“Lei da Rolha” ou clara tentativa de “manipulação da informação” por parte da ANPC?

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(Fonte: sítio da ANPC)

 As novas “regras de comunicação” impostas pela Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) ontem anunciadas e já hoje colocadas em prática mereceram já diversas críticas por parte dos mais diversos quadrantes sociais e políticos.

Todos falam de “Lei da Rolha”, mas será mesmo disso que se trata? Segundo a Adjunta Nacional Patrícia Gaspar, “não foi emitida qualquer proibição” que impeça os comandantes distritais de falar à comunicação social, mas sublinhou que toda a informação sobre incêndios se reduzirá aos briefings nacionais. No meio desta estranha explicação, tudo é justificado com a necessidade “absolutamente fundamental” de os elementos responsáveis pelo comando das operações no terreno estarem focados naquilo que é essencial: a realização das operações de socorro. “Não podemos perder a capacidade de concentração“, sublinhou a Adjunta Nacional.

O Portal Bombeiros.pt esteve atento, nos últimos dias, aos vários incêndios que ocorreram no país e à comunicação sobre os mesmos incêndios que foi sendo dada pela ANPC.

“Lei da Rolha”

Não existirá, segundo a ANPC, uma intenção de impor a “Lei da Rolha” aos comandos distritais, nem silenciar a informação, segundo o que foi dito hoje por Patrícia Gaspar, pois existirão no Comando Nacional (CNOS), tanto ao nível operacional como do gabinete de comunicação, agentes que fornecerão informações à Comunicação Social a toda a hora. Sabemos, portanto, que a informação será filtrada pelo CNOS e depois disponibilizada (na totalidade?) a quem a solicite. O que todos sabemos é que existe um claro desconforto por parte do CNOS e da direcção da ANPC, e dos vários comandantes distritais,  em relação às críticas feitas à substituição de anteriores elementos e à nomeação de novos Comandantes Distritais. Será esta “Lei da Rolha” uma tentativa de desviar o “foco” destes “novos elementos” numa altura em que o número de incêndios e o necessário aparecimento destes operacionais seria uma obrigatoriedade?

“Manipulação”

Já na questão da “manipulação da informação” há factos que são inquestionáveis. A começar pela ausência de informação no sítio da ANPC. Temos acesso às ocorrências, com os homens, as viaturas e os meios aéreos. Nada mais. Consultado o sítio, já na manhã de hoje (às 9h18m), em busca de informações sobre “Ocorrências Importantes” a informação apresentada é a da imagem (clicar para aumentar):

A mensagem espelha alguma estranheza, pois diz “Temporariamente indisponível para manutenção“. Esta expressão pode ser lida como “Página Indisponível, devido a trabalhos de manutenção”, mas aponta também para outra leitura “No momento não estamos disponíveis para fazer a manutenção”. De qualquer forma, pelas 11h33m, a página dedicada às “Ocorrências Importantes” já parece estar com a “manutenção” efectuada:

Ontem, durante o período da noite, enquanto que na página da autoridade não existia qualquer tipo de informação específica sobre as operações e a mobilização de meios para o combate aos incêndios no distrito da Guarda, aparecendo sempre a informação generalista e pouco pormenorizada, uma das páginas que reúne informação sobre incêndios e a disponibiliza ao minuto (o sítio Fogos.pt) apresentava a seguinte informação acerca do Incêndio do Rochoso (Guarda):

Esta informação, tal como a sinalização do incêndio, desapareceu passadas horas e hoje de manhã (às 9h21m) as informações no sítio da ANPC e no sítio Fogos.pt eram as seguintes:

Há, portanto, uma clara “estranheza” no tratamento da informação e na sua disponibilização por parte da ANPC por estes dias, evidenciando-se uma tentativa de não dizer mais do que aquilo que é necessário. Da nossa parte, comunicação social, há uma total atenção a este fenómeno “novo” na ANPC, que parece estar a militarizar a passagem da informação. Será esta uma tentativa de homogeneizar comportamentos e falar a uma só voz (como já faz a GNR, por exemplo) ou “a” tentativa de esconder erros e discordâncias?

 

O Portal Bombeiros.pt continua atento às informações que vão sendo disponibilizadas pela ANPC, deixando no ar uma questão que parece ganhar espaço: É desta vez que os Bombeiros Voluntários perdem por completo a voz?




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).