Fardas diferentes, mas irmãos na mesma luta

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Alexandre Carvalho

Mais uma vez tinha muito para escrever nesta crónica, mas de um momento para o outro, e após uma boa conversa com dois camaradas dos Bombeiros Voluntários da Aguda e de Paço de Arcos, decidi escrever sobre o elo que une os Sapadores Florestais aos Bombeiros Voluntários: mais do que inimigos, somos irmãos.

Ainda nem a meio da conversa estávamos e já eu estava a afirmar que afinal somos mais parecidos nos problemas do que eu imaginava, pois as fardas são diferentes mas os problemas são idênticos.

Veja-se a luta que os Bombeiros Voluntários travam há anos pela aprovação do Estatuto Profissional que regulamente toda a atividade, que melhore as condições de trabalho, que exija aumentos salariais, que melhore a atribuição de equipamentos de proteção individual, entre muitas outras. Assistem ainda a tentativas de silenciamento quando usam a palavra para exigir mudanças efetivas, são postos de lado ou vêm-se confrontados com processos disciplinares.

Agora veja-se a luta dos Sapadores Florestais, sem Carreira e Estatuto Profissional que regulamente todo o setor, marginalizados pelo Governo face à abertura do concurso da Força de Sapadores Bombeiros Florestais do ICNF, sem aumentos salariais ajustados às suas funções, sem condições de segurança e higiene, sem Equipamentos de Proteção Individual (EPI) adequados à função que estão a realizar, com salários em atraso, trabalho suplementar que não é pago, sujeitos a todo o tipo de intimidação e represálias, e condicionados na sua liberdade de opinião, expressão e pensamento.

Afinal somos parecidos nos problemas e nas lutas que travamos, mudamos o contexto da palavra e a conjugação do verbo, mudamos a farda e a cor, mas no essencial somos iguais.

Os setores estão divididos, desfragmentados, desinformados, esquecidos… E porquê? Porque interessa a muita gente que seja assim, interessa aos lóbis dos amigos que se alimentam das fragilidades, interessa a quem acha que a escravatura ainda não acabou, interessa ao governo e a quem dele procura um lugar ao sol.

Fico feliz quando vejo outras organizações a juntarem-se à luta pela Integração dos Sapadores Florestais na Carreira de Sapador Bombeiro Florestal do ICNF. É sinal de que o Sindicato Nacional da Proteção Civil tem razão quando iniciou a luta pela integração de todos os Sapadores Florestais nesta carreira, embora saibamos que não basta a integração na Carreira. É preciso também a criação de um Estatuto Profissional que seja abrangente a todos os Sapadores Florestais, sobretudo do setor privado, e que acabe com a desigualdade instalada entre público e o privado, pois, na verdade, somos Todos Sapadores Florestais de Portugal.

Abril é mês da liberdade, de expressão, de opinião, de pensamento. É mês da Constituição da República Portuguesa onde se consagram os direitos fundamentais para os trabalhadores, Direitos, Liberdades e Garantias essenciais à nossa dignidade, ao nosso trabalho e a nossa luta.

E a nossa luta é feita todos os dias quando vestimos a farda e usamos esse poder para salvar vidas, salvar o nosso património natural, cuidar do próximo e da floresta. Juntos protegemos o que de maior valor existe em Portugal. Muitas vezes vamos sem saber se voltamos, mas vamos sem medo, porque ao toque da chamada ou da sirene lá estamos nós prontos para o que der e vier.

Somos e continuaremos a ser amanhã e sempre Bombeiros Voluntários e Sapadores Florestais unidos pela luta e pelo compromisso de servir Portugal.

“agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!”
Ary dos Santos

 

Alexandre Carvalho

About author

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).