Os Bombeiros não são “carne para canhão”

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Rafael Almeida

Entrei nos bombeiros no início dos anos 90, numa altura em que o associativismo e o corporativismo estavam muito em voga nas inúmeras comunidades de pequena e média dimensão. Basta recuar alguns anos para se constatar que as associações humanitárias de bombeiros e as suas sedes eram pilares estruturais no convívio social bem como núcleos de estratégia e influência política, a par de toda uma sociedade criada em estruturas político-partidárias com uma clivagem significativa.

Os “quartéis de bombeiros”, conjuntamente com outras instituições de bases democráticas ainda assentes nos velhos hábitos que a revolução não conseguiu mudar, pouco ou nada se alteraram e funcionavam, no final do anterior milénio, como uma espécie de “rede social”, tentacular, onde prevaleciam tertúlias intelectuais sob capa de um baralho de cartas ou dominó, servindo de barómetro político e rotulando-se em subdivisões as categorias e ideologias dos vários pensadores estratigráficos, conforme as defesas ocupadas nas discussões sobre os domínios públicos dos vários organismos. Se por um lado tínhamos as associações a funcionar dessa forma, no seio dos corpos de bombeiros constituía-se um quadro activo e um quadro auxiliar, um punhado de homens duros, rudes e com uma vontade de provar um machismo um tanto ou quanto tão corajoso como exacerbado e que faziam um compósito antagónico à interessante “luta de classes” supra. No entanto, estes valentes que possuíam um tanto de “guerrilheiro urbano” como de responsabilidade social, humanitária e comunitária, com uma entrega totalmente altruísta e abnegada que chegava a rivalizar pela competência e pela bravura, eram uma imagem perfeita do desinteresse pela origem e extrato do seu semelhante, agindo e tratando o “todos” como um deles, democratizando sempre pelas decisões a assumir mesmo que o fervoroso debate parecesse o contrário. Infelizmente, destes que tive um enorme privilégio de acompanhar e também crescer conjuntamente, a grande parte das vezes, foram tratados com uma enorme desconsideração global, fruto também do parco acompanhamento das novas metodologias técnicas e científicas que reformavam os encaixes destes corpos de “bombeiros”, relegando-os para segundo plano e com pouca esperança no possível acompanhamento de uma nova geração. “Os miúdos”, acabados de chegar e que por menos amplitude física e máscula tiveram que fazer um jogo de cintura para aglutinar as novas componentes pedagógicas – fórmula arquimética encontrada para que pudessem sobressair e sentir evoluídos -, são os agora portadores da mensagem recebida e lutam, também, no gigante desígnio de receber o tão aclamado mérito e que ainda hoje é tão amplamente reclamado, que é somente um verdadeiro e justo reconhecimento do serviço que os bombeiros prestam às suas comunidades. Esta geração mais científica trouxe, de facto, uma nova forma da pirâmide social ver os bombeiros, num contexto de maior confiança e credibilidade, estando hoje, embora a passos muito pequeninos, a tornar-se numa força de confiança da sociedade, mas ainda extraordinariamente “atrasados” naquilo que somos para aquilo que queremos ser. Menosprezar o passado é descurar o futuro e é por isso que invoco imenso os homens que, mesmo sem o privilégio tecnológico que hoje temos, fizeram feitos extraordinários, munidos com simples ferramentas arcaicas, algodão nas fardas, lenço tabaqueiro na cara e que com uma alma de aço forjaram a imagem do Bombeiro Português, único ou dos poucos no mundo que ainda mantém uma pluridisciplinaridade, comprovadamente errática. Porém, os novos mundos, são ávidos de um peculiar introvertismo ligado por correntes frenéticas ao alcance de um dedo, sem o saboroso prazer da busca pelo contacto, que acabou transformando a sociedade em recheios de fake-news e em conhecimentos fúteis.

Todos hoje se acham plenos de direitos, regalias e mordomias e, muito poucos, direi até que apenas uma ínfima parte do percentual, saberá quais os seus deveres e as suas obrigações. As sociedades foram construídas por gigantes pensadores que, desde a antiga Grécia até às políticas actuais de extremados e moderados, previam um modelo assente na estruturação social, no apoio e sustentabilidade da segurança e na entrega garantida ao seu povo de segurança, saúde e justiça. Dito tudo isto e muito haverá e haveria para discutir, continuo a firmar, convictamente, que somos ridículos na sustentabilidade financeira das associações e corpos de bombeiros. A “subsídio dependência” e a “dependência tóxica” do SNS para a sobrevivência só poderá levar a um estado destrutivo: a “ressaca” por carência e consequente ruína do sistema comunitário.

Os Bombeiros não podem ser dependentes do associativismo social. Os bombeiros não podem depender da “debilidade da saúde dos cidadãos”. Os bombeiros não podem ser treinados para realizarem funções distintas num único espaço temporal. Os bombeiros não podem ser tratados como uma força iliterata. Os bombeiros não são a “carne para canhão” que já foram. Os bombeiros não podem depender das “boas e poucas vontades” de uma sociedade que se julga salva por alguém que tem essa obrigação. Os bombeiros não podem andar a “pedir de porta em porta” dinheiro e pessoas para pagar o salvamento a pessoas. Os bombeiros não podem ser vistos como um movimento político, aristocrático, oposição ou oportunismo. Os bombeiros não são servos comunitários enquanto a sociedade não lhes devolver a dignidade que eles merecem. Os bombeiros têm obrigações iguais às de qualquer cidadão. Os tempos mudaram, os bombeiros mudaram, os pensamentos mudaram, as rotinas mudaram, a legislação mudou, a tecnologia e a ciência mudaram. Tudo mudou! Afinal o que falta para que o sistema mude? Afinal, mudar é o único e verdadeiro reconhecimento que se pode dar a quem muito lutou por o ter.

 

Rafael Almeida
(Título da responsabilidade da redação do Portal Bombeiros.pt)

About author

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).