“Meu Deus, aconteceu tudo de novo”: o depoimento de um bombeiro sobre a tragédia de Brumadinho

0

(Foto: REUTERS/Washington Alves)

Ao deparar-se com a lama, Leonard Farah imaginou a magnitude do desastre e o trauma voltou. Aquele mar violento de castanho que desbocou perto de Brumadinho já ele havia visto três anos antes em Mariana, e, tal como dessa vez, ele sabia que a fúria da natureza não ia perdoar quase ninguém. Esta é a história de bombeiro que passou por dois cataclismos ecológicos no Brasil.

“Quando vi a lama, pensei: ‘Meu Deus, aconteceu tudo de novo!’. Saber que ia encontrar pessoas na pior situação das suas vidas deixou-me muito triste”, conta à AFP Farah, capitão dos bombeiros militares de Minas Gerais, que continua a trabalhar numa zona destruída onde morreram 179 pessoas e ainda restam 131 desaparecidas.

A 25 de janeiro, Farah estava a passar férias com sua família em Belo Horizonte, quando tocou o telefone. Era o seu chefe: uma barragem de material de desperdício da Vale havia cedido em Brumadinho, e precisavam dele o quanto antes.

Uma hora depois, voltava a enfrentar a destruição daquela lama, parecida com aquela pela qual passou durante 56 dias em Mariana, corria o final de 2015, a 160 quilómetros dali. Desta vez, contudo, bastou uma primeira passagem a voar sobre a área afetada para se aperceber que a catástrofe humana de Brumadinho seria mais grave.

“Ambos os desastres são parecidos, mas em Mariana tivemos 19 vítimas e desaparecidos. Aqui temos cerca de 20 vezes mais”, explica Farah, de 34 anos, que aos 19 largou os estudos de Medicina para seguir a sua vocação.

Começava então outra corrida contra a lama, enquanto o país se perguntava como aquele pesadelo se podia repetir. Naquele primeiro percurso, resgataram dezenas de pessoas do tsunami de mais de 12 milhões de metros cúbicos de lama e desperdício que devorou 270 hectares, antes de chegar ao rio Paraopeba.

Comandante da companhia de salvamento, Farah não dormiu nos três dias seguintes. Havia lama por todos os lados e as listas de desaparecidos não paravam de crescer, apesar dos turnos de 12 horas que os bombeiros passavam dentro da lama viscosa.

“Nas primeiras semanas havia um cheiro muito forte [de decomposição], o desgaste foi muito grande com o sol, o calor, tínhamos de fazer um plano para que os militares não ficassem desidratados”, lembra o capitão, que acaba de fazer um exame para medir a sua taxa de metais no sangue, depois dos resultados analisados a quatro colegas seus terem apresentado alterações.

O Medo

Aqueles primeiros dias desencadearam o pânico nesta região mineira com dezenas de barragens. Em plena confusão, uma informação falsa mencionou que outra barragem tinha cedido, enquanto os bombeiros buscavam sobreviventes numa área isolada. Pensaram que não sairiam dali com vida.

“Tivemos de fazer uma técnica muito complicada de rastejar na lama, de praticamente nadar na lama, para sair dessa zona. Foi um momento de bastante stress da nossa equipa, porque pensámos realmente que seríamos atingidos por esse novo abatimento da barragem, mas foi um falso alarme”, lembra.

Os bombeiros, que se tornaram a única luz no desastre, também sentem medo, mas Farah lembra que a sua obrigação é permanecer sereno, ainda que isso o obrigue a blindar os sentimentos. “Quando você se envolve emocionalmente numa tragédia como esta, a possibilidade de tomar decisões equivocadas é muito grande. Para evitá-lo, precisamos de manter uma certa distância das pessoas. É um pouco frio, mas necessário”, conta.

Um mês depois, cerca de 200 bombeiros continuam a trabalhar diariamente na lama, ajudados agora por maquinaria pesada, com a esperança de devolver os mortos aos seus familiares, embora o estado do terreno torne essa tarefa quase impossível.

Farah afirma que não cabe a ele apontar os culpados destas tragédias, mas diz que algo está a falhar no coração mineiro do Brasil. Após as suas experiências em Mariana e Itabirito, onde outra barragem cedeu em 2014, matando três pessoas, pensou que mais desastres desta natureza poderiam ocorrer na próxima década, mas não imaginou que seria assim tão rápido.

“Eu acho que a nossa legislação é fraca, (…) e abre a oportunidade para que não se dê tanta atenção para emergências de barragens”, avalia.

A única coisa positiva que a lama trouxe, diz, é o carinho da sociedade brasileira. “Eu fiquei muito feliz porque vivemos um momento político de segregação no Brasil, de direita-esquerda, homo-hétero, branco-preto. Acho que a mensagem que os bombeiros passaram é que estamos na lama, a enfrentar perigos, a doar a nossa vida por outras vidas, independentemente da opção desta ou daquela pessoa”, afirma.

(Fonte: Sapo)




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).