é a vida que quer seguir.

Para a incentivar na sua vida nos bombeiros, o pai de Cátia até entrou para a fanfarra da corporação de Carregal do Sal com ela. A música sempre fez parte da família. Em Londres, ele criou a banda Boys and Boys, que juntava portugueses com irlandeses, e pagava a uma velha professora de 70 anos aulas particulares de piano para a filha, “não é órgão, é piano”. Ela não era como ele, amador, “a Cátia sabia ler e escrever música”. Na fanfarra ele tocava clarim, ela caixa, embora, já se sabe, ele fizesse parte do “grupo dos cotas”, ela do “dos jovens”. “Papagaio louro de bico amarelo, cala-te com isso senão levas com o chinelo”, trauteia lembrando as brincadeiras que se faziam nos ensaios.

“Foi nos bombeiros que ela começou a ser feliz em Portugal. Tinha um objectivo.” O plano era seguir carreira. “Queria chegar a comandante de quartel”, e dia 15 de Outubro estava planeado que voltaria a Londres para fazer os estudos na área de Protecção Civil e lá seguir carreira de forma reconhecida. A Carlos Dias entristece-o que em Portugal paguem 1,89 euros à hora a pessoas que arriscam a vida e fazem turnos de 12 horas a combater incêndios, que a população já tenha agredido uma bombeira de Carregal, amiga da filha, porque entenderam que tinham levado muito tempo a chegar a um incêndio, que ninguém se preocupe com o que eles comem, com o equipamento que vestem. Revolta-o pensar que a filha morreu para salvar eucaliptos, numa zona que se sabia que era de alto risco, num dia em que os aviões não voavam porque estava demasiado vento.

Mas ele sabe que há-de voltar a tocar clarim na fanfarra da corporação, sabe que um dia há-de ajudar como motorista voluntário, como tinha prometido à filha, ele que é motorista de pesados de profissão.

“Os bombeiros são como uma família” é frase que se ouve a toda a hora. Mas quando se diz que os quartéis são como uma família não é só porque todos se conhecem, é porque muitos têm de facto laços familiares. “O contágio familiar” explica a entrada de muitos jovens, diz José Palha, o comandante dos bombeiros de Alcabideche.

António Cardoso, o pai do jovem de 18 anos que morreu no incêndio da serra do Caramulo, não sabe que idade tinha o filho quando este lhe descobriu a farda e um bivaque antigos que guardava dos anos em que tinha sido bombeiro, tal como o tinham sido o seu irmão e o seu sogro. Volta meia volta, o filho ainda pequeno perguntava-lhe: “Ó pai, posso vestir aquilo? Ficava-lhe grande.” Mas ele deixava, conta agora.

Foi assim que, mal encontrou a oportunidade, decidiu entrar para o mundo dos bombeiros muito antes de poder começar a sê-lo. Embora a idade mínima para se exercer seja os 18 anos, muitas crianças começam pela fanfarra. Foi o que fez, tocava bombo desde os seus 13 anos, mas assim que pôde entrou nas chamadas “escolinhas” de bombeiros. Foi cadete, o que significa que começou a receber formação no quartel aos fins-de-semanas a partir dos 16 anos.

A atracção pelo quartel de bombeiros era famosa na vila. Jessica Abreu, colega dele na secundária, lembra-se que lhe chamavam “Faísca McQueen”: onde quer que estivesse, mal ouvia a sirene, desatava a correr em direcção ao quartel. Tinha realizado o seu sonho, foi estagiário mas agora já tinha chegado a bombeiro de terceira classe, o primeiro escalão da carreira de bombeiro voluntário, que se atinge depois de uma formação inicial de 350 horas teóricas e práticas e de um estágio de um ano no quartel – instrução comum a bombeiros voluntários e profissionais. Um dos módulos, de 75 horas, é vocacionado para o combate a incêndios florestais.

Mas, ainda antes de poder sair para incêndios, oferecia-se para fazer tudo o que havia a fazer na vida do quartel, nem que fosse atender telefonemas. O pai vai ao ponto de dizer que “gostava mais dos bombeiros do que da mãe e do pai”. Na escola secundária, estava a tirar um curso profissional em óptica, que um bombeiro voluntário precisa de ganhar a vida.

Aprender desde pequeno

Ana Rita Pereira tinha sido criada sem a mãe desde os quatro anos. Pai e tio eram bombeiros e foi no quartel que cresceu, conta o tio, Vicente Pereira. A sua página pessoal de Facebook parece temática: Ana Rita e as amigas, bombeiras, Ana Rita e namorado, bombeiro, Ana Rita e a filha de quatro anos, que teve quando era adolescente, com um bombeiro.

José Palha admite que, nalguns casos, aquela segunda família, os bombeiros, possam ajudar a preencher carências afectivas da primeira. Ele tem guardadas as fotografias de Ana Rita nas suas várias fases de crescimento, em todos os natais em que organizavam uma festa para os mais pequenos.

A integração desde pequenos é incentivada, e alguns quartéis, caso de Carregal do Sal, tentam diversificar as formas de recrutamento para atrair os jovens que vão escasseando no interior, com as chamadas escolas de infantes e de cadetes, onde se pode começar a aprender noções de voluntariado e socorrismo a partir dos seis anos, com actividades adaptadas à idade, explica o comandante Miguel Ângelo. Assim se começam a criar vocações desde cedo, mas cada bombeiro é o maior recrutador, diz.

Mas há quem entre pelo seu próprio pé já adulto. Bernardo Albuquerque Vasconcelos Figueiredo – o comandante do Estoril, Carlos Coelho, brincava com ele dizendo-lhe que tinha “nome de rei” – não se enquadrava em nenhum destes percursos. Não andava perdido à procura de um caminho, não tinha nenhum familiar nos bombeiros. Era um estudante aplicado de Engenharia de Telecomunicações e Informática, uma carreira pela frente, tinha uma família estável, uma irmã gémea, uma vida confortável. Recebeu uma educação católica do pai bancário e da mãe professora, chegou a fazer outro tipo de voluntariado, como a distribuição da sopa aos pobres, mas foi para os bombeiros por causa de dois irmãos que eram seus amigos das aulas de Espanhol, um deles licenciado em Protecção Civil.

Bernardo entrou “betinho” e fez-se bombeiro, mas naquele meio havia algumas coisas que o tornavam diferente, lembra João Félix, colega de 39 anos, que foi um dos seus formadores. Era seguidor acérrimo de séries de humor britânico. Ele contava as piadas no quartel com tal entusiasmo, e ainda que quase ninguém fosse apreciador do british humour, acabavam a rir-se com ele, lembra a colega Ana Beatriz Augusto, de 32 anos.

João Félix, que chegou a andar no 1.º ano de Arquitectura até perceber que não tinha dinheiro para pagar as propinas da faculdade privada, conhecia algumas dessas séries. E lembra-se de ver como ele não era compreendido mas, ainda assim, apreciado, pelo sorriso, um sorriso permanente que lhe valeu a alcunha de “burrinho do Shrek”, e pela generosidade com que, por vezes, dava explicações de Matemática ou desenrascava problemas de informática aos colegas.

Bernardo representa uma faceta menos conhecida dos bombeiros, que ainda são associados a pessoas com fraca formação, de estratos sociais mais baixos, admite Carlos Coelho, comandante dos bombeiros do Estoril, notando que cerca de um quinto da sua corporação são licenciados, a mesma proporção em Carregal do Sal, junta o seu comandante.

Quando José Palha entrou na corporação de Alcabideche, com 14 anos, em 1975, os bombeiros eram vistos como “coitadinhos e pobrezinhos”. Na altura, a vida social de uma aldeia que hoje é subúrbio orbitava em torno do quartel, que era de onde vinha o socorro, mas também onde se realizavam os bailes, as matinés de cinema, os casamentos. Quando entrou para a corporação, ainda estava fresco na sua lembrança os 25 homens que morreram a lutar contra as chamas na serra de Sintra, impressionou-o a história desse incêndio que saiu em todos os jornais e que lia em voz alta às pessoas da povoação, porque a maioria das pessoas não sabia ler.

Em Carregal do Sal, depois da morte de Cátia Dias e Bernardo Cardoso, ofereceram-se como voluntários seis jovens na casa dos 20 anos, conta o comandante Miguel Ângelo da corporação da vila beirã. Eram amigos e conhecidos dos jovens empurrados por “um sentimento de perda” que se tornou comunitário. No bar onde se reúnem muitos jovens de Carregal, o Mota”s, entre baforadas de cigarros e tiros de dardos, elogia-se “o estômago” dos que conseguem ir para bombeiros. Mas no mesmo bar, noutra mesa, João Marques, técnico de telecomunicações desempregado, de 23 anos, e Pedro Fernandes, de 19 anos, não alinham nos elogios. O que lamentam é que “se mandem miúdos para a frente dos fogos. No terreno é a experiência que conta, não é a formação”.

Perguntando aos três comandantes se, na posição dos jovens que morreram, a sua maior experiência teria feito diferença, todos se escusam a responder. Não estavam lá, aguardam os resultados das averiguações da Autoridade Nacional de Protecção Civil. Mas lembram que o serviço militar acontece com a mesma idade e que com essas idades se mandam pessoas para a guerra.

Não é nos livros que se aprende a apagar fogos

Tomás Coimbra, de 18 anos, concorda que “não é nos livros que se aprende a apagar fogos”, mas que o factor da imprevisibilidade que representa, por exemplo, o vento, pode significar que tanto é apanhado uma pessoa com experiência, como outra sem traquejo. E lembra que nos fogos deste ano também morreu uma pessoa de 50 anos. Refere-se ao bombeiro Fernando Reis, da corporação de Valença, que tinha 51 anos. Neste Verão morreram também Pedro Rodrigues, de 40 anos, da corporação da Covilhã. A última vítima foi Daniel Falcão, um jovem de 25 anos, da corporação de Miranda do Douro, que era dos mais jovens o único profissional, ganhava cerca de 600 euros por mês. Cerca de 85% dos bombeiros portugueses são voluntários e não são remunerados a não ser na época de incêndios, em que recebem 1,89 euros à hora.

O que pergunta Tomás é que, “se o fogo vira, quem é que vai chegar primeiro ao sítio de fuga, a pessoa de 20 ou a de 50 anos? Há muitas condicionantes, a pessoa pode ter experiência e fisicamente não ter capacidade”.

Duarte Caldeira, ex-presidente da Liga Portuguesa dos Bombeiros Portugueses, diz que associar mortes a falta de experiência é um mito, não é possível traçar causa-efeito com rigor científico. Se é verdade que cinco das oito mortes deste ano foram de jovens, não é possível generalizar. Duarte Caldeira está a terminar um estudo sobre as causas das mortes dos bombeiros desde que há estatísticas, 1980, até hoje. Entre os 109 que morreram no combate aos fogos nestes 33 anos, “o número de bombeiros jovens é completamente residual. O escalão mais minoritário é dos 18 aos 35 anos”.

José Palha, comandante do corpo de Bombeiros de Alcabideche, diz que nenhum jovem vai sozinho para o terreno, vão sempre com elementos mais experientes, e vai buscar analogias ao mundo da aviação para dizer que são como os co-pilotos que um dia vão ter nas suas mãos os comandos do avião mas que começam por ir sentados ao lado, no cockpit.

Na sua opinião, a idade não determina a experiência e não hesita em considerar Ana Rita Pereira uma bombeira experiente, apesar dos seus 23 anos. Tinha ascendido a bombeira de segunda classe (o segundo escalão na carreira de bombeiro voluntário) e, para isso, “tem que se ter três anos no posto com classificação de muito bom ou cinco anos com a classificação de bom”. “O que conta são as horas voo” e isso Ana Rita tinha, diz. “Percorreu fogos de norte a sul, ela ia a todas. Quem vai ao primeiro toma-lhe o gosto.”

 

(Fonte: Público, reportagem de Catarina Gomes)

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Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).