CONAC Duarte Costa partilha mensagem dedicada ao Comandante Noel Ferreira

0

O Comandante Nacional Duarte Costa, da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, deixou ao final do dia de ontem uma mensagem dedicada ao Comandante Noel Ferreira. Pela grande lição que transmitem, vamos trascrevê-la integralmente.

A guerra nunca é justa, nunca é leal e acima de tudo é uma atividade que enodoa todos os que nela participam. Nunca é asséptica como a imagens tentam mostrar pois a sua cinética provoca morte, dor, desespero e sangue. Mas é guerra, e aceita-se que o combate por ideais, salvaguarda de pessoas e interesses do Estado, de alguma forma justifiquem as desumanidades e ferezas que se cometem. A guerra foi assim, é assim e será sempre assim. E na guerra combate-se um inimigo que se conhece ou pretende conhecer, que no seu ideal, batalha ou deverá também batalhar com a galhardia do combate entre guerreiros, embora permaneça do outro lado da barricada.

Mas na guerra contra os fogos tudo é diferente. Aqui o combate dos Soldados do Bem e da Paz, sejam bombeiros, militares, pilotos, sapadores, pessoal da emergência médica ou outros ainda que fazem parte deste exército dos agentes de protecção civil, que batalham contra os incêndios, manifesta-se contra um inimigo sempre pérfido, traiçoeiro, escuso e inquinado. Este inimigo não usa as mesmas tácticas ou estratégias, as mesmas normas e procedimentos. O fogo representa o que é malévolo e manifesta-se permanentemente inteligente e com uma vontade de sobrevivência própria. E aqui a única certeza deste combate entre o bem e o mal é que o bem vai prevalecer, mas à custa de muita destruição e dor. E combate-se não contra o inimigo que causa o incêndio, mas sim contra o sucedâneo do ato inconsciente ou criminoso de originar o fogo… porque quem o causa ou origina quase nunca sente o efeito desse combate à incúria ou perfídia do seu acto.

Mais uma vez a destruição e dor estão bem patentes na perda de mais uma vida inocente, da vida de mais um Soldado que se perde durante o combate, durante esta luta inumana que teimamos todos em porfiar e levar a cabo em prol da segurança de todos os portugueses, mesmo daqueles que por incúria ou dolo originam esse mesmo efeito contra o qual todos combatemos.

O Noel não teve um combate leal, não pôde enfrentar um inimigo frontal, não pôde olhar de frente a ameaça porque o combate que levava a cabo com heroísmo não era contra a causa do mal, mas contra o sucedâneo desse mesmo mal. E para todos nós que fazemos parte do sistema que combate esse mal, o sentimento de impotência e de revolta é enorme. Enorme porque sentimos que a perda de algo sagrado como uma vida de um destes Soldados é algo que não encontra recompensa apenas no dever cumprido ou na nobreza da missão. Temos de ir mais além, temos de acreditar que esta perda se justifica apenas na procura de uma sociedade mais segura, mais consciente e mais justa. Porque no fim da linha, sentimos a perda do Noel como o resultado de algo que nos escapa e cuja origem temos e teremos sempre de combater… como ele galhardamente sempre combateu quer como Bombeiro, como Piloto e como Militar.

Perguntaram-me uma vez se nesta função que desempenho, durmo de consciência tranquila…
Nunca dormirei de consciência tranquila enquanto houver Soldados da Paz que morrem no campo de batalha.

Até um dia destes Comandante Noel Ferreira

 




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).