Falar verdade a mentir

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josé brásNão fosse esta uma época festiva, fraterna, altruísta, e julgaria eu que estaria a viver, bem por dentro, no cenário burlesco de uma peça garrettiana, com sabor oitocentista.

Já muito se falou sobre a época “piroestival” deste ano, outro tanto se discorreu sobre as causas desse nefasto episódio, outras mais se ajuizou sobre as conclusões a retirar após o final da temporada. De súbito, o mundo emudeceu… Não fossem umas breves alusões a fogos florestais “fora de prazo”, a uma ou outra notícia de rodapé e tudo pareceria estar bem no seio de uma das profissões mais prestigiadas pelos portugueses.

Mentira, caros amigos… Uma douta e sublime mentira atravessa o território e poucos – por inércia ou inaptidão – foram capazes de “colocar o dedo na ferida”, até porque ela dói mas já quase nem se sente, tal o estado necrófago da chaga.

Na verdade, parece que todos se preocuparam (e ainda preocupam, ao que parece…) com a bendita palavra-chave que trespassa todos os quadrantes da sociedade lusa: a segurança parece constituir o elo fundamental desta cadeia, o elemento basilar para o sucesso da operação.

Afinal, quem fala verdade neste processo? Aqueles que a promovem ou aqueles que verificam a sua reduzida eficácia nos teatros de operações?

Folheei relatórios exaustivos, ouvi desabafos dos operacionais, li páginas de jornal. Numa delas, datada de setembro deste ano1, afirma-se “que há ainda um longo caminho a percorrer ao nível dos cuidados de segurança durante o combate às chamas.

Numa outra2, percebi que, à data da publicação, o MAI afirmara ter sido feito um “esforço muito significativo no reforço das corporações de bombeiros” ao ser atribuído um aumento de “11,3%, no valor de 2,3 milhões de euros, além dos investimentos feitos na aquisição de rádios e de equipamento individual de proteção, no montante de 5 milhões”, além do aumento, de 50 para 80%, na “comparticipação aos veículos dos bombeiros perdidos em acidentes operacionais”. Perante tal medida, os bombeiros rejubilam, proferem vivas e aleluias, qual poeta Pessoa em “Ode Triunfal”.

Apenas um dos periódicos revelou, no meu entender, o essencial: a segurança não se encontra unicamente nos materiais quase indestrutíveis que os operacionais transportam consigo; a segurança não pode ser unicamente observável nos milhões atribuídos às corporações; a segurança não se encontra unicamente nas máquinas e materiais diversos.

A segurança só produzirá efeitos quando se registar mudança nas atitudes perante as situações encontradas, quando se promove uma cultura de prevenção a sério, quer nas corporações – aumentando a exigência e o desempenho dos operacionais através do incremento da atividade formativa – quer na classe política – promovendo a reorganização dos serviços e a correta ordenação do território – quer na sociedade em geral, através da consciência cívica comum para um problema que é de todos.

Neste Natal, gostava que o Menino Deus distribuísse montanhas de bom senso a uns, carregamentos excessivos de ousadia e coragem a outros e, para todos, “tsunamis” de boa vontade entre os Homens. Só assim se superam as dificuldades terrenas, enquanto por aqui andarmos.

Um Feliz e Santo Natal para todos!

José Brás
(Ex- Comandante; Professor)

 

1 – in http://www.noticiasdecoimbra.pt/xavier-viegas-volta-a-dar-licao-sobre-fogos-felorestais/

2 – in http://www.publico.pt/portugal/jornal/ministro-diz-ter-dado-mais-113-aos-bombeiros-27294165

 

 

About author

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

  • Manoel

    Palavras avisadas. As ferramentas, sejam elas quais forem,
    valem pelo uso que delas se fizer. E o dinheiro também…

    Assim, importa, como foi dito, incrementar a mudança de
    atitude e promover o surgimento de um novo paradigma no que à segurança
    concerne.

    Junte-se a apontada necessidade de ordenar o território e
    vemos aqui traçado um quadro de contornos bem definidos. O diagnóstico está
    feito, o tratamento está experimentado e comprovado em outras paragens.

    Perante isto, apetece-me perguntar: Pelo que esperamos para
    tratar definitivamente esta chaga?

    Boas Festas, senhor Comandante.

    • josé brás

      Caro amigo Manoel
      Agradeço as tuas palavras sábias.
      Na verdade, se existir vontade entre os Homens, deixaremos de chorar as vítimas que todos os anos parecem ter lugar marcado num teatro de operações, algures neste país.
      Se quisermos, a chaga pode ser tratada de acordo com as regras estabelecidas.
      Deixemos que o livre arbítrio do Homem seja capaz de cumprir com o estabelecido e o enfermo, decerto, “ressuscitará” pleno de força.
      Boas Festas, caro amigo.
      Abraço