Faltam bombeiros florestais e há muitos meios aéreos

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Incendiostarde noiteO especialista em incêndios florestais Paulo Fernandes considera que há “um desequilibro no investimento ao combate” aos fogos, apontando a falta de bombeiros florestais e o excesso de meios aéreos.

“O nosso dispositivo, para a dimensão do país, talvez se possa considerar sobredimensionado”, disse à agência Lusa o investigador do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a propósito da fase Bravo de combate a incêndios florestais, que começa na sexta-feira.

Como exemplo, referiu que “é excessivo” o número de meios aéreos, que se reflete num “desequilíbrio de investimento no combate”.

Paulo Fernandes adiantou que “os meios aéreos têm uma relação custo/benefício muito alta” e “aquilo que fazem não compensa de modo nenhum os custos que têm”.

“Existe a perceção pública de que com mais meios aéreos se consegue atacar melhor os incêndios, a verdadeira solução está no terreno, não está no ar”, disse, apontando a falta de “especialização e profissionalização” dos bombeiros, apesar de Portugal ter os meios e feito investimento nos últimos anos.

O investigador da UTAD explicou que a falta de especialização está relacionada com “combatentes mais aptos em enfrentar o fogo florestal”, uma vez que bombeiros portugueses “estão mais treinados para defender pessoas e bens” e não as florestas.

“Apesar de todo o investimento, não vemos grandes avanços na eficácia, como em Espanha e em outros países, que conseguiram melhorar as estatísticas de fogos”, sustentou.

Além da falta bombeiros sapadores, Paulo Fernandes considerou também que há pouca visão técnica, fundamental para extinguir um incêndio o mais rápido possível. “Com poucos meios de combate podemos fazer bastante melhor, é preciso ter uma visão técnica sob o incêndio, saber ler o incêndio, aplicar conhecimento técnico mais avançado que em Portugal é extremamente escasso”, sustentou.

Para o docente, os passos dados em Portugal “têm sido muito tímidos”, apesar de estar tudo diagnosticado há muito anos.

Paulo Fernandes destacou a especialização e o investimento feito nas equipas mais vocacionadas para o fogo florestal, como foi o caso dos GIPS da GNR, bombeiros “Canarinhos” e sapadores florestais, mas considerou que o esforço foi escasso.

“Tinha que haver um investimento na formação a todos os níveis, desde o bombeiro treinado para usar a água, até ao técnico florestal que deveria ter as competências para fazer a análise de incêndios e dirigir as técnicas de combate”, afirmou.

Devido a este modelo de combate, assente em bombeiros mais vocacionados para a proteção de bens e pessoas, o investigador considerou que em Portugal ainda se continua a usar mais água do que ferramentas de sapador ou máquinas de rasto.

Paulo Fernandes reconheceu que este a ano houve avanços no número de bombeiros formados, mas o problema está nos formadores, que não têm as competências necessárias, nomeadamente conhecimento técnico no combate a incêndios.

O investigador defendeu ainda a existência de corpos de bombeiros “mais estáveis” e “com melhor formação”.

“Enquanto o combate aos incêndios estiveram tão dependentes do voluntariado e dos bombeiros sazonais é muito difícil ter um corpo profissional estável a atuar nesta área e conseguir melhores resultados”, concluiu.

 

 

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.