NÃO DEVERÍAMOS TODOS “CHARLIEZAR”?

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josé brásEm Dezembro, “embandeirámos em arco” e fomos todos – ou quase todos – “Charlie”. O crime hediondo feriu a integridade de cada indivíduo, evidenciaram se as fragilidades do sistema e todos, em uníssono, proclamámos aos quatro ventos a nossa hostilidade aos que privilegiam assassinar a sangue frio, condenando à morte cidadãos e instituições. À euforia inicial, semelhante a erupção vulcânica, seguiram se tempos de amenidade que conduziram a um silêncio quase sepulcral. Até parece que “só nos lembramos de Santa Bárbara quando troveja”. Nada de novo, portanto!

Esta forma de estar do ser humano, só despertando para situações difíceis em momentos de crise, leva-nos a (re)pensar a nossa atitude perante temas do domínio cívico.
Os fogos florestais desde há muito que romperam com a tradição instituída de surgirem apenas em plena época estival. O fogo não se compadece com o ritmo do almanaque, muito menos com a calendarização estipulada anualmente no DECIF (o período compreendido entre 15 de maio a 15 de outubro, inclusive), momento em que as ECIN se encontram operacionais nos Corpos de Bombeiros. Habitualmente, as típicas “queimadas” do mundo rural ocorrem fora desta temporada, originando por vezes incêndios de grande envergadura.

Para os menos entendidos na matéria, relembro que a ANPC assegura, nesta época, uma significativa parte das despesas com recursos materiais e humanos, alimentação, combustíveis e salários perdidos.
Perguntarão, portanto, quem pagará as despesas fora desta época. Naturalmente, as Associações Humanitárias, detentoras dos Corpos de Bombeiros.

Mas estará tudo “tolo”, virado do avesso, ou será esta novamente uma das piadas do momento? Existirá alguém que possa, em pleno uso da suas faculdades, determinar que os incêndios florestais tenham época determinada, como quem liga e desliga um interruptor? Existirá alguém que possa mandar na casa dos outros, obrigando a suportar despesas não previstas por Associações carenciadas, com fracos recursos financeiros e cada vez mais endividadas? Estaremos nós a assistir a eventuais homicídios de instituições que trabalham diariamente para o bem comum?

Cada um com sua “quintinha”! Cada um “puxa a brasa à sua sardinha”! Há até já quem considere que os incêndios fora de época são “benéficos, caso ardam apenas matos e zonas de incultos, já que são preventivos contra os grandes fogos de verão, dado que os locais ficam limpos.” 1 Como se o fogo fosse seletivo! Enfim…!

Afinal, não somos todos “Charlie”? Ou andamos para aqui, como Frei Tomás, a apregoar uma coisa e a fazer outra?

Não deveria haver articulação entre todos, de modo a minimizar danos?
Não deveria a Administração Central redefinir os apoios a atribuir a cada Associação, em caso de incêndio florestal? A menos que a Administração Central suspeite que as Associações Humanitárias e seus Corpos de Bombeiros revelem interesses obscuros em assuntos do foro imobiliário…
Não deveriam os gabinetes de proteção civil agilizar procedimentos, em articulação com os CB´s, de modo a evitar “males maiores”? A menos que esses gabinetes não passem de meros espaços amorfos, sem vida, em lento martírio …

O “Charlie”, afinal, é sazonal! Nasce, vive enquanto dá jeito, agoniza, morre inevitavelmente, mas ressuscita cada vez que o espírito humano o insufla.

José Brás – professor; ex-comandante

1 http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=2332083&page=-1




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.