Ser Enfermeiro e Bombeiro

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Luís Andrade

Luís Andrade

Falar de ser enfermeiro e bombeiro é falar das actividades mais exigentes, perante a responsabilidade que lhes é colocada e pelas situações mais inesperadas.

Já são alguns os enfermeiros que são bombeiros e se dedicam à intervenção no âmbito da emergência pré-hospitalar mas, não tantos como se desejaria para atingir a excelência da qualidade face a este tipo de intervenção.

Certo, é que o trabalho de emergência pré-hospitalar envolve grande responsabilidade pela protecção de vidas em condições de emergência adversas. Mas, não é só um trabalho que exige a realização de tarefas perigosas, é também a necessidade de cumprimento dos procedimentos operacionais.

Em cenários de emergência que nem sempre se adaptam a um padrão, os enfermeiros são uma mais-valia pelas competências específicas que possuem, face à sua preparação académica. É uma garantia na qualidade dos serviços prestados.

A formação adquirida no curso de enfermagem é específica e que complementada permite desenvolver competências técnicas e pessoais na prestação de cuidados na área do pré-hospitalar.

Por outro lado, paradoxalmente existe a confrontação com a emigração de enfermeiros, uma vez que estes não conseguem trabalho no seu próprio país. Deve-se colocar assim, a necessidade de reavaliação das políticas organizacionais, face às oportunidades criadas pela oferta de recursos humanos. Segundo o conselho directivo da Ordem dos Enfermeiros (in Público, 2014) estima-se que sejam formados nas universidades portuguesas públicas e privadas cerca de 3000 a 3500 enfermeiros por ano, e que o equivalente a um terço deste número emigra, segundo os pedidos recebidos pela ordem para reconhecimento das suas qualificações, um requisito essencial no processo. No inquérito aplicado é referido pela maioria que a grande motivação para sair é a falta de emprego associada à ausência de perspectivas de progressão da carreira/desenvolvimento profissional contínuo.
Urge assim a necessidade de se recriar um modelo de intervenção pré-hospitalar, definir estratégias e aproveitar esses mesmos recursos.

Numa proposta sobre o Modelo Integrado de Emergência Pré-Hospitalar, a Ordem dos Enfermeiros (2012), descreve num documento que a resposta actual no contexto pré-hospitalar, associado às novas exigências do cidadão, assim como o enquadramento socioprofissional no sector da saúde, leva à identificação de factores que justificam a apresentação de uma proposta nesta área. Esta refere que todos os meios de intervenção em contexto pré-hospitalar devem ser assegurados com recurso a profissionais de saúde, nomeadamente médicos e enfermeiros.

Com algumas provas de eficiência já adquiridas, em entrevista com o coordenador de enfermagem da linha de emergência do Centro de Operações de Emergência do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores (2015) é a triagem telefónica de Manchester, em que com entrada em funcionamento diminuíram-se as falsas prioridades, evitando assim o envio de meios desnecessários para o local. É determinado que em função da categorização da prioridade das chamadas recebidas sejam deslocados para o local, viatura SIV (Suporte Intermédio de Vida) / Ambulância, contrariamente aos casos menos urgentes, em que é disponibilizado apenas um aconselhamento, ou orientação para acompanhamento médico, na qual os enfermeiros marcam directamente as consultas nos centros de saúde.

Também, o secretário de Estado Adjunto da Saúde (in Público, 2014) faz referência a um processo de carácter normativo que determina que a coordenação das Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER), em resposta SAV (Suporte Avançado de Vida) passe a ser feita de forma integrada com a direcção da urgência, estando na dependência directa do director clínico do hospital, garantindo assim a operacionalidade destas quando necessárias.

Independente das estratégias que vierem a ser redefinidas, certo é que estas deverão colocar os serviços de saúde acessíveis a todos os cidadãos, por forma a prestar, em tempo útil, os cuidados técnicos e científicos que assegurem a melhoria da condição do doente e seu restabelecimento, assim como o acompanhamento digno e humano.

Em relação às boas práticas de gestão é importante valorizar o que é, o bom trabalho e anular os maus procedimentos, colocando como evidente que não se deve confundir Serviços Públicos com Empresas e reconhecer que o serviço público deve ser um motivo de honra e não um custo social. Desta forma, torna-se necessário assumirem-se medidas restauradoras das continuidades das boas práticas, de reconhecimento de quem presta cuidados, motivando-os, quebrando apenas os ciclos viciosos e evitar as desigualdades.

Perante a tentativa de se cumprir com o ideal, a enfermagem define-se como uma profissão com a sua autonomia, responsabilidade e competência que presta cuidados de saúde globais, e que assenta numa abordagem multidisciplinar, na articulação, complementaridade, co-responsabilidade e respeito pelos limites das competências de outras classes profissionais, devendo esta ser alvo de recurso.

Por outro lado, coloca-se a pertinência de que todas as pessoas deveriam ter formação básica em socorrismo, pelo facto de determinados procedimentos terem de ser aplicados de forma imediata. Como já acontece em alguns países, como por exemplo na Alemanha, esta é uma condição necessária para a licença de condução de veículos. Perante esta situação de colaboração social, também os enfermeiros bombeiros têm ido ao encontro disto e desenvolvido acções de sensibilização/formação em escolas, associações, empresas, entre outras demais entidades, levando o lema de que um gesto pode salvar uma vida. De forma similar, salienta-se os enfermeiros das unidades de socorro da Cruz Vermelha Portuguesa.

O ser-se enfermeiro e bombeiro é mais do que correr riscos calculados, contornar as barreiras ambientais, salvar vidas, lidar com o nascimento e a morte, prestar cuidados a pessoas de doença súbita e/ou acidentes, gerir as emoções dos utentes, familiares e equipa, é sobretudo ir ao encontro das necessidades das pessoas, todavia, importa ainda reflectir mais sobre estas situações, para garantia da qualidade dos cuidados a prestar.

Luís Miguel Afonso Andrade

 

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.