A história do homem e do cão

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Rama da Silva

À explosão tecnológica que tem ocorrido ao longo do tempo associam-se também muitas histórias com laivos de futurologia sobre o que se irá passar no futuro em relação à organização social e actividade económica. Uma das mais comuns fala-nos do futuro das unidades fabris, dando conta que acabarão por só ter dois colaboradores, um homem e um cão. Ao homem cabe apenas dar de comer ao cão e a este cabe impedir que o homem possa mexer nos equipamentos automatizados.

Trata-se, é certo, de uma versão caricaturada, irónica, sarcástica até, do hipotético resultado do processo de aceleração em curso no nosso mundo, na nossa sociedade. Mas não podemos passar ao lado desta e de outras histórias que, apesar de tudo, dão que pensar sobre o que está a acontecer na sociedade, e de que modo podemos influenciar ou não essas mudanças, adequá-las às circunstâncias e às condições, preparar-nos para encará-las e assumi-las.

O processo de crescente envolvimento tecnológico, a que acresce o automatismo, há muito vem mudando o nosso mundo conferindo aos cidadãos novos papéis e a dispensa de execução de outros.

A história que aqui vos deixo, no fundo, alerta para os perigos latentes de perda de controlo do desenvolvimento, da sua liderança, da sua avaliação e orientação, arriscando-se a que outrem o faça.

O impacto das mudanças previstas ou inesperadas açambarca todos e projecta-se em tudo o que nos rodeia, inclusive as instituições, nomeadamente as associações de bombeiros. Nenhuma delas passará incólume ao processo das mudanças.

E mesmo as mudanças que possamos acautelar ou preparar, mesmo essas, poderão ser guias de outras inesperadas, ou só aguardadas, porventura, para mais tarde. Isso quer dizer que o eventual modelo que se tenha estabelecido para introduzir e adequar as mudanças, ele próprio pode ser ultrapassado pelo processo de aceleração em curso.

Há quem diga que as mudanças estão-se a tornar cada vez mais rápidas e a exigir uma pro actividade igualmente rápida.

Um responsável da Google, Ray Kurzweil, terá dito que “devido ao poder explosivo do crescimento exponencial, o século XXI será equivalente a 20 mil anos de progresso ao actual ritmo de progresso” e apontou ainda que, “as organizações têm de ser capazes de se redefinir a si próprias a um ritmo cada vez mais rápido”.

Esta verdadeira explosão social, que envolve inevitavelmente as organizações, vai influenciar o seu processo de condução e de gestão, mas também de afirmação das mesmas, incluindo a sua refundação, a sua reinvenção, à luz dos princípios fundadores, nomeadamente do voluntariado, mas traduzido em novas formas do seu exercício.

Atempadamente, as nossas associações de bombeiros têm sabido reagir e até cavalgar o processo de mudança. Veja-se o nível de formação, de busca de competências e de exigência crescente no fazer e saber fazer no socorro. Em termos exponenciais, mas muitas vezes ainda não suficientemente conhecido e reconhecido, incluindo à escala da própria comunidade em que cada uma das nossas associações de bombeiros, tem havido saltos enormes dentro da organização dos bombeiros. Não quer dizer que as comunidades e a sociedade em geral não tenham respeito e admiração pelos seus bombeiros. Mas mesmo essa imagem pode e deve sofrer melhorias qualitativas, agora no reconhecimento, não só da disponibilidade e da abnegação dos bombeiros, mas também, e em especial, dos crescentes conhecimentos, capacidades, valências e competências.

E se sobre a primeira perspectiva, ou seja, sobre o respeito e admiração pouco haverá a dizer, sobre a segunda, relativa ao crescimento técnico e operacional, há um enorme défice de divulgação, que importa especialmente acautelar. Independentemente da imagem ancestral que os bombeiros transportam, que é positiva, importa que a ela, por que é justo e verdadeiro, se junte uma imagem de modernidade, de desenvolvimento técnico e operacional como nunca se produziu.

E, se os bombeiros vão procurando acompanhar e antecipar-se às mudanças com sucesso importa também que saibam dar conhecimento disso à sua comunidade.

Como é sabido, segundo a máxima apontada a Darwin, não são as espécies mais fortes que sobrevivem, mas sim as mais adaptáveis. E, a meu ver, será assim com as organizações que, mesmo que fortes e estruturadas, não sobreviverão caso não se saibam adaptar e, acima de tudo, não saibam liderar o processo de mudanças.

Aliás, estou em crer que a bondade dos nossos propósitos e das nossas intenções, só por si, muito em breve já não chegará para dar corpo ao reconhecimento social de que os bombeiros têm justamente desfrutado. A isso, repito, teremos que associar, como igualmente importante, a visibilidade, a divulgação maciça do quanto os bombeiros têm evoluído, têm crescido. No futuro, os ratios da prontidão e da eficácia irão disputar com os propósitos o reconhecimento da sociedade.

No mundo dos bombeiros o homem terá que continuar a ter o papel principal. Ao cão, como acontece em tantos dos nossos quartéis, caberá fazer-lhes apenas companhia.

 

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Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda.
Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe.
É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.