“…na verdade, não estamos preparados para coisa nenhuma.”

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Sérgio Cipriano

No seguimento da minha última crónica [Ver aqui], onde abordei o tema dos acidentes que ocorreram este verão no combate aos incêndios florestais, vou hoje de forma superficial dado à complexidade do tema, tentar expressar a minha modesta opinião sobre esta problemática.

O meu interesse pelos acidentes mortais com bombeiros teve início em 2005, ano em que, durante uma viagem de trabalho a Marrocos, sou surpreendido pela TSF que dava conta da morte de 4 bombeiros Sapadores num incêndio florestal em Mortágua, no distrito de Viseu.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi: “…como é que é possível morrerem bombeiros num incêndio florestal em pleno Inverno?” Estávamos a falar do dia 28 de Fevereiro de 2005, um dia soalheiro, com vento e muito frio. Mas, outras interrogações se levantaram, “…como é que estes homens preparados fisicamente e com formação adequada ao exercício da sua função, são surpreendidos por um efeito chaminé?” depois, “…como é que morrem 4 bombeiros e um dos elementos da equipa sai ileso do acidente?”

Desde então, o meu interesse por este assunto nunca mais parou, tenho acompanhado de perto e tentado perceber o que está na origem destes acidentes. Aprendi que existem fatores (não só os da natureza) que afetam o comportamento do fogo, tantas vezes ignorados por quem o combate. De uma ver por todas, não podemos culpar o destino por estas mortes, existem fatores conhecidos pela comunidade científica que não estão a ser equacionados e que originam sem sombra de dúvida, a morte de bombeiros em Portugal.

Nos últimos 13 anos (entre 2000 e 2013) morreram em Portugal 39 bombeiros no combate aos incêndios florestais, a causa de alguns acidentes (infelizmente!) ainda se encontra por apurar, no entanto, sabe-se que, uma grande parte teve origem no comportamento eruptivo do fogo, sendo este, o maior inimigo dos soldados da paz. Dos 39 bombeiros que perderam a vida, 22 eram jovens na faixa etária dos 18 e 25 anos, todos bombeiros de 3ª. e alguns acabadinhos de fazer escola teórica/prática e colocados na linha da frente, há quem diga “…como meros piões num tabuleiro de xadrez.”
Este ano, há a lamentar mais 8 mortes com origem no mesmo fenómeno eruptivo, no entanto, o balanço final podia ter sido mais desastroso face aos mais de 50 bombeiros que ficaram feridos de norte a sul do país.

Tenho comentado com os que me são mais próximos que estas mortes são a prova (fora de tempo) de que as coisas não estão bem no nosso sector, e digo fora de tempo, porque continuo sem perceber como é que ainda não morreram mais bombeiros em Portugal tendo em conta factores, como: a inexperiência das pessoas na frente do fogo, a formação certificada quase inexistente, o desconhecimento dos fenómenos meteorológicos/efeitos-chaminé, a quantidade enorme de horas que passam sem descansar/comer, a robustez física dos elementos de combate, os veículos a cair de podre (em alguns casos com mais de 30 anos), a falta de comandamento nos teatros de operações, a falta de tecnologia adequada à gestão de meios e por ultimo, não menos importante, o equipamento de proteção individual deficiente.

Existe ainda um excesso de confiança por parte dos combatentes, e o facto do uso do fogo (ataque indireto) estar condicionado, leva os combatentes a ficarem mais expostos aos perigos eminentes dos incêndios. É preciso aprender a dizer NÃO quando determinados factores (meteorológicos, orográficos, falta de equipamento adequado, etc..) condicionarem a nossa missão, por outro lado, é preciso saber e estar atento a esses fatores para que efectivamente possamos evitar acidentes no futuro.

É preciso ter a coragem de falar abertamente sobre estes acidentes como forma de aprendizagem, é preciso ter a coragem de assumir os nossos erros, é preciso ter a coragem de dizer que o caminho está errado e que ainda há muito para fazer, é importante assumirmos que quem mais tempo passa no combate a incêndios (bombeiros) tem o pior equipamento de proteção individual, é fundamental que a formação certificada chegue a todos os bombeiros do país, etc., etc.

Era isto que eu esperava ouvir dos responsáveis pelo setor dos bombeiros e da protecção civil, e quero crer, que é isto que a generalidade os bombeiros do país estavam à espera de ouvir, ao invés de atribuirmos culpas ao destino, ou pior ainda, dizer que estamos preparados, mas na verdade, não estamos preparados para coisa nenhuma.

Até à próxima,

Sérgio Cipriano

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Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.