Tudo ao molho e fé em Deus no processo de vacinação contra a COVID-19*

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Luís Andrade

Cerca de um ano após o início da pandemia COVID19 em Portugal, o processo de vacinação apresenta-se ainda com grande carência de vacinas e ainda com muitas questões para ser esclarecidas.

Apesar do aparecimento de novas variantes do coronavírus, é esperado que com o início da vacinação se consiga diminuir o número de casos ativos, pessoas internadas e mortes associadas pela COVID-19.

Mas, estas vacinas ainda estão envolvidas em processos complexos. Considerar-se-ia uma vacina ideal aquela que contivesse antígenos que fossem alvo do sistema imunitário, que produzissem uma imunidade protetora, que tivessem um bom nível de proteção sem a necessidade de uma dose de reforço, que fossem seguras, com baixo custo por dose, fáceis de transportar e administrar, estáveis biologicamente, com poucos ou nenhuns efeitos secundários e fáceis de produzir.

Em final de fevereiro de 2021, a Comissão Europeia tinha dado apenas três autorizações: à BioNTech e Pfizer (Tipo: mRNA, com 2 doses necessárias); à Moderna (Tipo: mRNA com 2 doses necessárias); e à AstraZeneca (Tipo: adenovírus, com 2 doses necessárias). Com produção em curso encontra-se a da CureVac (Tipo: mRNA, com 2 doses necessárias) e a da Sanofi-GSK (Tipo: proteínas, com 2 doses necessárias). Em fase de avaliação pela EMA encontra-se a da Johnson & Johnson/Janssen Pharmaceuticals (Tipo: adenovírus, com 1 dose necessária).

Espera-se por isso, que haja um aumento rápido na produção de vacinas contra a COVID-19, mas até lá, pelo número limitado de vacinas, é importante que sejam definidos quais os grupos mais prioritários, bem como a organização destes processos, em modelos de intervenção mais eficientes.

A Comissão Europeia definiu os grupos prioritários: trabalhadores de estabelecimentos de saúde e de cuidados prolongados (cujo estado de saúde se torne particularmente em risco), trabalhadores essenciais, pessoas que não se podem distanciar socialmente e grupos socioeconómicos mais desfavorecidos.

Portugal, indo ao encontro das indicações clínicas aprovadas para cada vacina na União Europeia, definiu nesta 1ª fase como grupos prioritários, os profissionais de saúde envolvidos na prestação de cuidados a doentes, profissionais das forças armadas, forças de segurança e serviços críticos, profissionais e residentes em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) e instituições similares, profissionais e utentes da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), pessoas de idade ≥50 anos (com pelo menos uma das seguintes patologias: insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal, DPOC ou doença respiratória crónica sob suporte ventilatório e/ou oxigenoterapia de longa duração) e pessoas com 80 ou mais anos de idade.

Contudo, surgem situações onde esta definição de critérios não ficou bem clara. O jornal Público (12/02/21) identifica que os critérios de chamada para vacinar têm-se revelado diferentes. Este no seu artigo, refere que a Direção-Geral da Saúde não especificou como deveria ser feita a seleção das pessoas a convocar em primeiro lugar, ficando esta decisão nas Administrações Regionais de Saúde e nos Agrupamentos de Saúde.

Também numa nova orientação, o novo coordenador da task force (Henrique Gouveia e Melo) veio redefinir e estabelecer novas prioridades (Expresso, 18/02/2021). É referido que o grosso das vacinas disponíveis será para ser administrado a dois grupos: pessoas com 80 ou mais anos e pessoas entre os 50 e os 79 anos com uma das quatro doenças de maior risco para a COVID19 (cardíaca, coronária, renal e respiratória grave). Se o objetivo é “salvar vidas”, criando maior resiliência às pessoas mais vulneráveis, na prática isto equivale também a retirar mais velocidade no ritmo na vacinação de profissionais dos serviços essenciais do Estado.

É certo que muitos especialistas, profissionais de saúde e não só, têm-se esforçado para contornar as dificuldades associadas ao processo de vacinação que vêm surgindo, adotando-se a procedimentos que consideram ser os mais justos e mais adequados.

Contudo, a avaliação para se definirem os grupos prioritários é complexa, exigindo uma abordagem multidisciplinar, e é imperativo que nesta definição, a sua organização seja colocada tanto a nível estratégico, tático, como operacional, com critérios que fiquem bem definidos.

No que diz respeito aos bombeiros, é afirmado e percebido que os bombeiros estão na primeira linha e por isso, na mesma consideração, deveriam estar na mesma prioridade de vacinação contra a COVID-19, pois é-lhes apontada a responsabilidade de 85%, da ajuda pré-hospitalar.

Os bombeiros são assim, no seu conjunto, um grupo de risco e por isso, é importante que os critérios que se estabeleçam possam ser claros, transparentes, éticos e científicos e ir ao encontro das necessidades deste grupo.

Há alguns dias atrás, dizia-me um colega bombeiro que a forma altruísta de estar na vida, leva-o a desconsiderar que possa não ser vacinado, mas saber que diariamente transporta pessoas idosas e não saber que possa estar contaminado, leva-o a que possa pôr em risco as pessoas que transporta, criando-lhe alguma angústia nestas situações. Dizia-me ainda, que muitas das pessoas que transporta, têm dificuldade de mobilidade, na qual a ajuda e o tempo de contacto com estas é bastante significativo.

Se por um lado, o risco do COVID-19 está indiscutivelmente associado ao fator idade, pelos valores estatísticos que nos têm sido apresentados publicamente, por outro lado, estes também devem ser equacionados numa outra forma de análise, como em relação ao risco associado aos grupos profissionais com determinadas funções.

Importa por isso perceber todo este contexto, para que os critérios estabelecidos relativos ao processo de vacinação possam ser definidos de uma forma mais adequada.

A definição destes critérios colocados a grupos, deverá levar-nos também para identificar critérios operacionais, onde este problema deva ser avaliado.

É indiscutível, que todas as pessoas presentes nos Corpos de Bombeiros são importantes. Mas, como em qualquer entidade que se coloque a esta recetividade para o processo de administração de vacinas, é importante diferenciá-la também por subgrupos. Ou seja, uma pessoa que esteja ligado à área de emergência pré-hospitalar e transporte de doentes, comporta uma taxa de risco diferente de uma outra pessoa que no seu papel tenha funções ligadas à área logística (administrativa, lavandaria ou outra).

Por isso, entendo que a avaliação para a administração de vacinas nos Corpos de Bombeiros deva ter em consideração critérios, tanto transinstitucionais, mas também institucionais. Consideram-se alguns fatores que poderiam ser contemplados para esta avaliação a nível institucional: a função que desempenha cada elemento, a frequência de contactos desses elementos, o tempo de exposição associados a estes contactos desses elementos, fatores individuais desses elementos (existência de patologias associadas, idade,…), entre outros.

Também entendo, que deveria existir um suporte documental referente a cada Corpo de Bombeiros (situação esta que poderia se generalizar para qualquer entidade), onde estivesse descrito a avaliação de riscos, tanto de grupo, subgrupos, como individuais, associados aos seus elementos. Esta seria uma forma de se contribuir para uma maior racionalização no processo de priorização de grupos para administração da vacina, tornando-o assim mais transparente e para que desta forma, se consiga chegar a um maior número de pessoas, com maiores necessidades.

É certo que daqui a algum tempo, o problema de limitação de vacinas não existirá, mas o importante é refletir-se no bem e mal que fizemos e no que poderíamos ter melhorado.

A mesma importância, coloca-se também à reflexão sobre a forma como nos responsabilizámos na atuação deste interesse público e qual foi o propósito a que nos colocámos em colaborar.

Luís Miguel Afonso Andrade

Bombeiro e Enfermeiro

 

*Título da responsabilidade da Redação.

About author

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).