UMA VIDA POR UM FIO

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josé brásPor momentos, julguei viver numa “comédiolândia”. Por vezes, com laivos de tragicomédia. Literalmente! E nem sempre pelos melhores motivos! Uns, antecipam a sua chegada com o suspense mediático que lhes é peculiar e colam toda a gente ao ecrã; outros, utilizam o ecrã para a propaganda habitual, escolhida a “régua e esquadro” em timings pensados ao segundo.

Passo a explicar. Ricardo Araújo Pereira é um profeta dos nossos tempos. Propagandeou, com a mestria que lhe é conhecida, mais um programa de entretenimento, com direito a espaço em horário nobre num canal generalista. Esta forma de estar e de apresentar ao mundo uma nova premissa assenta nas raízes ancestrais do despudor político: sempre que existem novidades é agendada comunicação ao país com a pompa e circunstância exigida e merecida. Todos sabemos o que irá ser dito, com maior ou menor grau de falibilidade, mas todos temos a esperança num discurso promissor. O Ricardo fez isso mesmo! Preparou o terreno, dispôs as suas armas e foi à luta. Tudo, na verdade, será bem melhor do que “ir desta para melhor”.

A sociedade civil habituou-se a esta forma de estar na vida. Muita propaganda para reduzidos efeitos práticos. O que tem a vertente cómica a ver com os assuntos sérios da nação?

Com todo o respeito pelos comediantes desta praça, que trabalham a palavra como ninguém, alguns desses assuntos sérios são abordados por gente importante como piadas de mau gosto em qualquer sketch televisivo ou de um péssimo número de stand-upcomedy em dia de festa. Por vezes, esses assuntos sérios abordam questões relacionadas com os bombeiros, os operacionais que diariamente convivem com o “perigo nos calcanhares” e que nem sempre são respeitados como merecem.

Li recentemente, num semanário regional, que a pompa e circunstância tomou conta de mais um episódio panfletário relacionado com os novos rádios que utilizam o SIRESP.

Segundo o MAI, na cerimónia de entrega dos equipamentos, pretende-se dotar as forças e serviços de segurança, emergência, proteção civil e socorro de uma rede única de comunicações a nível nacional, no intuito de fornecer um sistema seguro, robusto e fiável. Na ótica dos bombeiros, estes equipamentos possuem constrangimentos graves que podem condicionar o socorro, podendo mesmo tornar-se ineficientes.

Afinal, quem tem razão? O erário público é esbanjado num sistema que pode condicionar e colocar em perigo a ação e a própria vida dos operacionais? Lamentável, a opção…

Li ainda que o MAI anunciou a atualização das comparticipações dos seguros dos bombeiros voluntários em caso de acidente ou morte. Afinal, quanto vale a vida de um operacional que salva tantas outras diariamente? Um rádio ineficiente, uma mera atualização dos seguros serão suficientes para agradar às “tropas baratas” deste país? Mais respeito exige-se, meus senhores!

Na verdade, o Ricardo tem razão: na vida, mesmo as pequenas migalhas são pão. Podem não ser suficientes mas alegram a vista e o coração. Afinal, tudo é “melhor do que falecer!”.

José Brás (Ex- Comandante, Professor)

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.