José Rodrigues dos Santos – Jornalista e Escritor

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dos-Santos-Jose-Rodrigues-ap1José Rodrigues dos Santos nasceu em 1964 em Moçambique. Abraçou o jornalismo em 1981, na Rádio Macau, tendo ainda trabalhado na BBC e sido colaborador permanente da CNN. Doutorado em Ciências da Comunicação, é professor da Universidade Nova de Lisboa e jornalista da RTP. Trata-se de um dos mais premiados jornalistas portugueses, galardoado pelo Clube Português de Imprensa e pela CNN, tendo sido nesta profissão que ganhou a admiração de milhões de portugueses pelo seu trabalho como “jornalista de guerra” e, depois, como director de informação da RTP.

Já em pleno século XXI, destaca-se também como romancista e é hoje um dos autores portugueses contemporâneos mais lido e mais traduzido em todo o mundo. Alguns dos seus romances estão a ser negociados para estúdios de cinema para serem adaptados ao mundo da sétima arte.

Quando o programa Contra Informação era emitido, o nosso convidado, um homem cheio de humor, terá afirmado: “Ainda não percebo porque é que o meu boneco do “Contra Informação” tem as orelhas tão grandes…”.

Nesta entrevista, José Rodrigues dos Santos partilha connosco a sua visão acerca dos bombeiros e do mundo dos incêndios sem deixar de partilhar alguns aspectos da sua personalidade.

“À conversa com…” José Rodrigues dos Santos

No seu último romance em que tem Tomás Noronha como personagem principal, coloca-o, na Grécia, a fazer um arriscado salvamento de uma criança que está encurralada dentro de um edifício em chamas. Podemos assumir, correndo o risco de exagero, que existe naquela personagem uma atitude de própria dos bombeiros? Ou seja, uma predisposição natural para ajudar o semelhante? Será que essa atitude é partilhada com o autor do romance?

JRS – Confesso que não sei. A situação que descreve, narrada em A Mão do Diabo, ocorreu num contexto próprio. A verdade é que existe algo de heróico numa pessoa que se atira ao fogo para salvar outra. Sendo o Tomás um herói, é natural que tenha alma de bombeiro.

Tem na sua mente a escrita de um livro ou de um conto ou de um ensaio sobre os bombeiros ou sobre o trabalho das forças operacionais de socorro? Se o desafiasse a escrever um pequeno conto, com o Tomás Noronha, sobre alguma destas forças (especialmente sobre os bombeiros) aceitaria?

JRS – A escrita não se impõe, nasce naturalmente. Não gosto de escrever sobre um tema porque tenho uma qualquer obrigação de o fazer. A escrita obedece a um impulso, a um desejo, não a um dever.

Sendo um homem que sempre viveu a transmitir informações objectivas, como o jornalismo exige, sente que há um correcto tratamento dos assuntos sobre bombeiros e protecção civil? Ou há muitas coisas que são escondidas ou “esquecidas” nesse tratamento jornalístico?

JRS – Penso que os melhores juízes serão sempre as pessoas que melhor conhecem a realidade, neste caso os bombeiros. De qualquer modo, em geral quando um jornalista erra não o faz de propósito.

É um homem que “viveu” muitos dias em zonas de guerra, em verdadeiros campos de batalha. Consegue descrever-me e, se as houver,  dizer-me quais são as grandes semelhanças ou diferenças entre aquilo que se vê de um incêndio florestal em Portugal que assume grandes dimensões e de uma zona de guerra, por exemplo, no Golfo Pérsico?

JRS – Há diferenças muito grandes. Um incêndio é uma luta contra as forças da natureza, que podem ser poderosas mas não são maliciosas. Quando a natureza nos fere, não o faz porque o quer fazer. O mesmo não se pode dizer da guerra, como deve calcular.

Peço-lhe que tente largar a sua posição de jornalista e que se tente colocar no papel de espectador. Concorda com o tratamento quase doentio que é dado, na época de Verão, aos incêndios? Ou existe algum aproveitamento devido à existência de muitas notícias sobre este tema?

JRS – Depende das situações. Por exemplo, este Verão era incontornável uma cobertura detalhada dos incêndios, dada a gravidade e dimensão do que aconteceu. Não é a cobertura informativa que é doentia, é o incêndio que o é.

Tem uma especial preocupação, enquanto cidadão, com aquilo que vai acontecendo ao nível da Protecção Civil? Sente-se protegido e confiante no socorro que o seu país lhe oferece?

JRS – Sim.

É também professor universitário e de certeza que alguns dos seus alunos são bombeiros. Quando eles lhe dizem que são bombeiros e que vão combater incêndios, sejam florestais ou urbanos, qual é o sentimento que o invade? O que lhes costuma dizer?

JRS – Não me lembro nunca de ter tido um aluno que fosse bombeiro.

É um pai orgulhoso. Nota-se nas várias entrevistas que li sobre a sua relação entre a vida familiar e a vida profissional. As suas filhas um dia diziam-lhe: “Pai, quero ser bombeira!” ou “Pai, entrei para os bombeiros voluntários!” Qual seria a sua reacção?

JRS – Os filhos devem seguir as profissões que entenderem e os pais não devem interferir nessas escolhas. O importante é que cada um seja responsável pelas suas escolhas – e feliz por elas.

É um homem que os portugueses aprenderam a admirar, pela sua postura profissional enquanto director da RTP e enquanto comunicador bem disposto e espirituoso. Sendo o nosso convidado do mês de Natal, gostaria de lhe pedir que formulasse um desejo para os operacionais que agora são algo esquecidos, mas que dentro de cerca de cinco meses são de novo lembrados.

JRS – Na profissão de bombeiro é melhor ser esquecido do que lembrado, porque é bom sinal que não se esteja no centro das notícias.

Qual é a frase de encerramento desta entrevista que nos quer deixar?  

JRS – Feliz Natal!

 

(Entrevista conduzida por Daniel Rocha)




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).