Opinião JN: Fase Charlie, alerta!

0

formaturaA natureza permite-se certas liberdades, entre elas, a menos comedida é que a floresta arde independentemente de quem governa. E, no entanto, ensina-nos a experiência das últimas décadas que, por coincidência estatística, arde mais em anos de eleições, vá-se lá saber porquê.

Incendeia-se-nos a sensibilidade quando o terror rodeia habitações e ameaça os moradores, ou quando bombeiros sucumbem cercados pelas chamas, ou ainda quando uma extensa área de alto valor ambiental é reduzida a um manto negro de cinzas.

Para responder à fase Charlie, a mais crítica, que vai até 30 de setembro, temos hoje, “em estado de prontidão”, um dispositivo treinado e de comando centralizado, com melhores e mais meios de combate que há 10 anos. Custa-nos 80 milhões, tanto como no ano passado. Ainda assim, só dois dos cinco Kamov, os helicópteros mais pesados entre os 49 meios aéreos operacionais, têm estado disponíveis para apoiar no terreno os quase 10 mil bombeiros.

Dizer que o primeiro semestre de 2015 já é pior que a média da última década, com 8750 ocorrências incendiárias (mais 12%) que queimaram mais de 30 mil hectares de floresta, é acrescentar apenas mais uns números ao folhetim sazonal.

Com as matas carregadas de matéria combustível, depois de um inverno e de uma primavera pouco chuvosos, este verão promete o pior, em resultado dessa terrível conjugação de incúria, seca, altas temperaturas, vento e a mão descuidada ou criminosa das pessoas. E, no entanto, apesar da repetição de episódios, os portugueses só têm a certeza sobre um dos fatores de triunfo sobre o fogo: um São Pedro que ajude a uma meteorologia de feição.

O consenso político deveria passar por aqui: elevar a prevenção ao posto de comando e reconhecer que o primeiro corta–fogo é sensibilizar a sociedade. Depois de cada tragédia, todos reclamamos mão dura sobre o crime. Mas, mais importante, é preciso ativar, definitivamente, uma gestão da floresta que a valorize como património coletivo, fonte de riqueza ainda tão menosprezada pela ignorante modernidade urbanita.

Mas não. Sobre as cinzas de cada ano vinga a visão de curto prazo e prospera ainda uma economia do fogo que continua a privilegiar o investimento em meios de combate, em detrimento da prevenção.

Mangas arregaçadas, os políticos de turno gostam de aparecer nos “teatros de operações”, como agora lhes chamam, e derramar palavras sobre a desgraça. Nada, porém, que mude o essencial. Porque insistimos em ignorar que os incêndios de verão se combatem no inverno.

(Fonte: JN)

 

 




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).