Carlos Cação. “Poderíamos tirar maior rentabilidade da floresta sem grande trabalho”

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Carlos Cação, natural de Valões, concelho de Vila Verde, é presidente da Associação Florestal do Cávado há cerca de um ano e meio e, em entrevista, aborda alguns dos temas relacionados com a floresta, aponta novos caminhos para os Sapadores a nível de formação e mostra-se com vontade de ver os salários dos trabalhadores aumentados num futuro próximo.

Depois de um ano trágico e sem memória no que toca a danos causados por incêndios, qual é o papel das Associações Florestais e dos Sapadores no pós-2017?

(Carlos Cação): O que vai mudar são as políticas a nível governativo, e não nas próprias associações, pois não temos esse poder de decisão. Mas vamos trabalhar todo o ano na prevenção e combate aos incêndios, como temos feito até aqui. Estamos também aptos para ajudar no período crítico e temos, a nível preventivo, a ideia de realizar um plano definido de faixa de gestão de combustível, limpeza de bermas e caminhos de monte de forma a que, em caso de incêndio, se evite a passagem para outros lados desses mesmos caminhos.

Gostava de salientar que esta é uma parte muito importante [o fogo controlado], em que atuamos numa área critica, definida pelo CDOS, autorizada pelo Município e pelo Instituto de Conservação da Natureza e Floresta (ICNF) depois das juntas e das associações fazerem um levantamento. Fazemos uma faixa de gestão de combustível à volta, ou seja, limpamos uma faixa a volta da área que queremos queimar, e isto estamos a falar fora do período critico, óbvio. Em março, abril, é quando fazemos essa gestão de combustível.

Na minha opinião, é bastante importante fazer este fogo controlado, e é pena não conseguirmos fazer em todos os municípios.

O problema disto é existem muitas áreas criticas e temos um problema maior quando não sabemos de quem elas são. Por isso se fala no cadastro florestal, ou de uma forma de saber quem são os proprietários desses terrenos de forma a obrigar a limpar ou pelo menos que autorizem a gestão de combustível

O cadastro da floresta é prioridade para a AF Cávado? O que aconselha para a recuperação da floresta no território do Cávado? O que diz dos eucaliptais?

(CC): O cadastro não depende de nós, mas sim do Governo, que quer fazer na floresta o que fez nos terrenos agricolas. Temos muitos proprietários florestais de pequenas áreas e o objetivo passa por, no futuro, agrupar as pequenas parcelas de cada proprietário e fazer um acordo para juntar em parcelas maiores para podermos candidatar-nos a fundos comunitários, pois esses fundos dependem da área de plantação.

Quanto aos eucaliptos… Não tenho nada contra eles. O problema é que as plantações estão desordenadas e não há limpeza. As plantações que estão limpas dificilmente ardem. Estão cuidadas porque há uma manutenção daquele espaço e acompanhamento. Se a nossa propriedade estiver bem cuidada é difícil que um incêndio afete a produção.

Um dos maiores problemas da floresta é o seu ordenamento. E aproveito para dizer, e isto é importante, que a AF Cávado vai, em conjunto com o Município de Braga, dar apoio aos proprietários para reflorestar, com acompanhamento para controlar as novas produções. Para isso os produtores vão ter ajuda de um técnico da associação onde podemos prever e prevenir muitos flagelos no futuro. Se houver cuidado e ordenamento na plantação e nas espécies a escolher para o local, pode haver aqui no futuro uma prevenção mais eficaz.

Qual a experiência a nível pessoal de presidir a uma associação florestal?

(CC): Quando me lançaram este desafio, não hesite, pois sabia que era uma associação com um potencial enorme. Informei-me, sabia que havia algum passado turbulento mas sempre gostei de desafios e encarei mais este. Ao fim de um ano e meio à frente da AF Cávado, conseguimos uma equipa para Braga, renovámos a equipa de Vila Verde, conseguimos consolidar as contas e pagar as dívidas que existiam e iniciamos uma maior aproximação aos sócios que resultou num aumento no número de associados.

Para além disso, conseguimos iniciar o centro de formação dos nossos técnicos para a certificação florestal, que é um assunto que no futuro terá mais amplitude. Para janeiro, os nossos técnicos vão entrar nessa formação, por isso pode-se dizer que já está em “modo cruzeiro” para podermos ativar os melhores mecanismos e dar o melhor apoio aos sócios e a quem nos procure.

Há sinergias com outras entidades, como Bombeiros ou Município, por ex.? Quais e como têm corrido?

(CC): Temos um exemplo prático e “fresquinho”. Ontem renovamos uma viatura de Vila Verde, após parceria de 17 anos com o município. É sinal de uma excelente relação. Com os outros municípios as relações mantém-se há quase 15 anos.

Com os Bombeiros, temos parceria nos fogos controlados, por exemplo. Mas a nossa prevenção é na limpeza com roçadoras e outras maquinas agrícolas, porque trabalhamos sozinhos a limpar os montes. Por isso é que acho que quantos mais Sapadores houver no terreno, melhor. No que toca aos incêndios, a sinergia é ótima. Em Vila Verde, temos as duas equipas que, durante o período critico, estão em estado alerta e vão para os postos de vigia, previamente definidos. Somos responsáveis em dar o alerta e tentar fazer a primeira intervenção em colaboração. As equipas fazem vigia em São Miguel o Anjo e em Coucieiro.

Qual a situação dos operacionais da AF Cávado a nível de formação? Tem registado inovações?

(CC): A equipa de Braga começou a ter formação em Arouca, juntamente com outras equipas de Sapadores de todo o país. Entretanto, conseguimos agora uma nova parceria com o ICNF e com o Instituto de Emprego, que nos vai dar o resto da formação teórica aos nossos elementos. Aos nossos e não só, pois as outras associações da região vão beneficiar do nosso pedido. É bom porque não há a deslocação dos nossos elementos para Arouca.

Recebeu duas viaturas recentemente, para Braga e Vila Verde. Havia essa necessidade? Para quando viaturas para os restantes concelhos?

(CC): A equipa de Sapadores Florestais para Braga era uma necessidade, uma exigência e um anseio desde 2013, desde que este executivo tomou posse. Não aconteceu antes, mas felizmente, conseguimos esta equipa agora em julho. Andávamos até então a prestar serviços ao concelho de Braga com equipas de outros locais. Mas, felizmente, depois de muito suor e de sermos excluidos da lista por duas vezes, o Governo deu a mão à palmatória e viu que era uma necessidade.

Em Vila Verde, a troca de viaturas foi porque o carro antigo tinha a mesma idade da primeira equipa criada no Município, ou seja, 17 anos. Era muito importante renovar este equipamento e esperamos que, e é promessa do primeiro-ministro, consigamos renovar todas as equipas ao serviço da AF Cávado. Amares, Terras de Bouro e Barcelos continuam à espera de uma nova viatura, para substituir as antigas.

Há muitas queixas de Sapadores devido aos salários. Acha que a nível nacional o Governo deveria dar mais atenção aos Sapadores, de igual forma como dá aos Bombeiros?

(CC): Só falo da minha associação. E o que tenho a dizer é que ela está completamente estabilizada financeiramente. Não tem dívidas e cumpre os compromissos. Também temos a noção que os salários dos Sapadores não são tão altos como gostávamos, mas não depende de nós. Aliás, esperamos que o Governo de lembre de aumentar o financiamento às associações florestais para esse mesmo efeito.

Vila Verde




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Ana Romaneiro

Ana Romaneiro

Nasceu em Évora onde cresceu e estudou. Desde muito cedo que partilha o gosto pela informática, que, a levou a tirar um curso profissional técnico de Gestão de Sistemas Informáticos, profissão que exerce na atualidade. A sua ligação aos bombeiros surge aos 13 anos ao entrar na fanfarra dos Bombeiros de Évora, onde permaneceu até 2013. Na atualidade integra a corporação os Bombeiros de Reguengos de Monsaraz, no posto de bombeira de 2º.