Voluntariado! Onde está o caminho?

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Luís Andrade

Luís Andrade

Todos nós reconhecemos a importância que os corpos de bombeiros representam na nossa sociedade. Sobretudo nas localidades mais pequenas, mesmo aquelas que ficam fora das cidades, os bombeiros são a prova de que as pessoas têm tanta confiança que muitas vezes confundem mais o seu papel primordial de proteção civil, com o seu papel social e cultural.

Ninguém é bombeiro por acaso, sendo necessário ter vocação para fazer o bem, e ter consciência social e interesse pelos problemas da sociedade.

A história encarregou-se de consolidar esta imagem que, na minha opinião, não se dissipará, mas apresenta nos dias de hoje algumas fragilidades, face à existência de algumas condicionantes sociais atuais.

Atuando muitas vezes no controlo de inundações e resgate de vítimas de acidentes em lugares de difícil acesso, catástrofes, incêndios e assistência a doentes ou sinistrados, junto das pessoas, os bombeiros são heróis anônimos que arriscam as suas vidas para salvar o próximo. Eles são dignos de todo o respeito e admiração, sobretudo quando o fazem de forma altruísta e dedicada, sendo múltiplas as suas atribuições e responsabilidades.

Que os bombeiros salvam vidas, isso é indiscutível. Mas, onde anda a alegria dos bombeiros?

São muitos os bombeiros voluntários que têm vindo a emigrar à procura de trabalho, uma vez que não o conseguem na sua terra, outros que têm necessidade de recorrerem a “part-time” para complementar o rendimento, vendo-se impossibilitados de continuar a realizar voluntariado, e outros que por si mesmos, deixaram de se identificar com a própria estrutura organizacional, abandonando os corpos de bombeiros. Situações que fazem diminuir o número de elementos nos quadros dos corpos de bombeiros, perdendo-se não só bombeiros, mas também amigos, deixando o grupo mais pobre.

Por isso, quero refletir um pouco sobre a importância de alguns pressupostos que se devem colocar antes da criação de estratégias para a promoção do voluntariado, nos corpos de bombeiros:

  • O ato voluntário não é um querer imediato e irrefletido. Resulta de um momento de indecisão só ultrapassável depois de ponderar previamente face aquilo que se julga de mais acertado.

O agir não é um ato gratuito, uma vez que, com o querer, se atua voluntariamente, dando continuidade a si próprio e se escolhe o melhor tanto para si como para os outros.

Pode haver algo que nos motiva a fazer alguma tarefa, quando não temos de fazer nada, e que a única razão em especial é a própria satisfação em realizá-la.

Há uma tendência em se procurar desafios e vencê-los, à medida que perseguimos interesses pessoais e desenvolvemos capacidades e conhecimentos, sendo estes já compensadores por si mesmos.

A única maneira de se fazer voluntariado, num trabalho de excelência, é de acreditar naquilo que se faz. 

  • Por outro lado, a necessidade de se colocarem fatores motivacionais externos (materiais ou sociais), face à realização de uma determinada atividade, poderão vir a ser necessários a fim de compensar as ordens dadas ou as pressões existentes, ou para ainda demonstrar as competências ou valor.

Contudo, é importante não esquecer que os condicionamentos na continuidade dos fatores motivacionais externos poderão trazer os mais variados resultados, negativos ou positivos, numa sensação de injustiça ou iniquidade. Kohn refere que “quanto mais dinheiro estiver ligado ao desempenho, maior será o estrago feito”.

Assim sendo, cada instituição à sua maneira tem tentado resolver este problema, com a criação de projetos de incentivo ao voluntariado.

Na inversão desta tendência, surgem iniciativas de apoios sociais a cidadãos que já são voluntários ou venham a voluntariar-se, tais como, aumento das gratificações (monetárias), a redução das tarifas da água, apoios à mobilidade nos transportes públicos urbanos, reduções de taxas municipais, e benefícios na área da educação, como bolsas de estudo, apoios em material escolar e  acesso aos equipamentos desportivos e culturais com descontos significativos.

Também numa outra perspetiva, com o intuito de se angariarem voluntários a longo prazo, surge o investimento nas escolas de formação de infantes e cadetes. O facto é que, apesar destas não serem garantias para se atingir o principal objetivo da angariação de voluntários, estas desempenham um papel social importante na primeira sensibilização para o voluntariado, levando as crianças e jovens a aprender valores fundamentais, que sem dúvida os vão tornar cidadãos melhores.

Face ao risco da qualidade e da prontidão do socorro às populações vir a ficar comprometido, com a diminuição dos seus voluntários, é de louvar a iniciativa das instituições que têm vindo individualmente a procurar soluções. Mas, esta situação carece de uma visão mais concertada, numa estratégia global, em que se possam definir estratégias mais efetivas, transparentes em função daqueles que realmente são ou procuram ser voluntários.

Luís Miguel Afonso Andrade

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.