Fogos com falhas mas sem culpados

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Incêndio na freguesia de Covelo em Gondomar«O uso de fogo táctico foi muitas vezes realizado de forma abusiva, sem técnica adequada, causando situações de risco e muitas vezes com consequências negativas, aumentando a propagação do fogo ou dificultando tácticas de combate» – aponta Xavier Viegas, especialista em fogos florestais, no relatório final solicitado pelo Governo sobre os grandes incêndios ocorridos este Verão – em Picões e na serra do Caramulo – e as circunstâncias em que morreram oito bombeiros.

No documento, que omite esta última parte, são analisadas as causas dos fogos – más condições climatéricas e elevada carga de combustível – e apontadas lacunas durante as operações de combate, como a descoordenação das equipas no terreno e a realização de manobras erradas, sobretudo no Caramulo, onde morreram quatro voluntários.

O uso do contrafogo é um exemplo. Algumas vezes, esta técnica chegou a ser aplicada por bombeiros «sem uma autorização expressa do comandante», o que causou «momentos de tensão» e «originou situações em que o controlo do fogo foi perdido».

Governo tem de ‘tirar responsabilidades’

Esta situação deve merecer «profunda reflexão» por parte dos responsáveis, defende Xavier Viegas e os oito peritos do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (ligado à Universidade de Coimbra) que elaboraram o relatório. Recomenda-se , nesta área, o reforço da formação: «Nem sempre os bombeiros, mesmo aqueles com mais experiência, têm conhecimentos e aptidão para avaliar e realizar manobras de fogo de supressão, embora por vezes se vejam na necessidade de o fazer. Nesta perspectiva, julgamos que, ou se deve ministrar formação aos bombeiros, ou se devem formar mais equipas com estas aptidões».

Nos incêndios do Caramulo, houve, além disso, «situações de tensão entre diferentes entidades, nomeadamente entre alguns bombeiros, elementos do Grupo de Análise e Uso do Fogo e da Força Especial de Bombeiros» relacionadas precisamente com o uso do contrafogo. Uma das recomendações é, por isso, a realização de «treinos conjuntos» na época baixa.

Na serra do Caramulo, onde morreram quatro bombeiros, houve outros erros de estratégia. «Em incêndios de grandes dimensões e perante condições muito desfavoráveis, a estratégia deverá ser muito mais elaborada, aceitando determinadas perdas (materiais) como inevitáveis» – sublinha-se. «Os bombeiros por vezes realizaram manobras de combate em locais em que não havia uma clara descontinuidade de combustíveis, com ventos fortes e irregulares, muita carga de combustível e em terrenos muito acidentados».

Além do «risco» para os próprios bombeiros, estas manobras revelaram-se «inúteis porque acabavam por não suster as chamas». A prioridade, ao invés, devia ter sido a «protecção de bens de maior valor» e o combate devia ter sido feito «em locais favoráveis, como caminhos largos, estradas e outras zonas de descontinuidade de combustíveis». Recorde-se que Ana Rita Pereira e Bernardo Figueiredo (das corporações de Alcabideche e do Estoril, respectivamente), ambos de 23 anos, morreram a combater um fogo numa encosta com elevado declive, em Olival Novo, na serra do Caramulo.

Neste incêndio, aliás, há relatos de que as botas dos voluntários não aguentaram as temperaturas e estes tiveram de se apoiar com as mãos e os joelhos no terreno em brasa.

Este erro já fora, de resto, denunciado na altura por Rui Silva, presidente da Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários. «Espero que este relatório ajude a uma mudança no paradigma da formação e do combate, mas também de toda a estrutura de comando», diz agora ao SOL o responsável, que defende que o Governo deve «tirar responsabilidades» sobre as lacunas e os erros detectados.

E, defende Rui Silva, as corporações de bombeiros não são as únicas que saem mal na fotografia: «Todos os envolvidos, aos vários níveis, devem tirar as suas conclusões. Estamos a falar de oito mortes e de um aumento brutal da área ardida. É toda a política de combate que está em causa».

Bombeiro morreu por tentar salvar viatura

A descoordenação dos meios terrestres foi outro ponto fraco identificado pelos peritos. «Detectámos alguma dificuldade em receber tantos meios que vinham chegando num espaço de tempo tão curto e em atribuir-lhes uma missão». Resultado: «Muitos operacionais trabalharam tempo excessivo, noutros casos aconteceu o inverso».

A metodologia de distribuição de ordens deve, por isso, ser «repensada», defende Xavier Viegas, propondo «mais treino fora do período crítico de incêndio» e a «atribuição de um guia local a cada equipa que chega de fora».

Isto evitaria outro problema identificado no relatório: grupos de bombeiros andaram «perdidos à procura de locais e caminhos para executar as ordens» que lhe tinham sido atribuídas. Isso aconteceu, por exemplo, a uma equipa que deveria combater uma frente de chamas em determinada zona da serra do Caramulo, mas acabou por se desorientar e pediu orientações a populares – «que lhes indicaram um caminho que os levou a iniciar o combate na outra extremidade da frente, o que prejudicou a táctica inicialmente definida».

A gestão dos meios aéreos também teve falhas. «Por vezes os comandantes ou chefes de equipas solicitavam apoio aéreo com urgência em determinado local e esse auxílio não aparecia onde tinha sido pedido» – situação que pode explicar-se por «dificuldades de comunicação». Noutros casos, a actuação dos meios aéreos ficou aquém do desejável, devido a descargas de água «insuficientes», como sucedeu nos incêndios de Guardão e de Silvares (Caramulo). Neste caso, a interrupção das descargas «permitiu que o fogo aumentasse de intensidade e ultrapassasse a linha de contenção que estava a ser construída».

No documento, é ainda recomendado um maior investimento no equipamento de protecção individual, «não se poupando no seu preço, na sua qualidade ou na exigência das suas especificações». E os bombeiros no terreno, em caso de emergência, «não devem hesitar em abandonar os seus equipamentos, por muito valiosos que sejam». Recorde-se que um bombeiro de 50 anos morreu em Valença, ao tentar ‘salvar’ uma viatura das chamas, já depois de ter sido dada ordem de retirada.

A prestação de socorro em situações críticas também deve melhorar, observam os peritos, que sugerem a «distribuição de ambulâncias com capacidade todo -o-terreno».

No documento, é feita ainda uma análise exaustiva das condições climatéricas adversas (temperaturas altas, humidades relativas baixas e ventos muito fortes e irregulares) e da elevada carga de combustível – incluindo em zonas «sob gestão directa do Estado», caso do Caramulo – que são apontadas como principais factores que estiveram na origem dos incêndios, tanto em Picões, em Alfândega da Fé, como no Caramulo.

(Fonte: SOL)

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Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).