Aldeias terão refúgios coletivos contra o fogo

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Programa Aldeia Segura e Pessoas Seguras prevê, ainda, que cada povoação tenha um morador responsável pela segurança em caso de fogo. Câmaras e freguesias vão sinalizar os caminhos de evacuação.

As aldeias dos 189 municípios com maior risco de incêndio florestal terão locais de refúgio coletivo, caminhos de evacuação sinalizados e um oficial de segurança da aldeia, função que será assumida por um morador em cada povoação. As medidas, que integram o programa Aldeia Segura e Pessoas Seguras, deverão ser implementadas em maio pelas câmaras e pelas juntas de freguesia, seguindo a orientação da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC).

Na região afetada pelo fogo em junho passado, a Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande está a trabalhar, há alguns meses, com a comunidade na autoproteção e projetou abrigos. A Universidade de Coimbra colabora com a associação na criação de locais de refúgio coletivos nas aldeias de Ferraria de S. João, em Penela, e de Moninhos, em Figueiró dos Vinhos. O primeiro será edificado num terreno disponível e o outro resultará da adaptação de um edifício vago na povoação.

Em simultâneo, ainda por iniciativa das vítimas do incêndio de Pedrógão, foram identificados residentes em cerca de 20 aldeias que estão a receber formação, para que sejam capazes de alertar a população e organizar a autoproteção perante as chamas, como explica Xavier Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais, ao JN. A proteção da população foi uma das falhas detetadas no incêndio de Pedrógão, ficando na memória o testemunho de 12 pessoas da aldeia de Nodeirinho que se refugiaram num tanque, durante nove horas, para sobreviver ao fogo.

Sinais têm de ser uniformes

Embora este exemplo surja da vontade da associação, o Governo também tem um programa para levar medidas semelhantes ao resto do país, sobretudo nos 189 concelhos com freguesias onde o risco de incêndio florestal é maior.

O acordo para a concretização do programa Aldeia Segura e Pessoas Seguras é firmado, hoje em Ansião, entre a ANPC e as associações nacionais de Municípios Portugueses e de Freguesias. O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que ontem voltou a defender a importância da prevenção coletiva, acompanhará o simulacro do plano de evacuação da aldeia de Vale Florido.

Caberá aos municípios e às freguesias, de acordo com os critérios e a coordenação da ANPC, elaborar os planos de evacuação das aldeias e implementar as medidas de prevenção, nomeadamente a instalação dos refúgios coletivos e a sinalização dos caminhos de evacuação das aldeias. Cada aldeia terá um oficial de segurança. Um morador com capacidade de liderança que assumirá a missão de sensibilizar os vizinhos para se auto protegerem, transmitir alertas e organizar a evacuação de moradores e até da aldeia, caso seja necessário. A ANPC organizará o programa até ao final deste mês. As câmaras e as juntas de freguesias dinamizarão as medidas em maio.

Contactado pelo JN, Xavier Viegas saúda esta iniciativa “muito importante”, embora reconheça que o tempo é curto para o muito que há a fazer, e espera que o trabalho desenvolvido pela Associação de Vítimas dos Incêndios de Pedrógão seja integrado neste programa. O especialista, que estará presente na apresentação de hoje em Ansião, alerta para a necessidade da sinalização a instalar ser uniforme no país e de fácil reconhecimento, orientando, não só moradores, mas também quem está de passagem. Os visitantes portugueses e estrangeiros têm de perceber os sinais colocados, que devem conduzi-los também para os abrigos coletivos. “Todos os residentes, na medida do possível, devem ter condições de segurança nas suas casas”, atenta.

A figura do oficial de segurança é decisiva. “Nas aldeias não existem só pessoas idosas incapazes, há muitas pessoas válidas. Têm de ser líderes, dispostos a assumir responsabilidades”, por exemplo, em caso de incêndio, saberem quem precisa de ser retirado de casa, especifica. “Essas pessoas devem vestir um colete ou colocar uma braçadeira para serem facilmente identificadas pelos bombeiros”.

Os abrigos devem ser acessíveis e ter rádio

Os abrigos coletivos a criar nas aldeias devem ser espaços fechados, grandes, com tetos altos e localizados em zonas de fácil acesso. Xavier Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra e autor de um dos relatórios sobre o incêndio em Pedrógão Grande, lembra que estas instalações destinam-se a todas as pessoas (moradores e turistas) e, no limite, até aos bombeiros, caso necessitem de refúgio das chamas.

Tendo presente que estes espaços poderão ter de acolher idosos, pessoas com pouca mobilidade e feridos durante várias horas, Xavier Viegas sublinha que os abrigos deverão dispor de boas condições de conforto, de kits de primeiros socorros, de uma fonte autónoma de energia (para que não fiquem privados de luz, em situação de corte de energia) e de um rádio para garantir a manutenção das comunicações. Na aldeia tem de existir sinalização percetível a indicar o caminho até ao refúgio. Os moradores só devem fugir para o abrigo nas situações em que as casas não garantam a segurança.

O que dizem os relatórios

Mais educação

O relatório da Comunicação Técnica Independente (CTI) destaca que não há suficiente educação das populações sobre medidas a tomar para a sua proteção e dos seus bens. Mudar comportamentos de circulação, de autoproteção da integridade física e da segurança do edificado são três das áreas a trabalhar. Deve-se deixar de fomentar o mito do fogo posto e passar a contribuir para a prevenção dos comportamentos de risco.

Avisos à população

A CIT aconselha que os avisos em dias de elevado risco de incêndio sejam automáticos, envolvendo toda a comunicação social, devendo incluir a proibição de fazer fogo e outras atividades de risco.

Alertas por SMS

As operadoras, Proteção Civil e a Anacom já estão a desenvolver a possibilidade de haver alertas por SMS em situações graves.

Ficar nas habitações

Mais de metade das vítimas mortais dos incêndio Pedrógão perdeu a vida a fugir do fogo, enquanto muitas das habitações permaneceram intactas. Nas recomendações do relatório da equipa da Universidade de Coimbra, liderada por Xavier Viegas, os peritos dizem ter “reservas” quanto à retirada compulsiva das populações e defendem que os cidadãos que estejam aptos a defender as suas habitações, em princípio não as deverão abandonar.

Apoio à autoproteção

O mesmo documento defende que as comunidades dos espaços rurais devem ser dotadas de capacidade de resiliência, apoiando-se as medidas de organização e autodefesa. Na parte do socorro, é pedida uma melhor qualificação dos agentes de proteção civil para conferir aos cidadãos a segurança e confiança de que serão socorridos sempre por pessoas qualificadas e de máxima competência.

 

JN




Sobre quem enviou a noticia

Ana Romaneiro

Ana Romaneiro

Nasceu em Évora onde cresceu e estudou. Desde muito cedo que partilha o gosto pela informática, que, a levou a tirar um curso profissional técnico de Gestão de Sistemas Informáticos, profissão que exerce na atualidade. A sua ligação aos bombeiros surge aos 13 anos ao entrar na fanfarra dos Bombeiros de Évora, onde permaneceu até 2013. Na atualidade integra a corporação os Bombeiros de Reguengos de Monsaraz, no posto de bombeira de 2º.