Espaço do Conto Bombeiros.pt: “Bombeiros Voluntários”, de Carolina Vargas da Silva (conto completo)

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bombeiros montijoNoite com estrelas. Muito se esperava daquela noite. Acontecem sempre coisas no dia vinte e quatro de Dezembro e esse ano não seria exceção. Mas, por enquanto, os três homens esperavam. Estavam a postos para a ação, com os seus casacos vermelhos e os sapatos de trabalho, em silêncio, tentando distrair a ansiedade com uma leitura rápida do Jornal da Região. O aquecedor estava ligado, mas podia sentir-se o frio a penetrar os vidros da janela do quartel. Imaginavam que se saíssem para a rua iriam poder ver o vapor causado pela respiração. Mas era uma noite clara, sem vestígios de nuvens chuvosas; sem humidade o frio até se aguentava bem.
Jaime olhou para o relógio na parede. A ceia de Natal já devia estar a terminar para a maior parte das famílias. Ele desejava profundamente estar em casa com a sua, mas tinha sido destacado para ficar no quartel nessa noite. Tinham comido peru, que o Carlos tinha trazido numa caixa de plástico, requentado e muito menos saboroso do que o que estava prescrito na receita tradicional. Pedro pousou o jornal. Começavam a ficar impacientes, começavam a pensar em ir à rua fumar um cigarro, em ligar para casa a saber como estavam os filhos, em tirar o baralho de cartas e jogar uma bisca, já que não havia gente suficiente para uma suecada.
Foi então que, finalmente, receberam a primeira chamada da noite.

I

Natal Antigo

Carlos tomou-lhe o pulso. Não apenas uma, mas várias vezes. Observou bem o peito, colocou o ouvido junto à boca para saber se respirava. Com um aceno de cabeça, semblante sério, confirmou o que todos esperavam. Nada.
Já tinham vindo preparados com o saco de cadáveres e a maca para levarem o corpo. Aliás, quando ligaram disseram precisamente isso. Para irem buscar um corpo. Os bombeiros esperam sempre muitas coisas diferentes quando recebem este tipo de chamada. Poderia ter sido um ataque de coração ou um ataque violento pela parte de um criminoso. Poderia ser qualquer coisa. Todos eles já tinham visto muitos tipos de mortos, nas mais estranhas situações e posições. Não deixava de impressionar. O dessa noite era um homem idoso, muito magro, minúsculo na cama enorme, coberto com edredons e cobertores, como se os mortos precisassem que os protegessem do frio. Todas as pessoas da família estavam calmas, dois casais, cinco filhos de variadas idades, olhando para o senhor que descansava eternamente no maior conforto.
“Parece que está a dormir”, pensou Jaime, sem coragem para o dizer em voz alta e despoletar o pânico na família.
Prepararam tudo em silêncio, com todas as pessoas a observar. Os miúdos mais pequenos pareciam querer largar as mãos das mães para tocarem no falecido. Chamavam-no Avô, Avô, para onde vais Avô. Mas não se sentia a tristeza no ar. Por momentos, quase se sentia alívio.
“O meu pai estava muito doente, tinha um cancro na faringe. Estávamos à espera que acontecesse mais tarde ou mais cedo”, disse um dos homens, o que tinha bigode.
Carlos estremeceu. O seu pai também combatia um cancro. Fechar o saco por cima do homem fazia-o pensar que em breve, se calhar, o mesmo aconteceria ao seu amado pai. Não seria ele a fazer o transporte, não seria ele a olhar para a cara de olhos fechados. Mas seria ele a observar os últimos momentos? Não poderia sentir alívio com isso, não poderia sentir o mesmo que aquela família. A desgraça abatia-se sobre ele, mas tinha esperança. Tinha-se tornado bombeiro voluntário por isso: esperança. Esperança de salvar pessoas, de ajudar pessoas. No entanto, não estava nas suas mãos ajudar o homem que iria transportar, nem ajudar o seu pai e impedir que os seus colegas o levassem. Sentiu-se um Caronte injustiçado. Iria levar um morto, mas não para uma nova vida. Haveria uma nova vida?
No Montijo vê-se bem o céu à noite, pois não há muita poluição visual. Eles estavam num prédio baixo da Rua dos Pescadores, por isso não poderiam ter visto, mesmo que se tivessem lembrado de olhar pela janela. No entanto, é certo que nessa noite passou pela Margem Sul uma estrela cadente. A milhões de anos-luz de distância, na Véspera de Natal de há muitos anos, uma estrela morreu para dar lugar a muitos outros objetos celestes. Se os bombeiros a tivessem visto, talvez se tivessem sentido melhor nesse momento solene. Talvez até tivessem sorrido.

II

Natal de Agora

Junto ao rio estava mais frio. Saíram do carro apertando as mãos e bafejando sobre elas, tentando manter o calor corporal. Essa chamada era um acidente, mesmo à porta do Seixalinho. Os bombeiros já conseguiam imaginar a situação ainda antes de terem chegado: trabalhadores vindos de Lisboa num dos últimos barcos, desesperados por chegar a casa em tempo útil, tinham-se desconcentrado e perdido o controlo do carro. Nada de novo.
Os dois carros estavam parados com os quatro piscas a iluminar a estrada. Não estavam a empatar o trânsito, por isso eram as únicas pessoas que restavam perto da estação fluvial. Um homem e duas mulheres esperavam ao lado das viaturas, andando de um lado para o outro de braços cruzados.
Verificando a situação, estavam todos bem. Tinham chamado as autoridades para terem a certeza que ninguém iria mentir e colocar um processo por danos físicos. Apenas os carros estavam um pouco maltratados, mas poderiam seguir viagem sem recurso a reboque.
“Tenho os meus filhos em casa à espera dos presentes, preciso de me ir embora, já me posso ir embora?”, perguntava uma das mulheres, a que tinha o gorro.
“Não é a única que precisa de ir para casa minha senhora, eu também tenho os meus filhos à espera!”, dizia a outra, a que tinha o cachecol.
O homem, marido de uma delas, estava em silêncio absoluto. Por isso, foi com ele que os bombeiros foram falar para dar conta da ocorrência.
Jaime deixou-se ficar para trás, observando os carros. Ele também tinha os filhos em casa, mas nessa noite não iria partilhar com eles a abertura dos presentes. Já eram adolescentes, já não se preocupavam tanto com o Natal como antigamente, mas ele gostava de viver esse dia com eles. Tinha ficado muito aborrecido quando descobriu que iria estar de serviço no dia vinte e quatro, tentou por tudo mudar o dia, mas todos se recusaram a trocar com ele. Quando chegou a casa e teve de anunciar que estaria ausente nesse feriado tão importante, todos ficaram aborrecidos. Sobretudo a mulher, que tinha uma grande tradição na celebração do Natal. Mas depois de algumas horas de amuo, ela acabou por deixar o marido sossegado. Era um trabalho de responsabilidade. Se ele não estivesse lá e acontecesse alguma urgência, quem iria? Jaime estava lá para ela todos os dias e não seria por faltar a uma simples festa que o seu amor morreria. Ela sabia que o seu trabalho nos bombeiros era importante. Ele nunca lhe tinha dito, mas ela tinha a certeza de que era a coisa mais gratificante que ele fazia. Bastava olhar para ele quando chegava a casa depois de uma noite passada no quartel para o saber.
As luzes da estação ainda não estavam apagadas, ainda iria chegar outro barco. As luzes da cidade do outro lado do rio confundiam-se com o céu, de tão negra estava a água. Mas estava tudo em paz. O rio estava calmo.

III

Natal para Sempre

Iam com os pirilampos, luzes azuis ligadas e a sirene a estragar o silêncio da noite. Uma verdadeira urgência. Quando chegaram, dividiram-se de forma organizada. Pedro iria atrás e os seus colegas na frente. Pedro iria tomar conta da senhora que estavam a levar para o hospital. Estava grávida, as águas tinham rebentado, o marido estava numa viagem de trabalho e não tinha maneira de se dirigir ao hospital. Precisava de ajuda e os bombeiros estavam ali para a ajudar.
Segurando-lhe a mão e dizendo-lhe palavras calmas, Pedro só se conseguia lembrar de que tinha estado numa situação demasiado semelhante há alguns meses. Também ele era pai e também ele estava a trabalhar no dia do nascimento do seu filho. Ele tinha um bom horário, das nove às seis, mas era bombeiro voluntário e isso levava-lhe algumas noites. Uma delas tinha sido aquela em que o seu filho nascera. Tinha acompanhado o processo, na verdade, a sua irmã fizera questão de lhe enviar notícias ao minuto por mensagem. Foi o primeiro a receber uma fotografia da criança no seu telemóvel e todos os seus colegas o congratularam. Assim que saiu do serviço, foi imediatamente ao hospital ver o seu bebé.
Mas o que era aquilo que ele estava a ver nesse momento, segurando a mão da mulher? O parto… O parto iria começar. Ele gritou para a frente para se despacharem. Mas a jovem mãe não podia esperar mais. A criança não podia esperar mais. Agora ou nunca: era a vez de Pedro participar num nascimento.
Ele não sabia bem o que fazer. Tinha sido instruído para essas situações, mas nunca tinha visto nenhuma. Teria de confiar no instinto. Calçou umas luvas de borracha e tentou recordar-se da ação de formação. O que estava a ver causava-lhe um misto de horror e curiosidade, mas custava-lhe olhar para a cara da mulher a contorcer-se com dores. Poderia ser um momento de humilhação, ter um desconhecido a participar num momento tão íntimo, mas ela não parecia importar-se. De repente, viu um tufo de cabelos muito pretos a emergir. Com uma rapidez impressionante, uma rapidez inesperada, toda a criança estava cá fora, gritando, respirando pela primeira vez. Uma estrela que nascia, com ruído, em todo o seu esplendor.
Tudo tratado, criança embrulhada e nos braços da mãe, exausta. O carro dos bombeiros parou e todos entraram na traseira para ver o que tinha acontecido. As suas caras iluminaram-se. Carlos, Jaime e Pedro. Muito ao longe, ouviam-se os sinos da Igreja Matriz a bater a meia-noite.
Afinal tinha valido a pena perder a ceia de Natal. Era o melhor presente que poderiam ter recebido.

(Conto vencedor do Concurso Literário “Conto de Natal” – Montijo 2013, no Escalão B, promovido pela Câmara Municipal do Montijo)

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Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).