MAIS DO MESMO…

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josé brásTreinadores de bancada seremos todos nós! Cada um à sua maneira, é certo, mas não resistimos a subscrever opiniões de outros ou a fundamentar juízos de valor da nossa lavra. À falta de campeonato, resta-nos a pré-época, a política e os fogos. Todos os anos, a cena se repete: as táticas que não “materializam”, os discursos retóricos que enfartam e a maldição pírica sazonal que transforma todos os verões em permanentes “Ai, Jesus!”.

Estes sucessivos “suspiros da alma” que se soltam em jeito de desabafo possuem um traço comum: a coragem ou, em alguns casos, a falta dela! Não daqueles que os proferem, porque esses, com maior ou menor discernimento, até vão acertando nos seus prognósticos porque conhecem as realidades locais e nacionais. Refiro-me aos outros, aos que detêm posições de liderança, que por impreparação, falta de jeito ou imaturidade lhes falta a coragem para assumir erros repetidamente gerados ano após ano.

Não me quero alongar no capítulo futebolístico, terreno farto em novelas que fazem vender jornais. Muito menos em solos politiqueiros, onde a mentira passou a designar-se “inverdade” e a palavra do homem, a promessa, se esfumaça cada vez que o vento sopra. Prefiro antes falar sobre a coragem dos homens e mulheres que combatem diariamente as chamas neste País, que se esforçam por salvar vidas e bens. Todas as homenagens serão poucas se atendermos à bravura daqueles que enfrentam o perigo, até mesmo a morte, em benefício das populações.

Continuo a não entender como se pode e consegue maltratar, ano após ano, um conjunto significativo de homens e mulheres devidamente formados para enfrentar situações de risco. Quem serão os responsáveis por tamanha façanha? A culpa, tendencialmente, tem vindo a morrer solteira.

Lembro que há um ano atrás, aquando do violento incêndio na região algarvia e após a poeira mediática ter assentado, foi pedido um exaustivo relatório aos acontecimentos, elaborado por especialistas na matéria. Li o documento e, por entre culpas repartidas por todos os agentes envolvidos na proteção civil, fazem-se recomendações pertinentes e que deviam ter sido levadas em conta. Tal documento deveria ter sido objeto de análise, uma interessante ferramenta de trabalho para evitar males maiores num futuro próximo.

Pelos vistos, novamente “a montanha pariu um rato”. Há cerca de um mês, assistimos a um “mega incêndio” em terras transmontanas, que mobilizou centenas de homens e meios, uma logística pesada e de custos avultados. Um rodopio de gente e máquinas que há muito não se via naquelas paragens. Rostos inundados de esforço, dor e cansaço à mistura com semblantes carregados de desespero, fúria e impotência perante um inferno que levou consigo anos de trabalho e dedicação. Pergunto se nada poderia ter sido evitado. Pergunto se não se deveria ter aprendido com os erros passados, colmatando brechas existentes no sistema.

Para que interessa um acervo legislativo que obriga a medidas preventivas, de modo a evitar catástrofes, se essas medidas não são aplicadas no terreno? Por que se gastam milhares de euros no combate a incêndios, quando já todos entendemos que a prevenção é essencial à produtividade do País? Por que se permitem ainda perdas de vidas humanas num combate desigual, ano após ano? Quem falha em todo este processo? Por quantos anos mais vamos assistir à impunidade dos que permitem que “o mesmo filme” se repita ano após ano?

A resposta parece residir nas palavras proferidas por Nelson Mandela – “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. Não apenas a educação recebida nos bancos da escola, mas sobretudo a educação perante os outros, aquela que reside em valores civilizacionais e que faz apelo ao respeito pela comunidade.

A ousadia de muitos colide frontalmente com a falta de coragem de outros que deveriam colocar, na linha da frente, a defesa dos seus concidadãos. Ao que parece, a educação pelos valores foi colhida de morte por alguns sectores da sociedade que favorecem o conforto individual e menosprezam o bem comum.

José Brás

Ex-Comandante; Professor

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Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.