“Eu duvido; logo penso, logo existo”

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josé brásA máxima pertence a Descartes, filósofo francês: “Eu duvido; logo penso, logo existo”.
Na verdade, é assim que me sinto todos os anos quando ouço a “verborreia piro-primaveril” relacionada com a chamada época de fogos florestais. Tenho a certeza que existo porque penso e duvido cada vez mais.

Faz-me lembrar aquela velha história do professor de Filosofia entra na sala de aula, põe a cadeira em cima da mesa e escreve no quadro: «Provem-me que esta cadeira não existe.»
Apressadamente, os alunos começam a escrever longas dissertações sobre o assunto. No entanto, um dos alunos escreve apenas duas palavras na folha e entrega-a ao professor. Este, quando a recebe, não pode deixar de sorrir depois de ler: «Qual cadeira?»

É assim todos os anos! Todos os anos assistimos a uma parafernália de ações mediáticas, para “inglês ver” e… nada de novo! Mais dinheiro para o combate, mais equipamento individual, mais formação, mais meios humanos, terrestres e aéreos. Até mega simulacros de incêndios florestais, disponíveis para objetivas ávidas de propaganda captarem o momento e “mais tarde recordar”, servem para demonstrar que “tudo está bem preparado” e que “temos todos os meios necessários” para o combate à fera. Que comece a festa! Que saia o touro dos curros! Havemos de fazer a pega bem-feita, nem que seja de cernelha.

A falta de crença é notória na alma de todos aqueles que dão o corpo à fera. A arena onde se digladiam é gigantesca, a fera revolta-se amiúde e embate com violência, sem rodeios, sem pedir licença.
Afinal, que significa este “tudo bem preparado”? Que significa “temos todos os meios necessários”?

Novamente, a retórica e a tónica colocada no elo mais frágil de uma cadeia apelidada de Proteção Civil: sempre é mais fácil apostar no combate do que prevenir acidentes, todos os acidentes que daí advenham.
Então, por que razão se diz que tudo está preparado quando a montante tudo está por fazer? Por que razão se diz que possuímos todos os meios necessários quando o elemento essencial – a vontade humana – ainda não assimilou que é imperioso estimular a mudança de atitudes?

Com paciência e perseverança tudo se alcança mas é muito mais fácil conseguir resultados imediatos sem que haja preocupação em amanhar o terreno, lançar a semente e esperar que esta frutifique.
Apetece-me, à maneira de Descartes, dizer que existo, dizer que penso e que continuarei a duvidar deste circo mediático, feito à custa de homens e mulheres que merecem e exigem respeito.

José Brás
(Professor; ex-Comandante)

 

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.