Pequena carta à mãe de um bombeiro

0

Mãe, querida Mãe,

Escrevo-te com a certeza de que me não lerás, pelo menos até te terem chamado a atenção para este algo que sabes que por vezes acontece.

Sim, Mãe, escrevo-te, como tantos outros poderiam escrever às suas próprias mães.

Sim, Mãe, escrevo-te na minha pele de bombeiro, naquela pele que tantas e tantas vezes desejaste que não tivéssemos conhecido nunca.

Sim, Mãe, escrevo-te mais cedo do que é normal, pois o fumo ainda não está continuamente no ar e as televisões ainda descansam ao som de alegres festas populares.

Enfim, Mãe, apeteceu-me escrever-te, do meio destes tempos negros e ingratos que a vida por vezes me traz, para te dizer que SIM. Sim, Mãe, eu olho para trás e, sim, escondo-me todo para enganar a tua preocupação.

Cada vez que saio a correr, com a humanidade a encher-me os olhos, espreito sobre o ombro e vejo-te, quase ausente do mundo, a respirar a descompasso. Vejo-te e os teus olhos estão cheios de rápidas melhoras e de terríveis pensamentos. Espreito-te e os teus olhos dizem que não vá, que não ouse desafiar as leis da física, as probabilidades e a própria vida.

Com aquele mover de olhos intenso e preocupado, que o tempo amadureceu depressa demais, perguntas onde falhaste ao avisar-me dos perigos e culpas-te pelas escolhas que fiz. Não, Mãe, não falhaste em nada. Não, Mãe, não tens culpa de nada. Não, Mãe, o teu exemplo dá esperança ao mundo e os dias fazem sentido porque tu lhe dás continuamente corda.

Mãe, eu olho para trás e penso em ti. Não há passo que dê que não esteja aquele teu olhar ao meu lado, recomendando calma ou dando força. Quando tudo parece estar perdido, ali estás tu a aguentar-me inteiro e íntegro no estender de mão ao meu semelhante. Ali estás tu a ver-me correr e a pensar que não olho para trás, que não penso em ti, que nada mais interessa do que os outros, …

Quando o nosso Verão recomeçar, com o abraço entre gente simples a percorrer o asfalto, enquanto nas televisões se dá voz aos gritos de dor e de revolta, lembra-te que eu olho sempre para trás… para o sítio onde deixo o coração.

Até breve, Mãe!

Daniel António Neto Rocha

Moimenta da Serra, 17 de Março de 2017

About author

Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda, mas foi em Famalicão da Serra que cresceu e conheceu o mundo dos bombeiros integrando o corpo activo. É Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e possui um Curso de Especialização em Ensino de Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades, entre as quais o teatro e a escrita, tendo publicado com alguma regularidade desde 2011.
A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).