Maioria dos bombeiros enfrenta incêndios sem equipamento de protecção adequado

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bombeiros1_incendio_d112594d1c8_400x225A aquisição de novos equipamentos, lançada através de concurso público no ano passado e este ano, não vai chegar a tempo da pior época dos fogos florestais.

A maioria dos bombeiros ainda vai enfrentar este ano as chamas sem o devido equipamento de protecção individual que os deve defender de eventuais queimaduras e cortes. Grande parte dos combatentes usa apenas uma farda, de algodão, e botas que não são resistentes ao fogo. Pode, por isso, repetir-se o cenário do ano passado, em que alguns bombeiros, que ficaram encurralados pelas chamas e acabaram por morrer, viram as botas que calçavam derreterem-se.

Na sequência deste episódio, a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) publicou, em Abril passado, uma nova norma que obriga ao uso de equipamentos de protecção individual de maior qualidade. As novas especificações determinam o uso de materiais muito menos inflamáveis e de botas mais resistentes. Mas este ano a maioria dos bombeiros portugueses ainda vai enfrentar as chamas com equipamentos que não cumprem as recentes exigências.

António Calinas, vice-presidente da Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários, descreve a actual situação da protecção individual dos bombeiros nacionais: “Falta de equipamentos de protecção dos bombeiros e falta de uniformidade e critérios [nos programas de aquisição de equipamentos].” Também Jaime Marta Soares, presidente da Liga de Bombeiros Portugueses (LBP), confirma que, em termos gerais, os bombeiros nacionais estão desprovidos de equipamentos de protecção individual certificados de acordo com as normas europeias e portuguesas. Marta Soares diz que esta situação se deve ao atraso nos concursos públicos lançados no ano passado pelas comunidades intermunicipais (CIM). Neste ponto, Jaime Marta Soares e o presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Viseu, Joaquim Marinho, adversário na corrida à presidência da liga, estão de acordo. Joaquim Marinho afirmou que os concursos lançados pelas CIM “não correram bem e estão muito atrasados”. O dirigente de Viseu explica que os equipamentos que os bombeiros têm adquirido não obedecem a “normas rigorosas e imperativas” e, como tal, “não protegem devidamente os bombeiros”. Testemunha disso mesmo é o comandante dos voluntários de Carregal do Sal, Miguel Ângelo, que perdeu no ano passado dois dos oito bombeiros mortos no combate aos fogos. Ao PÚBLICO explica que, geralmente, as fardas dos bombeiros são 100% algodão, “tal como qualquer roupa convencional”. Isso acontece, diz, porque até à data dos novos concursos públicos, lançados em 2013 e 2014, a aquisição de equipamentos “era deixada ao livre arbítrio de cada corporação”. Este ano, a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) decidiu intervir: publicou uma nova ficha técnica (a n.º 10) relativa aos equipamentos de protecção individual, com especificações mais precisas e exigentes sobre a qualidade do equipamento. Cabe agora à ANPC fiscalizar o cumprimento das novas regras. A par disso e face aos múltiplos problemas nos concursos promovidos pelas CIM, o Ministério da Administração Interna (MAI) decidiu centralizar na ANPC o segundo concurso público para aquisição de equipamentos.

Equipamentos do passado A ANPC admite as disparidades na qualidade dos equipamentos usados pelos bombeiros e justifica-as com o facto de as associações humanitárias de bombeiros voluntários e as câmaras municipais terem “autonomia jurídica e financeira que lhes permite adquirir o equipamento necessário aos seus corpos de bombeiros”. No entanto – refere a ANPC numa resposta enviada por email ao PÚBLICO –, com o desfecho da época de incêndios do ano passado foi “considerado imprescindível e assumido pela tutela política a necessidade de investimento na melhoria do equipamento de protecção individual adequado de combate aos incêndios florestais, carência notada em todos os corpos de bombeiros do país”.

A liga e a Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários (APBV) consideram a norma fundamental, mas atrasada. Neste Verão, os equipamentos da maioria dos bombeiros serão mais uma vez os do passado, não certificados de acordo com a nova norma e pouco protectores.

Um dos criadores de um inovador equipamento de protecção individual, João Sousa, explicou ao PÚBLICO que a maioria das fardas usadas pelos bombeiros custa cerca de 50 euros e são inflamáveis, pelo que os bombeiros não usufruem da devida protecção. A própria ANPC reconhece que “até muito recentemente os corpos de bombeiros não dispunham ainda de equipamentos de protecção individual para o combate aos incêndios florestais, sendo utilizada a farda de trabalho em tecido de algodão”.

Fonte: www.publico.pt

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Mónica Costa

Mónica Costa

É natural de Tabuaço, licenciada em Comunicação e Relações Económicas e Mestre em Marketing e Comunicação. Foi jornalista na Rádio F até 2013 e apesar de nunca ter estado diretamente ligada ao mundo dos bombeiros, acompanhou sempre com um enorme respeito e admiração o seu trabalho. Na atualidade integra a equipa da Direção informativa do portal bombeiros.pt.