“Andamos aqui a mendigar”

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Um mês depois da tragédia de Pedrógão Grande, o presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros da região queixa-se de ter de “mendigar” e pedir à população que ajude a adquirir meios.

Os bombeiros de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Góis queixam-se da falta de meios humanos e materiais e de discriminação nos concursos para aquisição de viaturas, sobretudo em relação aos do litoral.

“Tenho que dar este desabafo. Toda a gente sabe que esta é uma mancha florestal muito grande, uma área muito grande […] e não entendo porque é que nós continuamos a não ser contemplados em determinados apoios que existem. Vêm para o terreno dizer que querem e traçam objetivos muito interessantes, mas na realidade nunca somos contemplados”, diz à Lusa o presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Pedrógão Grande, Carlos David.

Um mês depois de deflagrar em Pedrógão Grande, a 17 de junho, o incêndio florestal que fez 64 mortos, as debilidades das corporações dos bombeiros situadas no interior mantêm-se na discussão pública e há unanimidade em apontar a falta de meios humanos e materiais, bem como as dificuldades com o material envelhecido, nomeadamente viaturas, para combate aos fogos.

“Andamos aqui a mendigar, a pedir às populações que nos ajudem, a entidades coletivas que nos ajudem para adquirir viaturas de combate a incêndios em segunda mão. Temos ali uma com 40 anos, velhinha, ainda vai para os incêndios”, afirma Carlos David.

O responsável fala em falta de consideração e de estímulo para estes concelhos, onde a perigosidade é enorme e onde não é possível ter equipamentos de primeira.

“Falo em carros e material adequado que não vem para aqui. A gente concorre, gasta dinheiro, mas depois é por uma trica, por uma vírgula e porque é um critério”, acrescenta.

Os critérios, refere, passam pelo número de pessoas: “Nós aqui somos sempre Portugal de terceira, porque nunca vamos ter número suficiente de gente que o justifique para os senhores que estão no ar condicionado [nos escritórios] e que depois têm afilhados, sobrinhos e padrinhos, que são contemplados. E o interior cada vez mais é desprotegido”.

O comandante dos bombeiros de Góis, João Miguel Pratas, diz que a sua corporação é o espelho de um concelho desertificado e com poucos meios.

“É um concelho muito grande, com uma grande mancha florestal. O nosso efetivo humano é proporcional à ocupação do concelho, é muito pouco, é insuficiente. Podemos dizer que somos discriminados em relação ao litoral, nos grandes centros é onde há grandes empresas, mais população, portanto é tudo proporcional”, lamenta.

O comandante dos bombeiros de Figueiró dos Vinhos, Paulo Renato, lembra que é de conhecimento geral que os equipamentos estão todos envelhecidos.

“Aqui na zona do interior são fustigados, trabalham mais na parte do verão, mas acabam por trabalhar quase todo o ano. É claro que tenho veículos que têm 40 anos, o mais novo tem sete ou oito anos”, refere.

Paulo Renato explica ainda que na altura dos concursos estatais foi proposta aos bombeiros a compra de uma viatura subsidiada, em que a associação humanitária tinha de dar 15% do valor de custo.

Mesmo assim, não lhes foi atribuída – “não pela falta dos 15%, mas porque o Estado ou o concurso achou que não era necessário”. O objetivo era substituir a viatura que tem já 40 anos.

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, realça a importância que todos os agentes têm no combate aos fogos florestais e, no caso de Pedrógão Grande, diz que está “absolutamente convencido” de que todos deram o seu melhor para ajudar a solucionar o problema.

“Eu disse-o logo, na altura, que este era um incêndio atípico, brutal, a que nunca tinha assistido e tenho 55 anos de atividade nestas coisas dos incêndios florestais. E, por isso, algo de anormal se passou”, comenta.

Por isso, entende que muitas vezes, nestas situações, por mais bem estudadas e preparadas que estejam as equipas, existem falhas, tanto humanas como técnicas: “Temos é que ter coragem e honestidade intelectual para, se falharem esses equipamentos, assumir que falharam. É que falharam. Não temos nenhuma dúvida de que falharam”.

Marta Soares volta a dizer que é necessária uma profunda reflexão sobre tudo o que se passou e sublinha que “a culpa não pode morrer solteira”, tendo em conta o registo de 64 mortes.

“O apuramento de tudo, até às últimas consequências, será no fim de contas uma homenagem àquelas pessoas”, concluiu.

Dois grandes incêndios florestais começaram no dia 17 de junho em Pedrógão Grande e Góis, tendo o primeiro provocado 64 mortos e mais de 200 feridos. Foram extintos uma semana depois, após se terem alastrado a outros concelhos.

Estes fogos terão afetado aproximadamente 500 imóveis, 205 dos quais casas de primeira habitação. Os prejuízos diretos dos incêndios ascendem a 193,3 milhões de euros, estimando-se em 303,5 milhões o investimento em medidas de prevenção e relançamento da economia.

Mais de dois mil operacionais estiveram envolvidos no combate às chamas, que consumiram 53 mil hectares de floresta.

(Fonte: Lusa)

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Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011.
A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).