Fogos. Verão de 2015 em risco de se tornar num dos piores de sempre

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PAULO CUNHA/LUSA

PAULO CUNHA/LUSA

Fogos. Verão de 2015 em risco de se tornar num dos piores de sempre. Florestas cheias de combustível, calor, pouca humidade e véspera de eleições. 

O Verão de 2015 poderá ficar para a história como um dos mais difíceis em matéria de incêndios florestais. Especialistas de várias áreas concordam que, nos próximos meses, estarão reunidas todas as condições para a ocorrência de muitos fogos: nos últimos sete meses praticamente não choveu; até Setembro estão previstas temperaturas muito elevadas e no ano passado houve poucos fogos, o que faz com que as florestas estejam repletas de combustível. Como se já não bastasse, a assombrar o trabalho do bombeiros está também o mito – que os números confirmam – de que em ano de eleições há mais incêndios.

O recente balanço da fase “Bravo” – a segunda época mais complicada para os bombeiros – deste ano confirmou o aumento do número de incêndios: entre 15 de Maio e 30 de Junho registaram-se 3355 ocorrências. Um valor “francamente superior à média dos últimos 12 anos”, admitiu o comandante operacional nacional, José Manuel Moura, na apresentação dos resultados.

Era expectável que as estatísticas piorassem, uma vez que 2014 foi o segundo melhor ano dos últimos 35 em matéria de incêndios. No ano passado, os bombeiros contaram com a ajuda da meteorologia: o Verão húmido e com temperaturas globalmente mais baixas que o normal permitiu reduzir as ignições. O senão é que, tendo havido pouca área ardida, as florestas contam, este Verão, com bastante combustível para arder. Em Março, o especialista em Ordenamento Florestal da Universidade de Coimbra, Domingos Xavier Viegas, avisou que 2015 poderia ser explosivo. “Vai ser manifesto o crescimento da vegetação que suporta a propagação do fogo. E isto é um factor agravante, sobretudo se as condições meteorológicas no período dos incêndios forem mais graves que as registadas no ano passado”, alertou em declarações à Renascença.

E, ao que tudo indica, o tempo vai mesmo estar quente nos próximos meses. Segundo o IPMA, nos últimos sete meses os valores da precipitação mensal têm sido sempre “inferiores ao normal na generalidade” do continente. De tal forma que, a 30 de Junho, dois terços do território nacional estavam já “em situação de seca severa a extrema”. E as previsões sazonais do instituto apontam para temperaturas “acima do normal” para toda a faixa Interior de Portugal entre Julho e Setembro. “São expectáveis condições meteorológicas favoráveis à ocorrência de fogos florestais”, admite o IPMA.

o mito das eleições? A juntar a este cocktail, há eleições marcadas para depois do Verão. E as estatísticas comprovam que em ano de ida às urnas há mais fogos: as estatísticas mostram que quando há eleições autárquicas ou legislativas há, de facto, mais ocorrências e maior área ardida. Os incêndios costumam aumentar 6,68% e a área ardida sobe 4,54% em relação à média. O fenómeno nunca foi devidamente estudado, mas o presidente da Liga dosBombeiros admite que possa existir. “Muitas vezes, há momentos em que os países levam longe demais o seu facciosismo”, diz Jaime Marta Soares.

Com ou sem mitos, o certo é que este ano, e até anteontem, os bombeiros foram chamados a combater 9.833 incêndios. No mesmo período do ano passado registaram-se 3.010 incêndios, três vezes menos. E já arderam 17.808 hectares, mais do que em todo o ano de 2008 (16.452 hectares) e quase tanto como os 19.910 hectares ardidos em todo o ano passado ou os 22.798 de 2007. Só na última semana, e desde que arrancou a fase “Charlie” – a mais grave dos fogos – houve 735 ocorrências.

Mesmo assim, os dias com mais fogos deste ano foram em Abril. O dia 4 com 243 ocorrências e o dia 5 com 206. O Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) de 2015, da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), chama a atenção para o facto de os meses de Julho a Setembro continuarem a ser os mais problemáticos, mas avisa que “mesmo nos períodos previsíveis de menor perigo são cada vez mais recorrentes situações especiais”, resultantes de “condições meteorológicas adversas ou de outras circunstâncias agravantes de perigo”.

O documento também alerta para o aumento dos espaços silvestres, florestas e mato – que ocupam 67% do território (seis milhões de hectares de área). Esta mudança dos solos, juntamente com o despovoamento do Interior, o envelhecimento da população rural, o não aproveitamento e exploração das florestas, as alterações climáticas e a acumulação de “elevada carga de combustível” reúnem, segundo a ANPC, “condições cada vez mais favoráveis ao desenvolvimento de incêndios “mais complexos e violentos”.

Um problema que, defende Jaime Marta Soares, só poderá ser invertido com prevenção e planeamento. Algo que, defende, “continua a não existir em Portugal”. Ainda assim, nem tudo são más notícias. O presidente da Liga dos Bombeiros está convicto de que nunca houve “tantos meios” e “tanta formação” nos teatros de operações como este ano. Foram, por exemplo, reforçadas as equipas de ataque inicial aos fogos e as Equipas de Intervenção Permanente (EIP).

(Fonte: i)

 




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).