Senhor Presidente da República, já posso falar? …é que se não arrebento!

Director de informação do portal Bombeiros.pt

De forma muito objetiva e sucinta quero aqui depositar a minha opinião sobre o que nos últimos tempos tem sido foco na imprensa nacional e internacional:

1. O acidente trágico que vitimou até agora 64 pessoas e feriu outros 254 em Pedrógão Grande, pode transformar-se numa janela de oportunidade para mudar a forma como vemos a proteção civil local, regional e nacional. É importante para todos percebermos o que está na origem dos acidentes, obter o maior numero de dados para que com os erros possamos aprender.

2. Ao longo dos anos, não temos sabido aprender com os erros que cometemos, por um lado, pela ocultação dos resultados dos relatórios aos acidentes, por outro, pelo desinteresse que os bombeiros têm em perceber os fenómenos ocorridos. Dizem eles que os relatórios não são divulgados para proteção das vitimas, TRETAS!

3. Deixa-me estupefacto, haver hoje mais equipamento de proteção, mais formação e mais tecnologia (pelo menos é o que nos vendem), mas, a verdade é que o numero de bombeiros mortos na ultima década foi assustador! Os implicados, coloquem a mão na consciência, todos sois culpados!

4. Considero que ir para um teatro de operações sem ser conhecedor das condições meteorológicas, é como dar um tiro no escuro. Uma boa avaliação primária da ocorrência pode ajudar a prever e a antecipar muita coisa, porem, julgo que o foco do primeiro COS tem sido o de combater logo o incêndio, ESTÁ ERRADO! Está provado que é nas primeiras horas dos incêndios que ocorrem mais acidentes, e, não tenho a menor dúvida, fruto de uma má avaliação!

5. Assisti ao longo dos últimos dias a presidentes de câmara (responsáveis máximos pela proteção civil municipal), a lamentarem-se da falta de apoio: médico, logístico e técnico… que diabo, o que é que falhou no plano municipal? Terão os senhores presidentes feito o que estava ao seu alcance? Atrevo-me categoricamente a dizer que não, não fizeram, basta olhar para as bermas das estradas municipais espalhadas por este país fora e em particular os concelhos das zonas afetadas para tirarmos as nossas conclusões. Para esta gente a proteção civil é um adorno, até porque as desgraças só acontecem aos outros!

6. Julgo que há uma reflexão que todos, mas mesmo todos devemos fazer, o que mudou de há vinte anos a esta parte na proteção civil? Muita coisa dir-me-ão… é verdade, muita coisa mudou, mas para pior, porque só assim se justifica as trapalhadas que se vivem nos teatros de operações. Colunas vindas de outras paragens horas a fio à espera de missão, sem comer, para a seguir darem o corpo ao manifesto em sobe monte, desce monte. O bombeiro hoje é tratado como um técnico amador, não pode usar o ataque indirecto porque há uns meninos que se acham superiores só por terem um pinga lume, paga o justo pelo pecador, bem sei que haviam abusos, mas, o impedir que os bombeiros o possam fazer é pior a emenda que o soneto.

7. Nos incêndios de grandes dimensões, como os registados nos últimos dias, tenho dúvidas que um só posto de comando tenha a capacidade de gerir as operações, julgo que, nestes casos muito específicos, os postos de comando devem ser repartidos, no sentido de melhor gerir as operações e serem criadas autonomias capazes de dar uma melhor resposta aos sectores, tendo porem áreas comuns, como a zonas de concentração e reserva e logística. Faz sentido? Não sei, o que está implementado na atualidade é que não funciona!

8. Não vale a pena atirarem-nos “areia para os olhos”, sim, muita coisa falhou, comunicações, comandamento, planeamento e estratégia. O teatro de operações tinha um COS, é por esse COS que tudo tem que passar, lembra-se do SIOPS senhor primeiro ministro, veja lá a quem é que tem que perguntar se a estrada foi cortada ou não!

Ficar calado é compactuar com o sistema! “Senhor presidente da Republica já posso falar? …é que se não arrebento!

 

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.