Famílias, fações e frutos ou a História reinventada

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josé brás

Pessoa, na sua infinita sabedoria e num momento de profunda utopia, murmurou: “Deus, dá-me força para delinear, para perceber a síntese total da psicologia e da história psicológica da nação portuguesa!”[1]

Não é caso para menos, digo eu! Se virmos bem, a fundação da nacionalidade assenta nesse mítico momento da revolta juvenil no seio familiar. “Pimba… Eu quero uma “terra” só para mim”. E se bem o pensou, melhor o fez!

Na verde, as famílias constituem um alfobre profícuo de assimetrias. Ora alinhadas pelo bem comum, ora desconsiderando-se mutuamente, não há família que não tenha a sua “alma preferida” ou a fatal “ovelha negra”, sejam quais forem os motivos.

Provas? O senso comum encarrega-se de me legitimar. Mas já que nos une a vontade inteira de alinhar nesta família de rubro vestida e de altruísmo apurado, vejamos como este núcleo familiar se articula entre si.

A grande família MAI, dirigida por um patriarca multifacetado, representa o ícone da definição e execução das políticas que asseguram a autoridade do Estado, a segurança dos cidadãos e dos seus bens, a paz e ordem públicas, a livre participação política dos cidadãos e o socorro às populações. Demasiado para um homem só, na verdade! Este patriarca “deu à luz” um sem número de filhos, uma prole imensa com interesses diversificados, uns mais pacíficos, outros mais aguerridos, outros ainda mais reivindicativos. Um ponto os unia: cada qual reclamava para si um conjunto de faculdades por considerarem que o seu trabalho é bem mais necessário do que o do “irmãozinho” ao lado. Guerras fraternas, é o que é… O patriarca, vá lá saber-se a razão, vai privilegiando uns e contentando com “uns doces” os restantes.

“Assim não dá, pai.” – reclama a família de rubro vestida – “A promessa já vem de anos anteriores. Trabalhamos imenso, socorremos o País e só recebemos migalhas?”. O patriarca, austero mas ardil, lá vai prometendo “mundos e fundos”, delega competências noutros comparsas para assegurar resultados. Mais do mesmo: promessas infundadas, fações discordantes. E os frutos? Frutos não há nem pode haver quando a árvore já está minada por interesses divergentes e instalados há décadas. Contudo, e apesar do oceano de promessas incumpridas, a “ovelha negra” da família, aquela que dá tudo de si nos momentos mais severos, pouco ou nada recebe para seu benefício. Perdão, esquecia as honras fúnebres que anualmente polvilham de desgosto um verão já por si escaldante.

A família de rubro vestida não vira as costas, não faz “birra”, não faz greve. Apenas reclama o que é seu por direito. Faz obra, apesar de todas as adversidades. Isso torna-os ainda mais fortes, fazendo com que a grandeza, a heroicidade da obra seja quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar.

Fatalismo? A fatalidade não é senão aquilo que nós queremos que seja. Os bombeiros movem montanhas para alterar esse fatalismo dominante. O fatalismo é sempre uma doença do pensamento ou uma fraqueza da vontade. E os patriarcas sofrem dessa patologia.

José Brás (Professor, ex-Comandante)

[1] in ‘Manuscrito (5/9/1908)’

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.