HISTÓRIA DOS BOMBEIROS

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Falar da história dos bombeiros é uma forma de compreender o mundo em que vivemos. É bom conhecê-la, para que os bombeiros de amanhã possam escolher o melhor percurso com algum conhecimento de causa e se possível, consigam evitar os erros que no passado se cometeram.

A humanidade ao longo do tempo foi enfrentando muitos problemas, principalmente no combate aos grandes incêndios. Estes, quando ocorriam tornavam-se devastadores, pois muitos não podiam ser controlados, destruindo tudo o que encontravam pela frente.

O homem pré-histórico pôde observar que a água da chuva ao cair, apagava o fogo causado naquele tempo, por raios ou vulcões. Assim, ao longo dos séculos e em todo o mundo, a água sempre foi o principal meio de extinção de incêndios.

Apesar dos muitos esforços feitos pelo homem à procura de um substituto é interessante notar como a água tem mantido a sua supremacia como agente, no combate aos incêndios.

O método de arrefecimento ou redução da temperatura através da água leva a que haja uma eliminação da energia, provocando uma diminuição da temperatura do combustível (abaixo da sua temperatura de inflamação) e, consequentemente, a extinção do incêndio.

Com o avanço das civilizações, o homem começou a organizar-se para prevenir e combater os incêndios. Uma das primeiras organizações de combate ao fogo na antiga Roma foi criada em 27 A.C. com a finalidade de patrulhar todas as ruas da cidade a fim de manter a ordem e impedir a origem de qualquer incêndio.

A criação de estruturas que coordenem os mecanismos de intervenção que melhor se adaptem à cultura da cada comunidade tornou-se vantajosa.

Esta situação foi permitindo uma maior facilidade na implementação das condições necessárias à execução das prioridades no socorro, uma vez que estas estruturas são detentoras de um maior conhecimento sobre as suas comunidades.

Ao longo da história foi notória a escassez de meios e por isso houve muitas dificuldades para extinguir incêndios, especialmente aqueles de grandes proporções e de difíceis acessos. Por isso, em 872 em Oxford, na Inglaterra foi concebida uma lei com a finalidade da criação de um toque de alerta, em que o mesmo era acionado sempre que houvesse qualquer início de incêndio.

Os toques de alerta para assinalar situações de emergência serviram para reunir os meios necessários à sua resposta. A comunicação assim surgiu como um processo necessário a ser compreendido.

Atualmente, para que se proporcione uma resposta eficaz, a comunicação deve ser compreendida de várias formas, sendo importante salientar: o papel das comunicações no decurso das operações de bombeiros, os meios de comunicação e os procedimentos corretos para a sua utilização em proveito do serviço de socorro.

No ano de 1666 já existiam em Inglaterra Brigadas de Seguros Contra Incêndios. Nesse ano, após um incêndio que destrui parte da cidade de Londres, as companhias de seguros uniram-se e começaram a formar-se brigadas particulares especializadas.

Ter pessoas treinadas no combate aos incêndios é de extrema importância para se intervir de forma rápida e eficiente. A formação começou a ser cada vez mais valorizada e dirigida a todas as pessoas envolvidas, por forma a promover-se a aquisição das competências técnicas necessárias.

Nesta área específica, para além de ser exigido um grande conhecimento, como a principal ferramenta de trabalho, tornou-se relevante que todos os elementos conheçam o ambiente que os rodeia, de modo a melhor se adaptarem e interagirem.

No ano de 1679, em Boston nos Estado Unidos houve um incêndio de grandes proporções e foi criado o Primeiro Departamento Profissional Municipal contra Incêndios.

Após isso, em 1715 Boston já dispunha de 6 corporações de bombeiros e todas já equipadas com as respetivas bombas de água.

Com o decorrer do tempo houve necessidade de se criar um serviço de bombeiros mais profissional e organizado.

Em 1853, na cidade de Cinccinati foi criada a primeira organização de bombeiros profissionais, equipada com bombas a vapor sendo transportada por veículos puxados a cavalos.

Ter pessoas com disponibilidade imediata, tornou-se importante no combate aos incêndios aquando o seu aparecimento.

A inclusão de elementos nos corpos de bombeiros que tinham esta atividade como a sua profissão permitiu uma melhor organização, uma vez que esta situação levou a que houvesse uma resposta mais rápida aos pedidos de socorro, especialmente nos períodos de maior dificuldade, como é o caso do período diurno, em que a maior parte dos voluntários se encontra a trabalhar.

A existência de equipamentos modernos e adequados veio igualmente contribuir para melhores resultados no combate aos incêndios.

As primeiras escolas de bombeiros foram criadas no ano 1889 na cidade de Boston.

Para uma melhor intervenção no combate aos incêndios, houve a necessidade de que se uniformizassem técnicas e surgissem assim escolas capazes de responder a este desafio.

A divisão em áreas formativas foi resultado de uma reestruturação deste ensino.

Quando nos direcionamos para Portugal, a história dos Bombeiros já remonta ao século XIV. D. João I, através da Carta Régia de 23 de Agosto de 1395, que tomou a primeira iniciativa ao promulgar a organização do primeiro Serviço de Incêndios de Lisboa, ordenando:

“…em caso que se algum fogo levantasse, o que Deus não queria, que todos os carpinteiros e calafates venham àquele lugar, cada um com seu machado, para haverem de atalhar o dito fogo. E que outros sim todas as mulheres que ao dito fogo acudirem, tragam cada uma seu cântaro ou pote para acarretar água para apagar o dito fogo”.

O aproveitamento do maior número de recursos humanos para o combate aos incêndios assumiu-se como uma preocupação e por isso a necessidade de incutir a ideia de que ajudar é um dever de todos.

Paralelamente à recolha do maior número de pessoas para ajudar, é importante orientá-las para as tarefas em que detêm maior domínio.

Salienta-se desde essa altura uma preocupação para a utilização dos métodos de extinção, por arrefecimento ou redução da temperatura, através da água e pela remoção de combustível, através do corte de árvores e mato.

No Porto, os Serviços de Incêndio também funcionaram desde o século XV. A Câmara numa reunião em 1513 decidiu:

“Eleger diversos cidadãos para fiscalizar se os restantes moradores da cidade apagavam o lume das cozinhas à hora indicada pelo sino da noite”.

A existência de uma intervenção preventiva junto da população tornou-se necessária para que se pudesse evitar alguns incêndios.

Atualmente, para que se proporcione uma fiscalização eficaz, para além do papel dissuasor é importante considerar a existência de equipas multidisciplinares, com o objetivo de monitorizar e avaliar, quer sejam planos, programas, projetos ou simples intervenções, uma vez que estas podem promover uma real compreensão e redução do problema. Para além disso, a educação para a prática de comportamentos adequados tornou-se fundamental para redução do risco de incêndio.

No Porto, a Câmara, numa reunião em 1612 ordenou:

“…que fossem notificados os carpinteiros da cidade de que iriam receber machados e outras pessoas de que entrariam na posse de bicheiros, para que, havendo incêndios, acudissem a ele com toda a diligência”.

No Reinado de D. João IV por volta de 1646, tentou-se introduzir em Lisboa o sistema usado em Paris, tendo o Senado aprovado a aquisição de diverso material e equipamentos e concedendo prerrogativas a nível de remunerações e de habitações.

Ter o maior número de pessoas para o combate aos incêndios e munidas do equipamento mais adequado continua a ser uma preocupação. A disponibilização de equipamento e a forma como este é gerido veio permitir que o combate aos incêndios se efetuasse de forma mais organizada, com maior rapidez e segurança.

A criação de planos de intervenção em incêndios e a forma de incentivo para que estes sejam cumpridos, veio permitir melhores respostas aquando da sua ocorrência.

A instalação, em Lisboa, dos três primeiros “quartéis”, foi decidida por D. Afonso VI, em 1678:

“O Senado ordenará, com toda a brevidade, que nesta cidade haja três armazéns… e que estejam providos de todos os instrumentos que se julgarem necessários para se acudir aos incêndios, e escadas dobradas de altura competente, para que, com toda a prontidão, se possam remediar logo no princípio…”.

Para uma melhor organização das intervenções no combate aos incêndios a existência de instalações próprias tornou-se evidente. Estas apresentaram-se como um espaço de armazenamento de material do mais diverso, mas também como um ponto de concentração e preparação para o combate aos incêndios.

A localização desses quarteis decidida de forma estratégica, veio por sua vez, proporcionar uma resposta mais rápida no acesso a um maior número de locais, aquando a necessidade de intervenção.

Em 1681, a reorganização prosseguiu, tendo vindo da Holanda, duas bombas e uma grande quantidade de baldes de couro, sendo distribuídos 50, por cada bairro. Os pedreiros, os carpinteiros e outros mestres passaram a ser alistados para o combate aos sinistros, ficando sujeitos a uma pena de prisão por cada incêndio em que não comparecessem.

Para que existissem melhores condições no combate aos incêndios houve maior preocupação em ter mais equipamentos, mas também melhores e mais modernos. Atualmente, os equipamentos no combate aos incêndios apresentam-se desde os mais simples, até às tecnologias mais avançadas.

A necessidade de reunir o maior número de pessoas no combate aos incêndios levou a que a ajuda, considerada como um dever cívico, passasse a ser nessa época uma obrigação.

Em 1722, no reinado do D. João V, foi fundada no Porto a Companhia do Fogo ou Companhia da Bomba, constituída por 100 “homens práticos”, capazes de manobrarem a “Bomba, machados e fouces”.

O facto de ter um conjunto pessoas treinadas para manusear equipamentos veio permitir que o combate aos incêndios se processasse de forma mais rápida e eficiente.

A necessidade de identificar a disponibilidade de recursos humanos e a sua capacidade técnica para o combate aos incêndios, levou a que atualmente o tema sobre o recenseamento de todos os bombeiros portugueses, seja enunciado tantas vezes. Esta situação impõe-se pela necessidade de organizar todo o socorro.

No ano 1868, foram introduzidas as bombas a vapor, originando a obrigatoriedade dos proprietários instalarem bocas-de-incêndio nos prédios. Apareceu também a escada “Fernandes”, percursora da “Magyrus” e foi instituída a classe de Sotas – Bombeiros permanentes, cuja denominação era atribuída aos Capatazes dos antigos aguadeiros.

Resultado da preocupação em se criar estruturas de apoio no combate aos incêndios em edifícios urbanos, foi a instalação de bocas-de-incêndio e hidrantes no exterior dos edifícios para o abastecimento das viaturas dos bombeiros.

No interior dos edifícios, com base nos planos de emergência existem as RIA (Rede de Incêndios Armada), instaladas em colunas secas ou húmidas que podem ser usadas, pelos funcionários de empresas onde existam equipas de 1ª intervenção e também para facilitar a intervenção dos bombeiros, em caso de sinistro.

Os extintores perante outras situações, constituem-se também como instrumentos simples de manusear, portáteis e eficientes para uma primeira intervenção.

Em relação às escadas utilizadas pelos bombeiros, hoje podemos encontrar dos mais diferentes tipos, tanto para acesso, como para salvamento.

A evolução constante dos edifícios leva à necessidade permanente de modernização dos equipamentos, situação que se tem apresentado como uma realidade.

No final do séc. XIX, a necessidade da defesa civil de pessoas e bens da comunidade fez com que determinados grupos de cidadãos começassem a organizar-se em associações. Estas estruturas associativas locais sem fins lucrativos que ainda subsistem, têm a finalidade de criar e manter os corpos de bombeiros. As suas estruturas inicialmente de cariz baseadas no voluntariado (corpos de bombeiros voluntários) foram evoluindo naturalmente e incluíram também nos seus corpos, bombeiros profissionais como resposta às necessidades de socorro (corpos de bombeiros mistos).

Face ao objetivo de melhorar a qualidade do socorro deve-se valorizar as entidades detentoras dos corpos de bombeiros que permitem uma maior autossustentabilidade, pois em momentos de crise são aquelas que conseguem mais facilmente adaptar-se, quando comparadas com aquelas que são totalmente profissionais.

Por outro lado, a dificuldade de manter os corpos de bombeiros constituídos exclusivamente por voluntários na resposta às exigências do socorro, com rapidez e eficiência, levou à necessidade de incluir no seu quadro, bombeiros permanentes, especialmente nos períodos de maior dificuldade, como no período diurno, em que a maior parte dos voluntários se encontra no desempenho da sua atividade profissional.

Esta relação de resposta deve ser analisada com todo o maior cuidado.

Para uma resposta de qualidade no socorro e racionalização dos seus custos é importante analisar diversos fatores, tais como: a organização do socorro, as estratégias para as respostas face aos riscos identificados, a promoção do voluntariado, o tipo de equipamentos utilizados, a formação e a integração dos seus elementos na prestação do socorro, de entre mais fatores que poder-se-iam enunciar.

Termino salientado que, a história pode ensinar-nos que o homem não teria alcançado o possível se, muitas vezes, não tivesse tentado o impossível e que tudo isso deveu-se ao altruísmo das pessoas, ao seu sacrifício e humildade.

Aprender que através dos factos passados, podemos compreender o presente e perspetivar o futuro e sem nunca esquecer que o futuro será o que nele projetamos.

 

 

Luís Miguel Afonso Andrade

Subchefe Equiparado na A.H. de Bombeiros Voluntários Madeirenses,
Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria e Pós-Graduado em Urgência e Emergência

 

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.