Portugal arde!

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Alexandre Borges

Portugal arde. Portugal arde em condições meteorológicas tão extremas que nem os que arduamente lutam contra o fogo conseguem grande coisa. A situação é tal forma dantesca que não é humano combater estes monstros. Ainda assim há quem tente, arrisque a vida, se esforce para trazer conforto aos que sofrem. Ainda assim há quem o consiga.

Há demasiados anos que ouço dizer que é preciso investir em prevenção. Certo. Quem não concorda?

Há demasiado anos que digo e acho que é preciso investir numa estrutura profissional de combate – e de socorro pré-hospitalar em todo o país, já agora- que dê uma resposta rápida e profissional, com condições que as exigências actuais evidenciam, às solicitações cada vez mais frequentes.

Vejo pessoas a pedir bombeiros, bombeiros que não existem para tanta solicitação. Bombeiros que fazem dessa actividade um hobby e que fazem verdadeiros milagres.

Quem tem os pés assentes na terra sabe que com as alterações climáticas e com a floresta que temos não é possível não ter incêndios problemáticos.
Há demasiado tempo que ouço pessoas a dizer que a culpa é do governo, do presidente da câmara, do presidente da junta e nunca assumir as suas próprias culpas.

Há demasiado tempo que vejo culpar o vizinho, o cão, o gato, os bombeiros ,mas não vejo ninguém a assumir a sua culpa individual. E não falo das limpezas à volta da casa, da empresa, da mata.

Vejo cada vez menos gente a inscrever-se em bombeiro, a tornar-se sócio das Associações de Bombeiros.

E não vejo quase ninguém a exigir a quem governa, localmente ou
centralmente, nas câmaras ou no governo, que gaste mais do nosso dinheiro em Protecção Civil, em prevenção, a exigir a profissionalização dos Bombeiros, a exigir mais recursos. Não vejo ninguém a ser mais exigente com e para os nossos Bombeiros e com a Protecção Civil. Vejo poucas pessoas verdadeiramente preocupadas com a forma como é gasto o nosso dinheiro.

Vejo poucas pessoas a criticarem o facto de muitos orçamentos municipais terem muito mais dinheiro atribuído a clubes de futebol locais, que o gastam para pagar a jogadores nacionais e estrangeiros, nem sequer é para formarem miúdos, para termos jogos às moscas, do que para prevenção e combate a incêndios florestais.

Vejo poucas pessoas a criticarem o facto de se gastarem milhares e milhares de euros em “Tonys Carreiras”, “Diabos na Cruz”, Feiras e Mercados, tendas e tendinhas, do que a evitar o que todos os anos sabemos pode acontecer.
Não vejo ninguém a criticar os rios de dinheiro que se gastam em segurança pública para proteger broncos de claques de futebol ou para celebrar “aparições divinas” na Cova da Iria, que nem servem pelos vistos para comprar as boas graças dos “todos poderosos”.

Vejo poucas pessoas a insurgirem-se com o facto de se darem apoios pornográficos a empresas privadas, alguns ilegais, em vez de se criarem sapadores florestais, de se darem apoios para plantar espécies adequadas ao nosso clima e solo.

Vejo quase todos a validar escolhas, legitimas diga-se, a votar em quem sistematicamente prefere e propõe estas coisas e depois achar que a responsabilidade não é sua. Mas é! A culpa é nossa porque as prioridades que temos enquanto sociedade somos nós que as definimos enquanto povo. Quando passarmos a ser mais exigentes com a forma como gastamos o nosso dinheiro as coisas seguramente melhorarão. Quando deixarmos de desculpa corrupções, aldrabices, “Sócrates” e “Isaltinos”, as coisas vão melhorar.

Um autarca que, antes desta tragédia, propusesse cortar no dinheiro do futebol, por exemplo, e dá-lo aos Bombeiros, seguramente que seria alvo de fúria pública. Por essa razão é que as prioridades são, o que são. Porque nós, enquanto sociedade assim o desejamos. Não culpem, portanto, só o autarca ou o governo, culpem o vosso querido e precioso umbigo.

Quando passarmos a olhar para as diversas eleições como adultos responsáveis (é por isso que só se vota aos 18 anos), a exigir a quem se candidata que apresente as prioridades que depois nos queixamos hipocritamente de não existirem, teremos seguramente um melhor sistema de protecção civil e estaremos todos muito melhores protegidos e seguros.

Que tudo possa correr pelo melhor a todos dentro da tragédia que vivemos e força a todos os que lutam.

Alexandre Borges

Bombeiro

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Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011.
A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).