Relatório técnico arrasa a prevenção e a resposta à tragédia de 15 de outubro

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As conclusões do relatório “Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental”, entregue esta terça-feira na Assembleia da República, deixam críticas à prevenção e à resposta à tragédia de 15 de outubro no centro do país. Morreram 48 pessoas. A primeira conclusão é que o que aconteceu podia ter sido prevenido. “Perante as condições meteorológicas de outubro poderia (deveria) ter-se antecipado o aumento do número de ignições e, por isso, poderia ter-se atuado, com medidas robustas de pré-posicionamento e de pré-supressão, de forma a prevenir o que era esperado”, lê-se no documento com 274 páginas.

Falhas na programação do socorro e na rede de comunicações e um “dramático abandono” das populações foram identificados pela comissão técnica independente de análise dos grandes incêndios de outubro, que admite, contudo, uma conjugação singular de fatores meteorológicos.

Ao longo do relatório é várias vezes referido que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e a Proteção Civil (ANPC) alertaram para a especificidade daqueles dias. Foi até emitido um comunicado que “chamava à atenção para as referidas condições e admitindo que deveria haver perigo de incêndio florestal”. O estado de alerta deveria ter passado para vermelho, o mais alto, e isso não aconteceu. No entanto, o mesmo comunicado foi também “responsável por criar uma expectativa claramente contraditória, admitindo uma situação de precipitação que seria previsível para a tarde de 16 de outubro”.

O modelo de alertas que é adoptado pelo IPMA e pela ANPC necessita de ser credibilizado de forma a evitar a sua banalização ou o entendimento de que se trata de uma rotina”, lê-se ainda no relatório dos peritos que analisaram o que se passou em outubro, que acrescentam que a informação, ao ser passada pelos diversos interlocutores, foi sendo amenizada. Quando chegou à população, estava “muito suavizada”.

O relatório da Comissão Técnica Independente relativo aos fogos de outubro envolveu oito distritos das regiões Centro e Norte.

O documento, que atualiza para 48 o número de mortos nesse mês, conclui que falhou a capacidade de “previsão e programação” para “minimizar a extensão” do fogo na região Centro (onde ocorreram as mortes), perante as previsões meteorológicas de temperaturas elevadas e vento.

A junção de vários fatores meteorológicos, descreve, constituiu “o maior fenómeno piro-convectivo registado na Europa até ao momento e o maior do mundo em 2017, com uma média de 10 mil hectares ardidos por hora entre as 16h do dia 15 de outubro e as 5h do dia 16.

Mais de metade dos incêndios de outubro do ano passado deveram-se a causas intencionais ou a negligência, segundo o relatório da Comissão Técnica Independente entregue na terça-feira no parlamento.

Segundo o documento, “em termos de grandes grupos de causas (…) 40% tiveram origem em reacendimentos, 40% em causas intencionais e 20% em negligentes”.

Os elementos da comissão técnica admitem que as causas intencionais “são as que apresentam maior dificuldade na compreensão e na antecipação, por não ser conhecido o seu móbil, exceto posteriormente, se capturado e obtida confissão dos autores”.

Por causas intencionais estão indicados os incêndios de Vouzela (vandalismo), Figueira da Foz (vandalismo), Seia (vandalismo) e Sertã (outras situações). O fogo de Vouzela afetou três concelhos e 79 empresas, com mais de 81 milhões de euros de prejuízos, o da Figueira da Foz passou por cinco concelhos, afetou 51 empresas e provocou mais de 72,5 milhões em prejuízos, o de Seia afetou dois municípios e 12 empresas, com mais de 1,8 milhões de euros em prejuízos e o da Sertã queimou área de três concelhos e afetou 33 empresas, com 1.138.581 euros de prejuízos.

Quanto às causas negligentes, “são já bastante mais previsíveis e podem permitir a atuação por antecipação“, refere o relatório.

“A renovação da pastagem é uma causa frequente no nosso país”, indica o documento, acrescentando que ela pode ser “antecipada através do uso do fogo em momentos adequados e previstos na regulamentação”.

Nas causas negligentes os técnicos incluem a ignição com origem nas linhas elétricas, afirmando que, neste caso particular, em que terá sido provocada por queda de uma árvore sobre uma linha de média tensão, “pode resultar do não cumprimento do regulamento de segurança das linhas elétricas pela entidade gestora, a EDP”.

“Trata-se, neste caso, de situações devidamente regulamentadas e cujo cumprimento pode só por si evitar situações deste tipo e todas as suas consequências”, acrescenta o relatório.

Por negligência foram apontados os incêndios de Monção (queimadas e renovação de pastagens) e Lousã (linhas elétricas). No caso do primeiro incêndio afetou um concelho e duas empresas, com um valor de prejuízos estimado em 550.000 euros. Já o fogo da Lousã afetou nove concelhos e um total de 169 empresas, com prejuízos acima dos 49,5 milhões de euros.

Os reacendimentos são outra das causas “bastante importantes” nestas ocorrências, referem os técnicos, sublinhando que são situações em que “o desempenho no combate tem que ser nitidamente melhorado, nomeadamente através da implementação de ações de rescaldo e de vigilância adequadas”.

A utilização adequada de máquinas de rasto para a consolidação de rescaldos, por operadores devidamente formados e acompanhados, com verificação dos perímetros com maior risco de deflagração e expansão, nomeadamente através da utilização de câmaras de infravermelhos, e a vigilância armada nesses locais, deverão ser medidas a implementar em todas as situações com potencial de deflagração de grandes incêndios”, acrescenta.

No caso de incêndios provocados por reacendimentos foram apontados os incêndios de Arganil, que queimou cinco concelhos e afetou 130 empresas, com mais de 61 milhões de euros de prejuízos, Alcobaça, com um concelho atingido, nove empresas afetadas e 891.630 euros de prejuízos, Vale de Cambra, com três concelhos e 33 empresas atingidas e mais de 5,7 milhões de prejuízos, e o de Guimarães, que queimou área de um município e afetou três empresas, com um total de 300.000 euros de prejuízos.

Os peritos consideram que tem de haver das autoridades “flexibilidade para ter meios de previsão e combate em qualquer época do ano” e defendem a criação de uma unidade de missão para reorganizar os bombeiros.

O QUE FALHOU NA RESPOSTA?

O primeiro ataque aos incêndios aconteceu como estava previsto, mas as normas deixaram rapidamente de ser cumpridas. Quem estava no terreno percebeu que era “impossível” que as normas instituídas fossem seguidas: havia “dificuldade em mobilizar forças suficientes” para todos os focos de incêndio e os bombeiros também não conseguiam dar resposta a todos os pedidos de socorro.

O relatório de avaliação faz também questão de sublinhar que, à data dos acontecimentos, os incêndios já se encontravam “fora de um período considerado crítico” e que por isso mesmo uma série de meios já não estava disponível. “Um número significativo de forças nacionais já estavam descontinuado, designadamente os meios aéreos” e “não havia possibilidade alguma de combater o incêndio”.

As simulações do desenvolvimento inicial do comportamento do fogo indicam que a maioria dos megaincêndios não é controlável se não existir intervenção de meios terrestres entre os três e cinco minutos. No centro do país, “a maioria das ocorrências foi combatida em cinco ou dez minutos após o alerta, mas a primeira intervenção terá essencialmente acontecido quando o incêndio já estava para lá da capacidade de extinção”.

A dado momento, entre as 16h do dia 15 e as 05h do dia 16, o fogo começou a tomar proporções gigantescas. Nesse período arderam em média dez mil hectares por hora, ou seja, ardeu uma área equivalente a dez mil campos de futebol por cada hora que passou. E foi nesse período que se registaram mais mortos.

“O panorama vivido nestes dias, sobretudo no dia 15 de outubro, traduziu-se numa situação de dramático abandono, com escassez de meios, ficando as populações entregues a si próprias.”

PERFIL DAS VÍTIMAS MORTAIS DIFERENTE DE PEDRÓGÃO

No total, em 2017, morreram nos incêndios 114 pessoas. Destas, 48 foram vítimas dos incêndios de outubro, sobretudo no período entre as 16h de dia 15 e as 5h do dia 16. Até às 23h, já 39 pessoas tinham morrido.

A maioria das vítimas – mais de metade – já tinha passado os 65 anos. “A inserção em classes etárias revelou uma diferença substancial em relação às vítimas de Pedrógão. As fatalidades no período em análise atingiram maioritariamente idosos, com especial expressão para a classe etária dos 70 aos 79 anos. Além disso, a maior parte das vítimas (85%) era residente permanentes nas respetivas zonas”, lê-se no relatório.

Com esta característica das idades, segundo o documento, as vítimas mortais de outubro podem ser separadas em duas tipologias: aquelas que tentaram salvar os seus bens e foram surpreendidas pelo fogo junto a casa e aquelas que devido a problemas de saúde e dificuldades de mobilidade não foram retiradas a tempo das habitações. “A maioria das vítimas não estava em fuga, o que revela a severidade do fogo e a velocidade da sua expansão, surpreendendo de forma violenta os diversos locais que foi visitando.”

Outra das conclusões é que as mortes acontecerem em lugares muito dispersos: registaram-se vítimas nos distritos de Coimbra, Sever do Vouga, Pinhel e Oliveira do Hospital (de 14 concelhos), o que também “distingue as fatalidades deste período das do incêndio da zona de Pedrógão”. Além disso, os peritos referem ainda que na maior parte dos lugares em causa “as medidas vigentes de prevenção estrutural não estavam executadas, com realce para as estradas”.

 

 




Sobre quem enviou a noticia

Ana Romaneiro

Ana Romaneiro

Nasceu em Évora onde cresceu e estudou. Desde muito cedo que partilha o gosto pela informática, que, a levou a tirar um curso profissional técnico de Gestão de Sistemas Informáticos, profissão que exerce na atualidade. A sua ligação aos bombeiros surge aos 13 anos ao entrar na fanfarra dos Bombeiros de Évora, onde permaneceu até 2013. Na atualidade integra a corporação os Bombeiros de Reguengos de Monsaraz, no posto de bombeira de 2º.