Um livro, um familiar e duas tardes intensas – “À Prova de Fogo”

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Sérgio ciprianoEsta crónica não será daquelas “bombásticas”, daquelas que toda a gente partilha e faz uso. Não o é sabem porquê?  Porque não procuro temas nem palavras para agradar, não tenho que dizer aquilo que os leitores querem ouvir, digo o que penso e o que me vai na alma, na esperança que as palavras despertem a mudança e que alterem comportamentos mesmo correndo o risco de ser prejudicado, pelo menos aos olhos dos supostos lesados…

Sim, foram duas tardes intensas, uma em que os sentimentos tomam conta de mim ao ler uma obra (de que vos vou falar) que todos deviam ler pelo menos uma vez, outra, em que um familiar (sem qualquer ligação aos bombeiros) traça-me o perfil dos elementos das corporações da sua região e transporta essa imagem para o país, deixa-me de boca aberta sem saber o que dizer, e sabem porquê? Porque ele tem alguma razão!

Ambas despertaram-me sentimentos de tristeza, a do livro com um final feliz graças a um ser divino e espirituoso mas que revela uma situação que podia ser real, a do familiar, sem fim à vista, mas que me fizera recordar que não são estes os bombeiros do tempo do meu pai.

Comecemos então pela opinião daquele meu familiar.
“…quem é que vai para bombeiro? Só os que não têm nada para fazer ou então por tradição familiar…” Sentindo um aperto a ouvir estas palavras, tentei referir que não podemos ver os bombeiros à imagem do seu distrito, que os bombeiros são muito mais do que aquilo que vemos no dia-a-dia. Mas, e convencê-lo disso? “… oh Sérgio, então mas eu não vejo, aquilo é só desempregados, gente sem qualificações, indisciplinados, que vão para ali para ganhar uns trocos porque não sabem fazer mais nada…” dando-me exemplos vivos e concretos das pessoas.

Confesso-vos que a opinião deste meu familiar deixou-me alguma tristeza, mas perante estes factos não existem argumentos possíveis, contradizê-lo poderia ser humilhante, mas ainda assim quis vincular que nos bombeiros há de tudo, como na polícia, no INEM ou em qualquer outra força, que também tem fragilidades, fraquezas e que se não fossem os voluntários a fazê-lo o país gastaria milhares de euros, que nos bombeiros também há gente com qualificações, temos médicos, engenheiros, enfermeiros… Não terá ficado muito convencido, pois no seu distrito, a imagem dos seus bombeiros é de facto deprimente. E não, não é no distrito da Guarda…

Apresar da agressividade direta das suas palavras (é a sua maneira de ser), não deixa de ter razão por muito que nos custe ouvir… todavia, não sei se pela forma como via as coisas na época, na altura do meu pai poucos eram os que não tinham uma ocupação principal, poucos eram os que entravam nas fileiras dos bombeiros sem que antes fosse feita uma “inspecção” à sua vida e ao seu comportamento na sociedade. E hoje? Como é que é feito o recrutamento dos bombeiros?

O livro “À prova de Fogo” é uma obra de Ana Alexandra Tomé, quem começar a ler, não quer parar sem ver o fim. Foi o que me aconteceu numa tarde de domingo, devorei o livro.
Sem entrar em grandes detalhes (comprem o livro para saber!), Ana Tomé retrata a vida de um casal, ambos bombeiros, que vivem juntos um verdadeiro inferno em chamas. Apesar do seu lado romanesco, o livro retrata uma história ficcional de uma jovem que vê o marido a ser engolido pelas chamas e ficar em coma profundo.

Ana Tomé, mesmo não sendo bombeira, consegue tocar no nosso lado mais frágil, que é colocar-nos na pele de quem assiste a um velório de um colega que tombou em combate. Estes e outros momentos do livro despertam-nos também para este lado triste dos bombeiros, que com o sacrifício da própria vida, lutam em prol do seu semelhante e tantas vezes sem equipamentos e o devido reconhecimento da nossa sociedade.

Se por um lado os bombeiros são os coitadinhos da sociedade, os desempregados, os sem formação académica, os que nada sabem fazer… por outro, são os que dão de comer a muitos que a sua custa vivem e que pouco fazem por eles… ah e ainda têm tempo para salvar vidas.

É por isso que, recomendo a leitura deste livro especialmente a todos os políticos, entidades ligadas ao sector, bombeiros e civis e quando falarem dos bombeiros ou tiverem de decidir o que é melhor para estes homens e mulheres, lembrem-se da lágrima que a leitura deste livro vos fez soltar…

Até breve,

Sérgio Cipriano
scipriano@bombeiros.pt

 

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.