O Kamov que, três anos depois, não sabe voar

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Imagem de Helio Madeiras

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Um dos Kamov do Estado está parado desde Setembro de 2012, quando se despenhou de forma súbita. 

Foi há quase três anos e o Kamov nunca mais voltou a voar. Um dos seis helicópteros pesados russos – que servem para combater incêndios – despenhou-se, de forma súbita, num parque de merendas na zona de Ourém e sofreu “danos substanciais”. Tem estado desde então parado num hangar. O acidente, cujas causas ainda estão por apurar, aconteceu a 3 de Setembro de 2012. Três anos depois, pouco foi feito para desvendar a origem da queda.

De tal forma que os dois motores, que terão de ser alvo de peritagens no fabricante, na Rússia, ainda nem sequer saíram de Portugal. O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA)admite que “quase nada” avançou e culpa a “falta de peritos” pelo atraso na investigação. Só em Setembro, prevê o director do organismo que investiga os sinistros da aviação em Portugal, é que as peças e os técnicos deverão viajar até à Rússia. “Não foi feita grande coisa. O GPIAA esteve sem técnicos praticamente durante um ano e não tínhamos meios para liderar o processo”, justifica Álvaro Neves.

O relatório do acidente A queda do Kamov terá acontecido de forma repentina. Segundo o relatório preliminar das causas do acidente, a que o i teve acesso, o helicóptero estava estacionado em Ferreira do Zêzere e foi chamado a combater um incêndio. Na aeronave russa seguia o comandante, de 46 anos, e um co-piloto com 33 – os dois com experiência, horas de voo suficientes, licença para operar Kamov e exames médicos em dia.

Depois de terem feito “algumas largadas de água sobre o fogo”, os pilotos voltaram a abastecer o cesto numa pequena lagoa junto ao Parque de Merendas de Espite. Na subida, o motor número um falhou e o motor número dois entrou em modo de emergência, acelerando a potência para “Extraordinary power mode”. Porém, a força não foi suficiente para aguentar a carga e o Kamov começou a perder altitude, acabando por se despenhar no solo, dez metros mais à frente. O comandante saiu ileso e o co-piloto sofreu ferimentos ligeiros e partiu um dedo do pé direito.

a caixa negra “Na fase da investigação, nada aponta para qualquer interferência estranha ou imprópria, por parte dos serviços de terra, que possa ter influenciado o desenvolvimento da operação”, lê-se no relatório. Os peritos do GPIAA também não encontraram indícios de “qualquer desvio significativo” das regras e procedimentos operacionais. Além disso, as condições atmosféricas não eram adversas no momento do acidente: “Era um belo dia de Verão, com sol”, descreve o GPIAA.
A caixa negra do Kamov foi retirada do meio dos destroços e “conservada sob custódia”. As gravações, referem os peritos, permitiram escutar os últimos minutos antes da queda e concluir que tudo estaria normal dentro do Kamov: “Não parece terem existido quaisquer circunstâncias especiais que pudessem alterar o ambiente na cabina de pilotagem. O tom de voz dos pilotos parece normal e não manifesta nervosismo, stresse ou ansiedade, efectuando as comunicações normalmente e descontraidamente. Ao ouvir os últimos minutos do som ambiental, é detectado claramente o som característico dos motores a ‘apagarem-se’ e os ruídos do embate do helicóptero no solo.”

discrepâncias e destroços Ainda assim, o GPIAA detectou algumas “discrepâncias” nos registos dos motores. Como, por exemplo, um erro electrónico que associava os dados do motor número um aos do motor número dois. Mas nada que, sublinharam os técnicos, justificasse o acidente. Também não havia registo “dos tempos de operação nos modos limitados” da aeronave e tinha sido feito um ajuste ao motor sem que a alteração tivesse sido “registada na Caderneta do Motor”. Por último, os peritos concluíram que a manutenção dos motores não estava a ser feita de acordo com o manual correcto, mas com base num que estava desactualizado. Foi essa a razão que levou, em 2012, à paragem de todos os helicópteros Kamov.

Do exame aos destroços também não resultaram grandes conclusões: os rotores estavam espalhados no chão, a cauda do Kamov estava partida e a parte direita da cabina de pilotagem esmagada, além de se verificarem estragos na barriga do helicóptero. Os destroços foram removidos e armazenados num hangar, “segregados a pessoas não autorizadas”, onde ainda permanecem. Em suma, o helicóptero sofreu “danos substanciais”.

O relatório, datado de 8 de Novembro de 2012 e assinado por António Alves, do GPIAA – que entretanto se reformou –, avisava que para se determinar as causas do acidente seria preciso fazer um “exame detalhado” ao motor número um, “com desmontagem e perícias” no fabricante, na Rússia, “na presença de todas as partes interessadas”. Foi criada uma comissão técnica para acompanhar o assunto – que irá viajar para a Rússia com os motores –, com técnicos do GPIAA, da Autoridade Nacional de Protecção Civil e da Heliportugal, empresa que, na altura, fazia a manutenção das aeronaves russas.
Determinar as causas do acidente é fundamental para saber quem vai pagar a conta dos estragos. Até porque, como o i adiantou no passado, citando uma auditoria do Tribunal de Contas, os helicópteros voaram vários anos sem terem seguro.

só um kamov voa Entretanto, e em plena época de fogos, só um dos seis Kamov do Estado está a voar. Além da aeronave acidentada em Ourém, outras quatro têm estado paradas, depois de recentemente terem sido detectadas desconformidades na manutenção – e cuja reparação, quantificou o jornal “Sol”, irá custar quatro milhões de euros.

Contactada ontem pelo i, a ANPC repetiu que dois Kamov poderão estar a voar “em breve” – sem adiantar uma data –, estando a reparação dos outros dois mais atrasada.

(Fonte: i)




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).