Carta de uma bombeira que está cansada *

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Não sei se este texto será chamado de “Carta”, como aquelas que agora vulgam nas redes sociais, sujeitas ao escrutínio de quem as lê. Não sei sequer se será bem entendido. É só um desabafo idiossincrónico sobre a palhaçada que se tem vivido desde sempre nesta matéria mas com maior intensidade nos últimos cinco meses.

Eu sou bombeira voluntária, tenho 25 anos e estou cansada. Fui para os bombeiros por gosto. Porque entendo neste ato de voluntariado uma premissa nobre, sob a qual me faz sentido viver. Ser bombeiro é adotar o lema vida por vida, com tudo o que isso implica. Mas não é viver sob condições desumanas, desrespeitosas e criminais. Eu estou cansada de tudo o que envolve a matéria de incêndios florestais. Estou cansada de acusações à esquerda e à direita. De promessas que nunca vão ser cumpridas e de medidas que nunca vão ser pensadas. Eu não sei quem tem de mandar nisso. Percebo muito pouco de política e todo o sistema ANPC se torna impossível de entender, dado as entradas e saídas de pessoal. Por isso não sei exactamente a quem me dirigir.

Mas parem com isto. Por favor parem com isto. Já não se aguenta! Vocês são muito chatos. São cansativos e revoltam de uma forma tão agudizada que por vezes apetece-me que caísse sobre a vossa casa as chamas que consumiram a casa de pessoas impunes. Quem anda a combater incêndios somos nós. Quem dá o corpo ao manifesto somos nós. Quem perde dias de trabalho somos nós. Quem não vê a família durante tempos somos nós. Quem passa mal somos nós. Somos nós por vossa causa. Porque vocês decidiram que um grupo de pessoas, a quem chamam bombeiros, devem ser colocados dentro do inferno em chamas. Devem lutar pelo país. Mas vocês só exigem. Só exigem que garantamos o DECIF, só exigem que compareçamos aos alertas, que abdiquemos da nossa vida para vos safar a consciência. Porque é só disso que se trata.

Vocês não querem saber de Portugal, nem das pessoas que vivem no “vosso” país. Vocês só querem deitar-se à noite e saber que a tarefa de salvar o país deste inferno em chamas está delegada a alguém. Sobre que condições não importa. E dormem. Dormem enquanto nós andamos de mangueira em carga, horas sem comer, cansados e com sono, desejosos de chegar a casa porque lá espera-nos alguém em anseios. Mas por vezes não voltamos todos. Depois vocês aparecem a lamentar os nossos colegas bombeiros que morreram, como foi no fatídico ano de 2013. Choram-lhes a morte, põem a gravata preta, vão às cerimónias fúnebres e vão para casa dormir. No ano a seguir deram-nos um EPI cheio de estudos daqui e dali alegando a sua resistência e mandam-nos de volta aos leões. E para vocês já está tudo bem. Uma desgraça de maior assola novamente o país, como foi em Pedrogão Grande e vocês aparecem de novo. Dão conferências, falam ao país e demonstram-se abalados com o que se passa. Choram abraçados aos familiares de quem morreu e declaram luto nacional. Prometem mundos e fundos mas voltam a ir dormir descansados. Desde junho até outubro pensaram em mil e uma medidas. Fizeram questionários infindáveis. Queriam saber os motivos de tanta morte, quem tinha errado, quem pensou ou mandou mal no terreno.

E adivinhem quem é que não andou no terreno? Vocês. Por isso a culpa nunca seria vossa, não é? Vocês são redondos. São egocêntricos e metem nojo. Andam às voltas com culpados. A agora ex-ministra da administração interna quase nos culpou pelas férias que não teve. Quer saber senhora ex-ministra? Eu e os meus colegas também não tivemos férias. Sabe porquê? Porque nas férias que tivemos demos disponibilidade para garantir o DECIF. Sabia? Sabia que o bombeiro voluntário abdica muitas vezes de férias para estar ao serviço do país? Mas sabe que mais? Mais valia ter ido de férias, para fazer o que fez fazia no Algarve, debaixo do chapéu de sol. O primeiro ministro vem dizer que os portugueses são adultos e sabem que não existem soluções mágicas. Saca do seu ego de quilómetros e mantém uma postura dura e cínica, reveladora da pedra que tem na cabeça e no coração.

Morreram aproximadamente 100 pessoas nos incêndios em Portugal e vocês querem adultez? Querem que estejamos calmos? Que sigamos a nossa vida como se nada fosse? Os bombeiros estão exaustos física e psicologicamente, porque na verdade o que o governo faz é abusar da nossa boa vontade, certo de que não boicotaremos o sistema. Não é que falte vontade. Mas boicotar o sistema significava deixar arder Portugal e aplicar-se-ia a expressão “paga o justo pelo pecador”. Nós bombeiros estamos de pés e mãos atadas. Somos nós o fator de manutenção da podridão do sistema instaurado, admito. Somos nós que aceitamos um euro e oitenta e sete à hora para andar a combater incêndios horas infinitas (caso estejamos na equipa de ECIN ou ELAC, caso contrario recebemos zero euros à hora). Somos nós que não reclamamos as condições dadas. Somos nós que nos preocupamos sempre mais com o outro do que connosco e não conseguimos ficar em casa sentados assistir à calamidade pública. Somos nós que saímos de um TO a jurar nunca mais dar disponibilidade dado o cansaço, e na hora a seguir em caso de novo alerta nos pomos no quartel em menos de meio minuto para ingressar novamente em missão.

Caramba, nós andamos a defender Portugal. Não somos exército e a nossa arma é uma agulheta num lance de mangueira em carga. Mas estamos cá. A grande guerra do nosso país têm sido os incêndios. Será que não vêem isso? Nós temos sido as vossas forças armadas (sem desprimor às mesmas). E o que é que vocês têm feito por nós? O que é que têm feito? Deixam que seja o povo a fornecer comida e água para os homens que vos defendem o país? Deixam que sejam empresas a contribuir com combustível para os veículos que nos levam até ao sítio que querem ver protegido? Vocês são um verdadeiro flop. Abusam de toda a gente, até da solidariedade de quem contribui. Que vergonha. Eu não percebo de verbas nem de orçamentos de estado.

Mas onde é que estamos nós, bombeiros, no meio disto tudo? Quando é que nos tratam com dignidade? Quando é que se lembram que não somos obrigados a isto? Quando é que se lembram que se de um dia para o outro todos nos recusarmos a comparecer a um TO não há salvação? Eu falo em “vocês” porque não sei a quem me dirija. Não sei se ao Presidente da República, ao Primeiro Ministro, à administração interna, à ANPC, ou a outra porra de cargo qualquer que vocês tenham inventado. Mas para mim, “vocês” são todos quanto compactuam com a miséria de sistema que temos, todos quantos perdem tempo a falar e a dar entrevistas e não fazem nada. E “nós” somos todos os bombeiros, todos quantos lutam por amor ao próximo, debaixo de condições podres. E nós também temos a culpa. Porque não fazemos a revolução e aparamos os vossos golpes. Porque não dizemos basta e vamos sempre que nos chamam. Porque não deixamos que uma catástrofe nacional se instale por compaixão a quem não merece a vida destruída. Vocês têm-se safado pelos pingos da chuva, ao abrigo do povo que merece o nosso empenho. Vocês são cobardes e cheios de vocês mesmos. Agora vão preocupar-se com as demissões que vão aparecendo, e envoltos em protocolos vão deixar cair em esquecimento as matérias de incêndios florestais. E com isso esquecem todos quantos têm a vida destruída porque vocês não nos deram condições para salvar todos quantos era desejável. Vocês só sabem fazer isso: mentir, viver para aparências, preocupar-se com protocolos, exigir, apelar à nossa consciência e assediar-nos moralmente sobre o nosso dever de servir a população. E nós assistimos de camarote. Eu estou cansada de vocês, do sistema, dos incêndios e disto tudo. E se ainda quiserem chamar a isto uma “Carta”, chamem-lhe “A carta de uma bombeira que está cansada”.

Adriana Brites

Bombeira

Bombeiros Voluntários de Fátima

(*Nota da Redação – Este texto foi escrito pela autora no seguimento dos incêndios de 15 de Outubro de 2017. O título é da responsabilidade da Redação do Portal Bombeiros.pt. )




Sobre quem enviou a noticia

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).